terça-feira, 21 de março de 2017

O DIA DO ATENTADO

O DIA DO ATENTADO (Patriots Day, 2016, Bluegrass Films/CBS Films/Closest to the Hole Productions, 133min) Direção: Peter Berg. Roteiro: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer, estória de Peter Berg, Matt Cook, Paul Tamasy, Eric Johnson. Fotografia: Tobias A. Schliessler. Montagem: Gabriel Fleming, Colby Parker Jr.. Música: Trent Reznor, Atticus Ross. Figurino: Virginia Johnson. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Ronald R. Reiss. Produção executiva: Louis G. Friedman, Eric Johnson, Nicholas Nesbitt, John Logan Pierson, Paul Tamasy, Dan Wilson. Produção: Dorothy Aufiero, Dylan Clark, Stephen Levinson, Hutch Parker, Michael Radutzky, Scott Stuber, Mark Wahlberg. Elenco: Mark Wahlberg, Kevin Bacon, Michelle Monaghan, J.K. Simmons, John Goodman. Estreia: 17/11/16

Algo semelhante já havia acontecido em 1974, quando dois projetos diferentes com o mesmo tema - no caso um incêndio de grandes proporções em um arranha-céu - se transformaram em um único filme, o mastodôntico "Inferno na torre", dirigido por John Guillermin e estrelado por gente do naipe de Paul Newman, Steve McQueen, Faye Dunaway e Fred Astaire. "O dia do atentado" não tem o mesmo escopo milionário, mas tem uma origem semelhante: dois roteiros independentes que, com o mesmo pano de fundo, se fundem em um mesmo produto, com intenções e ritmos distintos para atingir todos os públicos possíveis. Assim, o mesmo filme se divide em um quase documentário sobre o trágico atentado na Maratona de Boston em 2013 -  com detalhes sobre a investigação que levou aos culpados e momentos de ação e suspense - e um drama a respeito das vítimas e seus familiares, assim como todos os envolvidos na busca pelos criminosos. Centrada principalmente em um personagem criado especialmente para o filme como um amálgama de vários policiais da cidade, a terceira colaboração entre o diretor Peter Berg e o ator Mark Wahlberg é um competente entretenimento, mas que peca justamente por sua falta de foco. Quando se concentra no melhor que Berg sabe fazer (uma obra tensa e eficiente de suspense) é um ótimo filme. Quando busca a emoção mais sutil acaba por perder o ritmo imposto por algumas sequências de tirar o fôlego.

Assim como no ótimo "O grande herói" (2014) e no apenas mediano "Horizonte profundo" (2016) - as colaborações anteriores do cineasta com Wahlberg - o roteiro de "O dia do atentado" tem como objetivo realçar os momentos mais valorosos de seus protagonistas, mas nem sempre o equilíbrio funciona nesse terceiro capítulo. À vontade quando dirige sequências mais tensas e tecnicamente complexas, Berg parece não ter a mesma desenvoltura em comandar momentos de maior emoção - o que acaba por fazer com que seu filme, por mais que tente fugir do rótulo, seja mais um exemplar de um gênero que tem fãs incondicionais ao redor do mundo: "O dia do atentado" até se esforça em ser mais do que um filme policial de ação, mas sua vocação para entretenimento rápido (mais do que um drama edificante e memorável) fica evidente sempre que suas câmeras passam do sofrimento nos hospitais para a adrenalina das ruas. Com uma edição competente e um desenho de som inteligente, a corrida atrás dos responsáveis por um dos mais graves atentados à bomba em território americano da história é muito mais empolgante e interessante do que os cuidados médicos a suas vítimas. Coincidência ou não, o filme "O que te faz mais forte", estrelado por Jake Gyllenhaal (e que conta a trajetória de um dos sobreviventes) foca mais no drama pessoal do protagonista - e acaba sendo um complemento à obra de Berg.


Ao contrário da maioria dos filmes norte-americanos que recriam as tragédias ocorridas em seu solo como produções de heroísmo pessoal (vide "Torres gêmeas", de Oliver Stone e o próprio "Horizonte profundo", do mesmo Peter Berg), "O dia do atentado" demora a estabelecer-se como um filme de ação, preferindo gastar seus preciosos minutos iniciais apresentando alguns dos personagens que irão conviver com o público pelas duas horas seguintes. É assim que surge o Sargento Tommy Saunders (Mark Wahlberg sem muito o que fazer e sem a importância que alguns cartazes fazem entender): casado com a bela Carol (Michelle Monaghan), ele se destaca no trabalho pelas ruas de Boston, cidade a que conhece como a palma da mão. É ele quem irá ser a peça crucial na caçada aos irmãos Tsarnaev - os culpados pela explosão de uma bomba junto aos espectadores da tradicional maratona da cidade. Antes que a caçada comece, no entanto, o roteiro faz questão de introduzir à audiência outros nomes fundamentais da história, como o casal Patrick Downes (Christopher O'Shea) e Jessica Kinsky (Rachel Brosnahan), a jovem cientista Li (Lana Condor), o estudante Dun Meng (Jimmy O. Yang) e Steve Woolfenden (Dustin Tucker) e seu filho pequeno: todos serão vítimas, em maior ou menor grau, do violento incidente, e Berg cuida para não exagerar na sacarose, tratando seus personagens com respeito e cuidado - mesmo que posteriormente os acabe deixando em segundo plano).

Depois de explosão - antecedida com sequências que mostram sua preparação pelos irmãos Tamerlan (Themo Melikidze) e Dzokhar (Alex Wolff) - a trama de "O dia do atentado" finalmente se bifurca, convidando a plateia para testemunhar a agonia das vítimas da explosão (nada de muito sofisticado emocionalmente ou tampouco inédito) e a corrida dos policiais do FBI, liderados pelo agente especial Rick Deslauriers (Kevin Bacon), atrás dos responsáveis. As longas sequências pelas ruas da cidade, em uma noite particularmente tensa e violenta, são preciosas, mostrando o cuidado do diretor em ser ao mesmo tempo realista e capaz de envolver o público com as ferramentas básicas do suspense. São momentos em que o filme cresce e atinge todo o seu potencial - algo que o mesmo diretor fez em "O grande herói", uma produção de guerra que explora todos os elementos do gênero de forma inteligente e honesta. A opção do roteiro em não fazer de Tommy Saunders um herói individual é corajosa, uma vez que o público espera algo assim de um filme de ação, mas acaba, paradoxalmente, enfraquecendo um pouco seu clímax - apesar de ele ser, ainda assim, potente o bastante para grudar a plateia na poltrona. No fim das contas, "O dia do atentado" é um bom filme de ação, com algumas doses de drama e um domínio técnico invejável de sua equipe. Não é inesquecível, mas está um patamar acima da média das produções do gênero simplesmente por não subestimar a inteligência do espectador.

segunda-feira, 20 de março de 2017

ARMAS NA MESA

ARMAS NA MESA (Miss Sloane, 2016, Transfilm/Archery Pictures/Canal + Distribution, 132min) Direção: John Madden. Roteiro: Jonathan Perera. Fotografia: Sebastian Blenkov. Montagem: Alexander Berner. Música: Max Richter. Figurino: Georgina Yarhi. Direção de arte/cenários: Matthew Davies/Peter P. Nicolakakos. Produção executiva: Patrick Chu, Claude Léger, Jonathan Vanger. Produção: Ben Browning, Khris Thykier, Ariel Zeitoun. Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Alison Pill, John Litghow, Christine Baranski, Michael Stuhlbarg, Sam Waterston, Jake Lacy, Dylan Baker, Gugu Mbatha-Raw. Estreia: 11/11/16

Uma das mais poderosas e importantes dos EUA, a indústria bélica afeta diretamente a economia e a sociedade norte-americanas, uma das mais benevolentes em leis de porte e compra de armas - e cujas consequências frequentam o noticiário com assustadora regularidade, com atentados violentos e mortais contra civis. O tema chegou a ser tema do impressionante documentário "Tiros em Columbine", de Michael Moore, vencedor do Oscar da categoria em 2001, e volta e meia serve de assunto para discussões sérias e polêmicas que envolvem políticos, empresários e a sociedade em geral, mas Hollywood, sintomaticamente, poucas vezes entrou na controvertida questão. Por isso não deixa de ser uma surpresa que um filme como "Armas na mesa" tenha surgido - ainda que timidamente, uma vez que não foi bem nas bilheterias e foi injustamente ignorado pelo Oscar - e tocado nesse nervo tão dolorido do american way of life. Dirigido por John Madden, que já conheceu o gostinho do sucesso com "Shakespeare apaixonado" (98) e estrelado por uma avassaladora Jessica Chastain, merecidamente indicada ao Golden Globe de melhor atriz dramática, o filme não aprofunda a questão, mas a utiliza como pano de fundo para uma trama inteligente e envolvente, que surpreende até os minutos finais.

A fascinante e complexa protagonista é Elizabeth Sloane, uma lobista talentosa e afeita a métodos pouco ortodoxos para atingir seus objetivos profissionais - mas que, paradoxalmente, só aceita trabalhos que vão ao encontro de seus princípios pessoais. É por essa razão que ela recusa a oferta milionária de um grupo de empresários que a procuram para que ela batalhe contra uma emenda constitucional que propõe mais rigidez na liberação de licenças para porte de arma no país. Conforme o raciocínio das velhas raposas, o fato de Elizabeth ser mulher poderia lhe dar ainda mais confiabilidade junto ao público feminino - seu maior alvo. Sentindo-se pressionada até mesmo por seu chefe, George Dupont (Sam Waterston), ela surpreende a todos ao aliar-se com uma firma de advocacia concorrente, que tenta justamente o oposto no Congresso. Liderada por Rodolfo Schmidt (Mark Strong), a nova equipe da ousada lobista passa a ser formada por antigos colaboradores, que entram, então, em rota de colisão com os remanescentes de seu antigo grupo, como o ambicioso Pat Connors (Michael Stuhlbarg) e a jovem Jane Molloy (Alisson Pill). Disposta a qualquer coisa para manter seu currículo, Elizabeth Sloane não medirá esforços para conquistar a opinião pública - inclusive usar o trauma de uma colega, Esme Manucharian (Gugu Mbatha-Raw), cujo passado esconde um terrível acontecimento.


Com um roteiro que vai revelando aos poucos todos os seus desdobramentos e uma personagem central repleta de nuances, "Armas na mesa" é um filme feito para adultos, para uma plateia exigente que busca tramas consistentes e imprevisíveis. Sua protagonista é uma das mais impressionantes da temporada 2016, e a interpretação irretocável de Jessica Chastain (mais uma, na verdade) é, além de sua maior qualidade, seu ponto de sustentação. Ao dotar Elizabeth Sloane de uma série de defeitos e aproximá-la do espectador médio - com suas frustrações pessoais, sua solidão, sua inadequação à normalidade - o filme trabalha de maneira exemplar a intersecção entre a trama política e o drama pessoal, que o leva a um clímax poderoso e surpreendente. Chastain está brilhante e rouba todas as cenas em que aparece, seja humilhando opositores, discutindo com inimigos, conversando com o terapeuta ou ensaiando uma hesitante relação com o garoto de programa Forde (Jake Lacy), que lhe faz repensar algumas de suas atitudes. Seu desempenho é tão forte que eclipsa até mesmo gente talentosa como John Lithgow e Sam Waterston, que pouco tem a fazer senão pontuar seu show. Não foi à toa que John Madden pensou imediatamente nela quando leu o roteiro - ambos já tem outro trabalho em conjunto, o subestimado "A grande mentira" (2010), mas aqui atingem um outro nível de entendimento profissional, absolutamente mais sofisticado.

De ritmo mais lento que a maioria das produções hollywoodianas - que privilegiam uma edição histérica em detrimento do desenvolvimento de personagens e de sua história - "Armas na mesa" convida o público a não apenas refletir sobre um tema relevante, mas também a mergulhar em um universo poucas vezes retratados com fidelidade no cinema. Ao testemunhar as artimanhas de Elizabeth em sua trajetória rumo ao sucesso profissional, a plateia se vê diante de um mundo de negociações escusas, de mentiras, chantagens e jogos baixos que em muito reflete a realidade não só norte-americana, mas de todos os países democráticos do mundo. Sem forçar a mão nas discussões políticas e preferindo enfatizar a personalidade dúbia de sua protagonista, o roteiro de Jonathan Perera torna-se universal e brinda a audiência com diálogos acima da média e um desenvolvimento gradual, que conquista a cada cena, até seu final explosivo. Um filme que merece ser descoberto - e que injustamente não rendeu à sua atriz principal todos os aplausos que ela merece.

domingo, 19 de março de 2017

AMY (Amy, 2015, Film4/On The Corner Films, 128min) Direção: Asif Kapadia. Fotografia: Rafael Bettega, Jake Clennell, Ernesto Herrmann. Montagem: Chris King. Música: Antonio Pinto. Produção executiva: Adam Barker, David Joseph. Produção: James Gay-Rees. Estreia: 16/5/15 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Melhor Documentário

Foi meteórica, mas foi marcante e inesquecível. A passagem da cantora britânica Amy Winehouse pela vida - breve, de meros 27 anos - não deixou ninguém indiferente. Dona de uma voz peculiar, um estilo próprio e uma existência recheada tanto de sucesso quanto de polêmicas, Winehouse deixou o mundo em 23 de julho de 2011, e seu final melancólico nem chegou a ser surpreendente. Foi a crônica de uma morte anunciada: seus problemas com álcool e drogas, que a levavam constantemente às páginas de tabloides sensacionalistas mais do que às reportagens sobre música, estavam claramente a conduzindo para um desfecho trágico. E pior ainda: o mundo estava testemunhando calado sua decadência física, mais preocupado no folclore ligado a seu nome no que na qualidade de seu talento. Vítima frequente de deboche e caricaturas, Winehouse pereceu diante da mesma audiência que um dia a cobriu de aplausos - e no outro viu nela o alvo perfeito para uma perseguição mórbida e criminosa. Uma personalidade fascinante e complexa, a cantora que tirou o pó do jazz e o apresentou para uma geração de fãs de música pop é o tema de "Amy", o belo e triste documentário dirigido pelo mesmo Asif Kapadia do celebrado "Senna" (2010). Vencedor do Oscar da categoria e outros 50 prêmios em festivais e por associações de críticos, o filme é um retrato fiel e carinhoso da artista - e uma feroz crítica à indústria das celebridades.

Com acesso a imagens exclusivas e raras da adolescência e juventude de Amy - cortesia da família da cantora, que posteriormente rejeitou o resultado final do projeto, alegando que o filme não lhes era simpático ou ao menos justo - o documentário de Kapadia é um presente para os fãs, mostrando um lado de Winehouse que poucas vezes chegava até à mídia. Através de filmes caseiros, é possível conhecer um Amy ainda bastante jovem e já concentrada em seu desejo de fazer música, mas cercada de amigos e familiares que lhe davam amor e apoio - ao menos até que a ausência paterna tenha começado a fazer seus estragos: sofrendo de bulimia e uma insegurança quase patológica, Amy viu no palco e nos estúdios a válvula de escape para uma existência mais significativa, mas jamais poderia supor que, ao lado do sucesso, de mãos dadas com ele, estava o fim da privacidade que tanto amava. Sem buscar o sucesso a qualquer preço ou a celebridade oca, sua intenção era compor e cantar seus sentimentos mais profundos - o que acabou levando-a, com o tempo, a chegar nas paradas de sucesso e ver-se soterrada por responsabilidades e cobranças que ela preferia evitar. Por trás do abuso de drogas e álcool, sempre esteve a menina deslumbrada com seus ídolos (Tony Bennett entre eles) e a filha carente de amor paterno, que, como qualquer pessoa normal, errava ao escolher seus amores da mesma forma com que conquistava o coração de milhares de admiradores de boa música.


Sem medo de apontar o dedo para aqueles que certamente contribuíram para a decadência física e mental de Amy, o documentário dá ênfase a dois homens que nortearam a vida e a carreira da cantora. O primeiro deles, seu próprio pai, Mitch Winehouse, que aproveitou-se do sucesso da filha para lucrar mesmo que isso fosse contra sua vontade (e as necessidades médicas e psicológicas). O segundo, seu marido, o músico Blake Fielder, que inspirou seu álbum mais famoso, "Back to black" quando a abandonou para voltar para uma ex-namorada e aprofundou seu consumo de drogas, lhe apresentando a heroína e iniciando um relacionamento marcado por escândalos, clínicas de reabilitação, manchetes sensacionalistas e uma série de decepções que transformaram a Amy Winehouse vencedora do Grammy, fenômeno do jazz e adorada por milhares de fãs na Amy Winehouse agressiva, irresponsável e alvo mais de chacotas e críticas do que de elogios. Sua fragilidade física e mental é mostrada de forma clara e direta por Kapadia, que novamente descarta qualquer tipo de narração em off para construir seu filme unicamente com imagens e áudios, que dão a exata noção de como vivia (e como morreu) uma das mais exploradas figuras da música popular do século XXI. E, como não poderia deixar de fazer, também responsabiliza o público por seu drama pessoal.

Perseguida incansavelmente pela mídia, Amy Winehouse passou de estrela da música a atração de programas e jornais sensacionalistas. Em pouco tempo sua música deixou de ter o destaque que merecia e foi substituída por um interesse quase doentio da imprensa, que sabia que, a cada escândalo, a cada internação, a cada show cancelado e a cada fofoca de bastidores, mais jornais e revistas venderia. Amy virou a pessoa certa para quem procurava barracos e situações constrangedoras, um fato alimentado pelos leitores e telespectadores que começavam a enxergá-la como parte do folclore do mundo das celebridades. O documentário não hesita em forçar o espectador em colocar a mão na consciência e perceber o quanto isso tudo influenciou negativamente na trajetória de Amy, uma jovem que queria apenas cantar suas dores e frustrações e se viu diante do furacão incontrolável da fama mundial. Enquanto se faziam piadas sobre seu estado e a colocavam como uma patética personagem de si mesma, ela se afundava mais e mais em um estado irremediável de angústia e solidão. Esse retrato sem piedade de um ser humano e suas tentativas de sobreviver diante de fatos sobre os quais não tinha controle é o mais triste de "Amy", mas é também o que o faz imprescindível para se compreender a verdadeira Winehouse por trás da fama, dos boatos e do falso glamour da fama. Um filme obrigatório, e não somente para os fãs.

sábado, 18 de março de 2017

AMOR POR DIREITO

AMOR POR DIREITO (Freeheld, 2015, Double Feature Films, 103min) Direção: Peter Sollett. Roteiro: Ron Nyswaner. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Mondsheim. Música: Johnny Marr, Hans Zimmer. Figurino: Stacey Battat. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Joanne Ling. Produção executiva: Hilary Davis, Adam Del Deo, Richard Fischoff, Stephen Kelliher, Taylor Latham, Tiller Russell, Natalia Saenz, Robert Salerno, Gregory R. Schenz, Ameet Shukla, Scott Stone. Produção: Kelly Bush Novak, Julie Goldstein, Phil Hunt, Duncan Montgomery, Ellen Page, Compton Ross, Jack Selby, Michael Shamberg, Stacey Sher, James D. Stern, Cynthia Wade. Elenco: Julianne Moore, Ellen Page, Michael Shannon, Steve Carrell, Josh Charles, Luke Grimes. Estreia: 13/9/15 (Festival de Toronto)

Laurel Hester é uma detetive da polícia de Nova Jersei. Inteligente, corajosa e absolutamente dedicada ao trabalho, ela é respeitada pela corporação e pelos colegas, além de ser considerada uma das mais competentes policiais da cidade. Porém, sem que ninguém de suas relações profissionais saiba, Laurel é lésbica - e tem plena consciência de que assumir sua sexualidade em um ambiente machista e conservador pode ter consequências óbvias em sua carreira, como o deslocamento para o serviço burocrático e seu afastamento da lista de promoções. Mesmo quando se apaixona pela jovem Stacei Andree, que trabalha como mecânica, Laurel sabe que precisa manter seu relacionamento o mais discreto possível, apesar de ser quase obrigada a dividir seu segredo com o parceiro, Dane Wells. Sua condição, no entanto, vem à tona no pior momento de sua vida: diagnosticada com um agressivo e incurável câncer no pulmão, a séria e responsável agente entra na Justiça para exigir que, após a sua morte, sua pensão fique com Stacei, assim como acontece como todos os casais heterossexuais da força policial. O preconceito e a burocracia ameaçam interromper o processo, mas a entrada em cena do militante gay Steven Goldstein - excêntrico, pouco discreto e barulhento - torna o caso algo de interesse nacional.

Foi logo que assistiu à história de Laurel e Stacei, no documentário em curta-metragem "Freeheld", dirigido por Cynthia Wade e vencedor do Oscar da categoria em 2008, que o roteirista Ron Nyswaner resolveu que ela precisava ser contada para um público mais amplo - e com um alcance maior do que o curta original. Também indicado ao Oscar - por seu trabalho em "Filadélfia" (93) - e autor do roteiro do telefilme "Um amor na trincheira" (2003), que narrava a trágica história real do amor entre um jovem soldado e uma transformista, Nyswaner parecia a pessoa mais adequada para explorar todas as dramáticas nuances de uma batalha jurídica que buscava, mais do que apenas justiça, o respeito e a igualdade. Tendo entre seus produtores a própria Cynthia Wade e a atriz Ellen Page - que assumiu sua homossexualidade durante as filmagens, oferecendo um senso extra de realismo ao projeto - "Amor por direito" estreou no Festival de Toronto de 2015 prometendo emocionar o público e dar a largada na disputa pelos principais prêmios da temporada (a saber, Golden Globo e Oscar). Não deu muito certo: saiu sem nenhuma estatueta nos festivais e foi ignorado tanto pela imprensa estrangeira em Hollywood quanto pela Academia - mais por ter sido lançado em um ano bastante disputado do que por falta de qualidades, ainda que o resultado final nunca seja mais do que apenas correto.


Com a direção do pouco conhecido Peter Sollett, cujo trabalho mais famoso é o cult jovem "Nick & Norah: uma noite de amor e música", de 2008, "Amor por direito" tem como seu principal atrativo o nome de Julianne Moore, no papel da corajosa Laurel Hester. Recém premiada com o Oscar de melhor atriz por seu desempenho em "Para sempre Alice", Moore mais uma vez entrega uma atuação caprichada, ainda que esbarre em um roteiro pouco inspirado. Talvez preso em sua tentativa de honrar a trajetória de sua protagonista, Nyswaner pouco ousa em sua narrativa, adotando uma linearidade que por vezes soa bastante apática. Demorando em finalmente chegar ao ponto - e explorando sem necessidade procedimentos policiais para enfatizar a dedicação de Laurel à carreira - o roteiro também parece ter medo de apelar para a emoção: em sua opção de evitar o sentimentalismo, "Amor por direito" falha em seu objetivo de comover o público, apesar do esforço de seu elenco. A história de amor entre Laurel e Stacei, acaba, portanto, sendo menos interessante do que sua batalha judicial por igualdade - um enfoque que acaba por tornar-se o ponto mais certeiro do filme.

Quando abandona o drama romântico para concentrar-se na luta de Laurel e Stacei por seus direitos civis, o filme de Sollett cresce, especialmente quando entra em cena o melhor personagem do filme, o gay judeu interpretado por Steve Carrell (em substituição à Zach Galifianakis). Ator revelado em comédias mas alçado ao status de ator dramático graças a interpretações surpreendentes em filmes como "Pequena Miss Sunshine" (2006) e "Foxcatcher" (2014), Carrell equilibra bem suas duas vertentes de atuação, transformando Steven Goldstein no catalisador de uma corrente de solidariedade e apoio às duas protagonistas mesmo quando seus exageros e extravagâncias correm o risco de por tudo a perder. Seu desempenho vibrante é o contraste perfeito da atuação discreta e sempre eficiente de Michael Shannon, que vive o parceiro profissional de Laurel com sutileza ímpar. Sempre que a história se concentra nas reuniões com os responsáveis por aprovar ou não o pedido de pensão para Stacei, o filme ganha humanidade e relevância - e de certa forma compensa a falta de química entre Julianne Moore e Ellen Page, duas excelentes atrizes, mas que parecem pouco à vontade em cena. Ainda assim, são convincentes o bastante para manter a atenção do espectador até o final. "Amor por direito" pode não ser o grande filme que prometia, mas sua importância e urgência é inegável.

sexta-feira, 17 de março de 2017

99 CASAS

99 CASAS (99 homes, 2014, Broad Green Pictures/Hyde Park Entertainment, 112min) Direção: Ramin Bahrani. Roteiro: Ramir Bahrani, Amir Naderi, estória de Ramir Bahrani, Bahareh Azimi. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Ramin Bahrani. Música: Antony Partos, Matteo Zingales. Figurino: Meghan Kasperlik. Direção de arte/cenários: Alex DiGerlando/Monique Champagne. Produção executiva: Mohammed Al Turki, Ron Curtis, Manu Gargi, Arcadiy Golubovich. Produção: Ashok Amritraj, Ramin Bahrani, Justin Nappi, Kevin Turen. Elenco: Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern, Clancy Brown. Estreia: 29/8/14 (Festival de Veneza)

Em 2003, o cineasta ucraniano Vadim Perelman conquistou a crítica - e indicações ao Oscar de melhor ator, atriz coadjuvante e trilha sonora original - com sua adaptação do romance "Casa de areia e névoa", escrito por Andre Dubus III, que fazia uma crítica contundente às leis dos EUA relacionadas ao mercado imobiliário (e de quebra retratava a árdua luta dos imigrantes por uma vida digna). Mais de uma década depois, outro cineasta de origem estrangeira - Ramin Bahrani, nascido na Carolina do Norte mas filho de imigrantes iranianos - põe o dedo na ferida da especulação e da corrupção que corrói as entranhas do sonho americano. Inspirado em uma história real mas sem prender-se a nenhum tipo de compromisso de fidelidade com os desdobramentos da ação, Bahrani criou um drama angustiante e dolorosamente realista, que, amparado por uma atuação inspiradíssima de Andrew Garfield, emociona e incomoda sem fazer concessões ao dramalhão fácil. "99 casas" é, facilmente, um dos pequenos grandes filmes da temporada 2014 - e, como é comum, praticamente ignorada pelas cerimônias de premiação: Michael Shannon chegou a ser eleito o melhor coadjuvante do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles e indicado ao Golden Globe e ao Spirit Award, mas a produção passou praticamente em brancas nuvens pelo cinema.

É compreensível: não deve ser nada fácil ser americano e assistir ao que acontece em "99 casas" - aliás, basta ter um mínimo de sensibilidade para ser atingido pelo drama do protagonista, Dennis Nash (Andrew Garfield), um jovem trabalhador na construção civil que, em dificuldades de encontrar um trabalho que lhe pague o bastante para pagar a hipoteca da casa onde mora com a mãe, Lynn (Laura Dern), e o filho pequeno, Connor (Noah Lomax). Com uma dívida maior do que suas posses, ele acaba por ser despejado - em uma sequência angustiante e tensa. Sem encontrar luz no fim do túnel, Dennis acaba sendo seduzido pela possibilidade de recuperar sua propriedade quando aceita trabalhar com Rick Carver (Michael Shannon), o corretor que cuidou de sua situação - e que se utiliza de métodos pouco ortodoxos e bastante ilegais de fazer dinheiro através de transações quase criminosas. Deslumbrado com a chance não apenas de ter de volta o seu lar, mas também de oferecer uma vida mais confortável para a família, Dennis começa a participar das ações de despejo comandadas por Carver - e questionar seus próprios limites morais e éticos ao reviver, em cada situação, o sentimento de desespero e fracasso dos moradores.


Com uma narrativa ágil e surpreendente, que não permite ao espectador que antecipe cada movimento do roteiro, Bahrani se mostra um cineasta de extrema competência em cativar seu público sem subestimar sua inteligência ou sensibilidade. Aproximando sua câmera do rosto angustiado de Dennis - em atuação sublime de Andrew Garfield - e obrigando o espectador a compartilhar com ele de toda a vastidão de sentimentos que lhe tortura, o diretor faz uso eficaz de suas ferramentas visuais ao mesmo tempo em que, através de sequências dramáticas que evitam a pieguice, discute temas como ética e moral em um momento crucial da história americana. Ao fazer de seu protagonista um personagem de dimensões humanas - e portanto passível de monumentais erros e capaz de gestos de grandeza - o roteiro também traça um interessante contraponto entre ele e seu patrão/inimigo/aliado Rick Carver, em mais um trabalho excelente de Michael Shannon: fugindo do maniqueísmo óbvio, Carver não é apenas um homem ganancioso e cruel, mas uma pessoa com um passado doloroso e que aprendeu, da pior maneira possível, que nem sempre ser bom e generoso é o melhor caminho para o sucesso. Sim, o grande vilão de "99 casas" não é Carver, e sim o capitalismo selvagem e devastador, retratado na figura de bancos e instituições financeiras que, como não é surpresa para ninguém, tem no lucro seu maior objetivo, ignorando sem piedade tudo que possa atrapalhar suas metas.

Mas, apesar de sua crítica radical aos métodos pouco humanos dos ferozes capitalistas, "99 casas" não é um tratado sociológico aborrecido e panfletário. Com pleno domínio da narrativa dramática, Ramin Bahrani conta sua história com o máximo de simplicidade e clareza, aproveitando ao máximo o talento de seus intérpretes e o tom emocional de sua trama. Andrew Garfield está sensacional na pele de Dennis Nash, preenchendo sua atuação com nuances e sutilezas que o colocam como um dos mais promissores atores de sua geração - coisa que sua indicação ao Oscar por "Até o último homem" (2016) apenas confirmou. Ao lado de atores experientes como Michael Shannon e Laura Dern, o jovem Garfield consegue sobressair-se sem esforço, explorando cada mínima possibilidade do roteiro e da direção sensível de Bahrani. Seu olhar melancólico, assustado, frustrado e raivoso diz muito mais do que páginas e páginas de diálogo - e o clímax do filme mostra que ele tem muitos mais truques na manga do que sua pouca idade pode fazer supor. Com sua interpretação inteligente, Garfield consegue melhorar ainda mais o belo e corajoso trabalho de Bahrani, um cineasta que parece ainda ter muito a dizer no futuro.

quinta-feira, 16 de março de 2017

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, lies and videotape, 1989, Outlaw Productions, 100min) Direção e roteiro: Steven Soderbergh. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Steven Soderbergh. Música: Cliff Martinez. Direção de arte/cenários: Joanne Schmidt/Victoria Spader. Produção executiva: Morgan Mason, Nancy Tenenbaum, Nick Wechsler. Produção: John Hardy, Robert Newmyer. Elenco: James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher, Laura San Giacomo, Ron Vawter. Estreia: 20/01/89 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Festival de Cannes: Melhor Diretor (Steven Soderbergh), Ator (James Spader)

Quando ganhou a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes 1989, o cineasta Steven Soderbergh tinha apenas 26 anos de idade e, de cara, tornou-se o vencedor mais jovem da categoria na história do prêmio. Mais impressionante ainda: escrito em oito dias, filmado em trinta e com um custo estimado de pouco mais de um milhão de dólares, seu filme "Sexo, mentiras e videotape" ainda saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor ator (James Spader) e revolucionou o modo como os espectadores encaravam os filmes independentes. Não foi um sucesso de bilheteria, mas mostrou que, além dos espetáculos pirotécnicos de que Hollywood é pródiga, existia vida inteligente no cinema norte-americano. Sem efeitos especiais, astros milionários e campanhas de marketing massivas, tornou-se queridinho da crítica e do público, concorreu ao Oscar de roteiro original e impôs um dilema dos grandes a seu criador: tido como gênio já em seu filme de estreia, o que poderia Soderbergh fazer em seguida? A resposta veio dois anos depois com o pretensioso "Kafka" - estrelado por Jeremy Irons - mas demorou quase uma década até que a promessa de seu filme de estreia se cumprisse, com o sucesso de "Irresistível paixão" (98) e o Oscar de melhor direção por "Traffic" (2000), que ele disputou consigo mesmo por "Erin Brockovich: uma mulher de talento".

Mas até que se visse vítima do próprio sucesso repentino, Soderbergh colheu elogios rasgados com seu primeiro filme, que também conquistou prêmios importantes no Festival de Sundance (onde foi lançado, meses antes de Cannes), pelos críticos de Los Angeles e na cerimônia dos Independent Spirit Awards (o Oscar para filmes independentes, de onde saiu com quatro estatuetas, incluindo filme e diretor). Seu êxito em conquistar de forma tão ampla a boa vontade dos críticos e a simpatia dos espectadores dispostos a fugir dos blockbusters não é difícil de entender: inteligente, profundo e dotado de grande compreensão da natureza humana, "Sexo, mentiras e videotape" estreou no momento certo e refletia, como poucos filmes de então, o espírito de sua época, aprisionada pela hipocrisia que vinha à reboque do governo Reagan, recém encerrado. Falando abertamente sobre sexo em diálogos francos e diretos e com personagens tão falíveis quanto ambíguos, seu roteiro nadava contra a corrente do cinema americano dos anos 80, centrado basicamente no visual e na edição histérica: com movimentos de câmera suaves e eficientes, Soderbergh consegue extrair o máximo tanto da palavra quanto da imagem, fugindo da verborragia excessiva e evitando com maestria a tentação de fazer malabarismos estéticos. Usando a câmera como parte integrante da narrativa - dentro da história e fora dela, como instrumento para enfatizar a sensação de sufocamento - o filme mergulha o espectador em um jogo perigoso, onde traições, meias-verdades e luxúria estão em vias de implodir relacionamentos pouco saudáveis.





Um desses relacionamentos é o do casal Ann e John Mullany. Ela - interpretada por Andie MacDowell, que ficou com o papel oferecido a Elizabeth McGovern e Brooke Shields e levou pra casa o prêmio de melhor atriz pelos críticos de Los Angeles - é uma dona de casa introvertida, calada e aparentemente frígida, que se utiliza de terapia para tentar lidar com um casamento frio e sem amor. Ele (vivido por Peter Gallagher) é um advogado ambicioso e egoísta, que não apenas trata a esposa com quase desdém como também tem um caso com a própria irmã dela, Cynthia (Laura San Giacomo), uma garçonete expansiva e sensual, que não hesita em usar o corpo e o charme para conquistar o que quer. O triângulo amoroso secreto torna-se explosivo com a chegada de Graham (James Spader), antigo colega de John, um homem quieto e misterioso que não demora em atrair a atenção de Ann - que vê nele alguém em quem pode confiar seus segredos - e de Cynthia - que chega até ele depois de descobrir sua maior particularidade: impotente, o rapaz se satisfaz sexualmente assistindo às fitas de vídeo que gravou com mulheres contando suas intimidades para a câmera. O que deveria ser apenas uma espécie de hobby para Graham acaba se tornando o pivô de uma revolução na vida de todos, especialmente na de Ann, que se percebe no centro de um furacão pessoal que a levará a repensar toda sua vida sentimental.

Arrancando interpretações fascinantes do seu quarteto de atores - todos em total imersão em seus papéis - e manipulando com inteligência os desvios da trama, Steven Soderbergh aposta no minimalismo como forma de enfatizar o que realmente importa em seu roteiro: os personagens. Do lar quase asséptico de Ann à frugalidade da casa de Graham - quase desprovida de móveis - e passando pelo apartamento modernoso de Cynthia, tudo é milimetricamente planejado para transmitir, sem esforço, as características fundamentais de cada um, o que cada um carrega em sua personalidade para empurrar a trama adiante. Sem pressa de contar sua história, Soderbergh filma longos e esclarecedores diálogos com uma câmera discreta, que só se faz notar em momentos cruciais - especificamente quando os personagens são acuados pelas verdades incômodas que subitamente se tornam explícitas. Sem precisar apelar para discursos moralistas ou cenas catárticas, o roteiro do diretor (que perdeu o Oscar para o belo "Sociedade dos poetas mortos") é admirável também por falar muito até mesmo em silêncio: ao optar em não subestimar a inteligência do público, "Sexo, mentiras e videotape" mostra que é possível dialogar com o espectador sem tratá-lo como criança. É um filme adulto, elegante e que resiste ao tempo justamente por fugir do óbvio ao tratar de assuntos quase sempre tratados com superficialidade e/ou deboche pelo cinemão americano. Uma bela estreia de um cineasta de carreira irregular mas ocasionalmente fascinante.

quarta-feira, 15 de março de 2017

SELENA

SELENA (Selena, 1997, Warner Bros, 127min) Direção e roteiro: Gregory Nava. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Nancy Richardson. Música: Dave Grusin. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Cary White/Jeanette Scott. Produção executiva: Abraham Quintanilla Jr.. Produção: Moctesuma Esparza, Robert Katz. Elenco: Jennifer Lopez, Edward James Olmos, Jon Seda, Constance Marie, Jackie Guerra, Alex Meneses, Rebecca Lee Meza, Lupe Ontiveros. Estreia: 21/3/97

Mesmo acostumado com tragédias e mortes precoces e repentinas, o mundo da música sofreu um grande abalo em 31 de março de 1995, com o brutal assassinato da cantora Selena, ídolo da comunidade hispânica norte-americana e em vias de iniciar uma promissora carreira internacional com o lançamento de seu primeiro álbum em inglês. Comparada a nomes de peso como Gloria Estefan (por sua influência junto ao público latino), Whitney Houston e Mariah Carey, a jovem de apenas 23 anos de idade foi morta com um tiro disparado pela presidente de seu fã-clube e gerente de uma loja de roupas da sua grife, que, desmascarada por desvio de dinheiro, resolveu a situação de forma a deixar órfãos milhares de fãs inconsoláveis - o que lhe rendeu a condenação à prisão perpétua. Se o nome de Selena não diz muito a quem não fazia parte de sua legião de admiradores (dois meses antes de sua morte ela havia levado mais de 60 mil pessoas a seu show em um estádio em Houston, Texas), é somente porque a interrupção inesperada de sua vida não permitiu. Vencedora do Grammy, garota-propaganda da Coca-cola e dona de uma marca de roupas de sucesso junto a seu público-alvo, Selena ainda assim não era uma unanimidade - a comoção por sua morte junto ao público hispânico foi minimizada por grande parte da população branca americana - mas seu carisma e talento (somados à indignação atônita que seguiu-se à tragédia) foram suficientes para que a notícia de sua morte tomasse conta dos EUA e de parte do mundo. Não foi surpresa para ninguém, portanto, que, quase no aniversário de dois anos do crime, estreasse "Selena", um filme realizado para a televisão que celebrava a vida e a carreira da artista - mas que, por privilegiar apenas esses aspectos de sua trajetória, perde a oportunidade de esclarecer aos neófitos as circunstâncias absurdamente mundanas de sua morte, talvez o único fator que o diferencia de várias outras produções semelhantes.

Dirigido por Gregory Nava - um cineasta já preocupado com questões dos povos latinos, como deixa claro seu filme "Minha família" (95) - e estrelado por uma então quase desconhecida Jennifer Lopez, "Selena" é uma cinebiografia convencional, com todas as limitações de um filme para a televisão. Como não poderia deixar de ser, já que seu produtor executivo é Abraham Quintanilla Jr. - pai da cantora - é uma obra que respeita tanto a obra como a imagem da cantora, procurando ater-se à sua meteórica carreira e suas relações familiares e sem exatamente aprofundar-se dramaticamente em nenhum desses aspectos. Bem-sucedido em recriar momentos importantes da jornada da cantora - como seu show em Houston - o filme de Nava não consegue evitar de tropeçar em alguns clichês do gênero, mas o faz com tal carinho e admiração que é difícil não se deixar envolver, apesar da duração excessiva e da falta total de novidades na história. Das origens familiares até o estrelato e seu desfecho violento - com direito até mesmo a uma história de amor proibido - a vida de Selena é contada sem sobressaltos, mas também sem grandes momentos de destaque. Jennifer Lopez se esforça no papel (foi inclusive indicada ao Golden Globe), mas tem pouco a fazer exceto mimetizar com competência as performances da cantora nos palcos (e sincronizar os números musicais, todos apresentados no filme com a voz da própria Selena). Sua atuação é bastante convincente, mas esbarra em um roteiro superficial - talvez culpa da história em si, mas ainda assim pouco empolgante.


Como em toda biografia musical que se preze, a historia de Selena Quintanilla-Perez começa com uma frustração paterna: parte integrante de um trio de cantores latinos que nunca alcançou o sucesso, Abraham Quintanilla Jr. (Edward James Olmos) encontrou nos filhos a possibilidade de fazer parte da história da música. Ainda criança, cantando no grupo formado por seus irmãos e que se apresentava no restaurante de comida típica de propriedade de seu pai, Selena (interpretada por Rebecca Lee Meza na infância) já começa a chamar a atenção pela afinação e pelo carisma. Com o fechamento do restaurante e palcos maiores em parques de diversão e bares, aos poucos ela vai se transformando em uma espécie de porta-voz da comunidade hispânica, misturando influências musicais que iam dos clássicos apresentados por seu pai até o pop de gente como Madonna e Paula Abdul. Sua evolução na carreira chega ao ponto máximo quando ela passa a ser agenciada pelo experiente Jose Behar (John Verea), que lhe oferece um contrato com a EMI e começa a planejar uma expansão internacional. Nessa época, ela conhece e se apaixona por um dos músicos de sua banda, Chris Perez (Jon Seda) - e esbarra na rejeição de seu pai ao relacionamento. Quando as coisas finalmente se acalmam e tudo parece apontar para um futuro alvissareiro, a tragédia acontece.

E é justamente quando o filme chega a um ponto onde realmente pode sobressair-se em relação a outras cinebiografias que "Selena" mostra sua fragilidade. Ao optar por não dar a devida importância ao fim de sua vida - talvez para não tocar em uma ferida ainda recente e dolorida para os fãs e familiares - Gregory Nava simplesmente termina seu filme de forma apressada e anticlimática. A relação entre a cantora e Yolanda Saldivar (Lupe Ontiveros), de vital importância para explicar os acontecimentos que levaram à tragédia final, é quase ignorada, mostrada em poucas cenas que se perdem em meio a sequências desnecessárias e repetitivas da vida profissional e amorosa de Selena. O que é crucial na história - a quebra de confiança entre as duas, as brigas e por fim o assassinato - fica apenas na imaginação do espectador, que, se não souber de detalhes do acontecido, fica completamente perdido nos minutos finais. Aliás, é de se perguntar o motivo de Nava ter escolhido a atriz Lupe Ontiveros - 54 anos à época das filmagens - para interpretar uma personagem de 34: assim como o clímax que não existe, depõe bastante contra o resultado final. Ainda assim, é um filme correto e carinhoso, valorizado pela interpretação vibrante de Jennifer Lopez - e que agrada em cheio aos fãs da cantora sem aborrecer (demais) àqueles que não a conheceram.