quinta-feira, 8 de junho de 2017

JANTAR COM BEATRIZ

JANTAR COM BEATRIZ (Beatriz at dinner, 2017, Bron Studios/Killer Films, 81min) Dieção: Miguel Arteta. Roteiro: Mike White. Fotografia: Wyatt Garfield. Montagem: Jay Deuby. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Christina Blackaller. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton, Madelaine Frezza. Produção executiva: Jason Cloth, Brad Feinstein, Lewis Hendler, Richard McConnell, Andrew Pollack, Alan Simpson, Jose Tamez, Paul Tennyson. Produção: Aaron L. Gilbert, David Hinojosa, Pamela Koffler, Christine Vachon. Elenco: Salma Hayek, John Lithgow, Connie Britton, Chloe Sevigny, Jay Duplass, Amy Landecker, David Warshofsky. Estreia: 23/01/17 (Festival de Sundance)

É uma pena que nem todos os bons filmes lançados no Festival de Sundance encontrem uma distribuição decente e tenham as mesmas chances das grandes produções hollywoodianas de chegar até o público - e às cerimônias de premiação, que afinal de contas lhes dariam o aval necessário para o sucesso comercial. Por causa do domínio de mercado dos blockbusters, por exemplo, filmes como "Jantar com Beatriz" ficam restritos a pequenas plateias mais antenadas e dispostas a procurar alternativas ao que é oferecido sem critério nas salas de exibição. Dirigido por Miguel Arteta - o cineasta porto-riquenho que proporcionou à Jennifer Aniston um de seus melhores papéis no cinema, em "Por um sentido na vida" (2002) - e estrelado por uma impressionante Salma Hayek, "Jantar com Beatriz" é uma obra concisa (pouco mais de 80 minutos de duração, contando com os créditos finais) e socialmente relevante, um filme que vai envolvendo o espectador gradualmente em um tom de suspense e imprevisibilidade do qual é impossível desvencilhar-se até a última (e melancólica) cena.

Completamente desprovida da sensualidade vulcânica que a elevou a um dos maiores símbolos sexuais do final da década de 90 - mais precisamente desde que encarou uma perigosa vampira em "Um drink no inferno" (96) - e muito mais consistente como atriz do que em seu trabalho que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 2003, por "Frida", Salma Hayek entrega, em "Jantar com Beatriz", uma atuação madura e minimalista, que reflete com inteligência um texto ácido e moralmente impactante sobre o estado político e social da era Trump - um momento crucial para os EUA e sua relação com o resto do mundo. Assumindo sem reservas sua origem mexicana, Hayek constrói uma protagonista cujas nuances cada vez mais complexas vão encontrando espaço no decorrer da narrativa, ora cruel, ora dotada de um humor cínico, característica do roteirista Mike White - criador da série "Enlightened", estrelada por Laura Dern em 2011. Conseguindo escapar inclusive de alguns momentos maniqueístas propostos por White, o desempenho de Hayek já seria motivo suficiente para garantir uma melhor carreira para o filme - mas há muito mais a se aplaudir.





Beatriz, a personagem de Hayek, é um primor: imigrante mexicana há décadas morando nos EUA, ela trabalha em um centro de medicina holística, como especialista em tratamentos alternativos. Desde as primeiras cenas fica clara a sua paixão pelos animais e pela natureza, sua calma e atitudes zen em relação à vida e tudo a seu redor. Como uma profissional dedicada e reconhecida, ela é amiga de Kathy (Connie Britton) - cuja filha ela ajudou a recuperar-se de um câncer há algum tempo -, e é nessa condição que ela se vê convidada a ficar em sua mansão para um jantar que será oferecido a um milionário que está fazendo negócios com seu marido, Grant (David Warshofsky). Com o carro estragado e aguardando o socorro de um conhecido, Beatriz aceita o convite - apesar de não estar devidamente vestida para tal - e não demora a perceber que não está em seu habitat natural. Simples e direta, sem afetações, ela tenta compreender a quase futilidade de Kathy (a quem ela realmente devota lealdade e amizade) quando na presença de um dos casais convidados à recepção, Alex (Jay Duplass) e Shannon (Chloe Sevigny). A chegada do homenageado, porém, é que irá deflagrar novos conflitos: o empresário Doug Strutt (John Lithgow) é a antítese de tudo em que Beatriz acredita, um homem frio e insensível, capaz de apelar para atos ilegais para aumentar sua fortuna e comandar caçadas na África pelo puro prazer de matar. A figura de Doug - em atuação inspirada de Lithgow - é que despertará em Beatriz, até então uma testemunha calada e um tanto ingênua dos assuntos tratados à mesa, uma angústia e uma fúria que terão desdobramentos surpreendentes.

Sem exagerar nas reviravoltas - o que daria ao filme um tom de melodrama barato - mas mantendo em suspenso toda e qualquer possibilidade de conflito, "Jantar com Beatriz" é um triunfo de concisão e objetividade. Por mais que suas cenas iniciais pareçam avulsas ou desnecessárias, são elas que vão costurando, com sutileza, todo o contorno da personalidade da protagonista - que conquista a simpatia do público justamente por lutar pelo que acredita mesmo diante de seus maiores oponentes. A câmera não se furta a mostrar Salma Hayek em close diversas vezes, como forma de sublinhar sua surpresa, seu choque, sua indignação frente a um universo que ela simplesmente não consegue (e nem pretende) compreender. Sua personagem, uma representante legítima do eterno conflito entre Davi e Golias, é um presente à atriz, e ela não foge da responsabilidade, entregando uma performance impecável - e levando a plateia a torcer por seus princípios e talvez até converter-se a eles. "Jantar com Beatriz" é um filme necessário, tocante e inteligente, que retrata como poucos o abismo social e ético que vem aumentando exponencialmente não apenas nos EUA, mas em todo o mundo. Uma obra imprescindível - ainda que termine de forma um tanto brusca e anticlimática.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM

ATÉ O ÚLTIMO HOMEM (Hacksaw Ridge, 2016, Summit Entertainment/Cross Creek Pictures, 139min) Direção: Mel Gibson. Roteiro: Robert Schenkkan, Andrew Knight. Fotografia: Simon Duggan. Montagem: John Gilbert. Música: Rupert Gregson-Williams. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Barry Robison/Rebecca Cohen. Produção executiva: Michael Bassick, Lawrence Bender, Len Blavatnik, Stuart Ford, David Greathouse, Eric Greenfeld, Lenny Kornberg, Mark C. Manuel, Rick Nicita, Ted O'Neal, Buddy Patrick, Lauren Selig, Tyler Thompson, James M. Vernon, Suzanne Warren, Christopher Woodrow. Produção: Terry Benedict, Paul Currie, Bruce Davey, William D. Johnson, Bill Mechanic, Brian Oliver, David Permut. Elenco: Andrew Garfield, Sam Worthington, Hugo Weaving, Rachel Griffiths, Vince Vaughn, Richard Roxburgh. Estreia: 04/9/16 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Mel Gibson), Ator (Andrew Garfield), Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 2 Oscar: Montagem, Mixagem de Som

Quando surgiu para o grande público, no final dos anos 70, como o protagonista de "Mad Max" (79) e suas duas sequências, o australiano Mel Gibson tornou-se, instantaneamente, no astro de filmes de ação que os produtores pediram a Deus: bonito a ponto de ser vendido também como símbolo sexual (ao contrário de Stallone e Schwarzenegger), talentoso e carismático. Na década de 80, confirmou o status de ídolo com a trilogia "Máquina mortífera" e, nos anos 90, mostrou o lado sensível de diretor de filmes como "O homem sem face" (93) e "Coração valente" (95) - que lhe rendeu os Oscar de filme e direção. Nesse meio-tempo, em que arriscou até mesmo um Shakespeare dirigido por Franco Zefirelli - "Hamlet", de 1990 -, Gibson foi construindo uma carreira invejável, repleta de sucessos de bilheteria e um prestígio que poucos poderiam prever quando de sua chegada em Hollywood. Se havia alguém que poderia estragar sua ascensão, esse alguém era ele mesmo - e ele não hesitou em tomar providências a esse respeito. Se na década de 90 já havia criado polêmica com declarações homofóbicas (que mesmo assim não chegaram a arranhar seu sucesso), ele teve que lidar, nos primeiros anos do novo século, tanto com um surpreendente e imenso êxito profissional quanto com o quase fim de sua carreira - uma situação criada por ele mesmo.

O êxito veio com a bilheteria monstruosa e inesperada de "A paixão de Cristo" (2004) - um projeto ambicioso, violento, visceral e arriscado que arrecadou mais de 600 milhões de dólares mundo afora, a despeito de seu tom antissemita. E foi antissemitismo também que ajudou a cavar o buraco no qual Gibson cairia em seguida: somadas a acusações de violência doméstica e brigas com autoridades policiais, declarações controversas do ator/diretor o empurraram diretamente para um ostracismo que parecia definitivo - em poucos anos Gibson passou de um dos mais quentes nomes de Hollywood a um pária cujos filmes fracassavam em todos os níveis. Mas, assim como sabe destruir uma carreira, a indústria de cinema também sabe perdoar quando quer - e eis que, dez anos depois de seu último trabalho como diretor, o ousado "Apocalypto", Mel Gibson se viu finalmente digno de uma segunda chance entre seus colegas. Indicado a 6 Oscar - incluindo melhor filme e diretor - o drama de guerra "Até o último homem" não apenas conquistou a Academia (que lhe premiou com as estatuetas de montagem e mixagem de som) como marcou seu reencontro com o público - com uma renda mundial estimada em mais de 175 milhões de dólares, seu filme parece ter sido a melhor maneira de acenar por uma trégua. O melhor da história toda? O filme merece.



Inspirado em uma quase inacreditável história real, "Até o último homem" volta a mostrar o lado religioso de Gibson - que novamente equilibra um tom espiritual e sequências de extrema violência, ainda que menos gráficas do que as mostradas em "A paixão de Cristo". Ao contrapor a crueldade da guerra à religiosidade de seu protagonista, o diretor ameniza a truculência de algumas imagens e entrega ao espectador um conto empolgante a respeito da força da fé e do idealismo. Mesmo sem soar excessivamente messiânico, o roteiro deixa explícitas as razões que movem seu personagem central e, graças a uma interpretação absolutamente impecável de Andrew Garfield (merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator), faz com que a plateia compactue com elas e se envolva na trama sem reservas. Um filme de guerra onde a guerra em si só dá as caras no terceiro ato - e como cenário para um desfecho emocionante -, "Até o último homem" é um triunfo como cinema: pode-se dizer até mesmo que é o melhor e mais maduro trabalho de Gibson como cineasta, unindo no mesmo pacote uma história bem contada, sequências de guerra orquestradas com capricho, uma técnica invejável e um elenco inspirado.

Garfield - que no mesmo ano esteve em "Silêncio", de Martin Scorsese, provando sua versatilidade - é o corpo e a alma de "Até o último homem". Ele interpreta o protagonista, Desmond Doss, com uma garra e uma paixão que salta da tela direto ao coração da plateia. Desmond é um dos dois filhos de Tom Doss (Hugo Weaving), veterano da I Guerra Mundial traumatizado pela perda dos colegas e entregue ao álcool e à violência doméstica contra a esposa, Bertha (Rachel Griffiths). Criado como adventista do sétimo dia e profundamente religioso, Desmond vê nos mandamentos de Deus sua régua moral absoluta mas, mesmo assim, ao lado do irmão, se alista como voluntário para lutar na II Guerra. Sua intenção é servir como médico e não atacar os inimigos: tal regra acaba sendo motivo para que ele bata de frente com seus superiores e seus colegas, que não veem com bons olhos um soldado não disposto a pegar em armas nem mesmo para sua defesa. Aos poucos, no entanto, Desmond vai conquistando o respeito de todos - até que em uma missão específica, em Okinawa, ele se torna um improvável herói... sem disparar sequer um único tiro.

Emocionante e brilhantemente executado, "Até o último homem" não foge dos clichês dos filmes do gênero, quando se rende a algumas de suas mais antigas regras - o treinamento, as dificuldades de relacionamento dentro do pelotão, os personagens quase estereotipados -, mas faz deles um uso inteligente e adequado, como forma de prender a atenção da plateia até seu último (e empolgante) ato, quando Desmond se torna um herói não através da violência, mas sim da compaixão e do amor pelos companheiros. Pode parecer um discurso estranho para alguém que estrelou e/ou dirigiu alguns dos filmes mais violentos das últimas décadas, mas não deixa de ser um respiro de humanidade em um gênero tão repleto de sangue e tristeza. Mel Gibson merece o perdão... ao menos até o próximo escândalo!

terça-feira, 6 de junho de 2017

ASAS DA LIBERDADE

ASAS DA LIBERDADE (Birdy, 1984, TriStarPictures, 120min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Sandy Kroopf, Jack Behr, romance de William Wharton. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Peter Gabriel. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kurland/George R. Nelson. Produção executiva: David Manson. Produção: Alan Marshall. Elenco: Matthew Modine, Nicolas Cage, John Harkins, Bruno Kirby, Sandy Baron, Karen Young. Estreia: 21/12/84

A ideia central de "Asas da liberdade" - um jovem traumatizado pela guerra se entrega à obsessão em tornar-se um pássaro - é, ao mesmo tempo, surreal e inverossímil. Só mesmo um diretor do porte de Alan Parker (que já tinha no currículo os excelentes "O expresso da meia-noite", de 1978, e "Fama", de 1980) conseguiria transformar tal material, baseado em um romance de William Wharton, em um filme que fosse comercialmente atraente e palatável ao gosto do público médio sem que perdesse sua essência metafórica e poética. Dono de um estilo visual apurado e uma elegância natural em sua filmografia, Parker realizou uma obra fascinante, que saiu do Festival de Cannes 1985 com o Grande Prêmio do Júri - que deixou-se seduzir pela bela história de amizade, lealdade e dor criada por Wharton. Estrelado por dois então jovens atores em início de carreira - Matthew Modine e Nicolas Cage -, "Asas da liberdade" pode não ter tido o devido reconhecimento à época de sua estreia (fracassou nas bilheterias e foi ignorado pelo Oscar), mas talvez seja um dos filmes mais importantes da década de 80 - e um dos primeiros a falar, ainda que sutilmente, sobre as consequências emocionais da Guerra do Vietnã.

No livro de Wharton, os dois personagens centrais são sobreviventes da II Guerra Mundial. No filme, Parker mudou o cenário do conflito (incidental, mas crucial para o desenvolvimento da trama) para o sudeste asiático - uma forma inteligente de aproximar a plateia da estória e, de quebra, mexer em uma ferida ainda muito dolorida na sociedade norte-americana. De qualquer forma, a geografia da guerra é o que menos importa: o que interessa ao cineasta e à sua bela fábula são os sentimentos, a alma e o coração de sua dupla central de protagonistas, ambos traumatizados e, à sua maneira, obrigados a lidar com as consequências da violência e da solidão. Ilustrado por uma inspirada trilha sonora de Peter Gabriel, o filme de Parker é, sobretudo, um brilhante estudo sobre a capacidade humana de sublimar a dor através da fuga e da ilusão - sublinhadas por belíssimas sequências aéreas captadas por Michael Seresin, que em seguida assinaria também a fotografia do trabalho seguinte do cineasta, a obra-prima "Coração satânico" (86).


"Asas da liberdade" tem, a princípio, duas linhas narrativas paralelas (que abrigam uma terceira em sua reta final, como forma de jogar luz sobre momentos-chave da história). Logo de início o público é apresentado a Al Columbato (Nicolas Cage), um jovem soldado americano que, em consequência de ferimentos sofridos na guerra, teve o rosto completamente reconstruído pelos cirurgiões. Ainda inconformado com sua situação, ele é procurado por um médico, o Major Weiss (John Harkins), que lhe pede ajuda para que possa fazer progressos no tratamento de outra vítima do conflito, Birdy (Matthew Modine), grande amigo de Al: depois de ter desaparecido por um mês no Vietnã, o jovem foi encontrado e levado para o hospital sem ferimentos, mas claramente com sérios problemas mentais. Comportando-se como um pássaro e sem dizer uma única palavra aos médicos e enfermeiros, Birdy parece viver um um mundo particular, e o médico acredita que Al - devido à sua relação com o rapaz - seja a pessoa ideal para mudar o quadro de catatonia. Enquanto tenta arrancar alguma informação ou melhora em seu colega, Al vai relembrando sua amizade com ele, desde que, de desconhecidos quase rivais, tornaram-se companheiros inseparáveis, a despeito de suas diferentes personalidades.

O flashback das memórias de Al é a segunda linha narrativa proposta pelo roteiro - e, como um quebra-cabeças, vai juntando pedaços sobre o estranho comportamento de Birdy, que desde sempre sentiu-se como alguém deslocado da sociedade e do mundo a seu redor. Fanático por pássaros a ponto da obsessão, o rapaz tinha em Al sua ponte com a realidade - uma realidade que frequentemente o aborrecia e decepcionava, e que acabou por levando-o à sua atual situação. Parker não dá respostas fáceis para o comportamento de Birdy, preferindo deixar que a poesia de suas imagens seja mais contundente do que palavras ou explicações psicológicas baratas. Preferindo aprofundar a relação entre os personagens a tentar encontrar uma saída fácil para as questões levantadas pelo roteiro, o cineasta encontra em Matthew Modine e Nicolas Cage uma dupla impecável - em especial Modine, fascinante em seu desempenho silencioso como o atormentado Birdy. Com um desfecho que não tenta agradar a todo mundo e um desenvolvimento de ritmo próprio, "Asas da liberdade" envolve aos poucos, com uma história bem contada e repleta de sutilezas, amparada em bons atores, um visual caprichado e a coragem de fugir do óbvio. Uma pérola que precisa ser redescoberta!

segunda-feira, 5 de junho de 2017

AMORES IMAGINÁRIOS

AMORES IMAGINÁRIOS (Les amours imaginaires, 2010, Mifilifilms/Quebec Film and Television, 101min) Direção e roteiro: Xavier Dolan. Fotografia: Stéphanie Weber-Biron. Montagem: Xavier Dolan. Figurino: Xavier Dolan. Direção de arte: Delphine Gélinas. Produção: Xavier Dolan, Carole Mondello, Daniel Morin. Elenco: Xavier Dolan, Monica Chokri, Niels Schneider, Anne Dorval, Louis Garrell. Estreia: 16/5/10 (Festival de Cannes)

Logo que estreou no Festival de Cannes em 2009 com seu primeiro filme, "Eu matei minha mãe", o jovem (20 anos de idade à época) Xavier Dolan tornou-se, instantaneamente, o enfant terrible do cinema canadense. Levou pra casa um prêmio especial do júri e virou assunto em qualquer roda de cinéfilos pelo mundo afora: para cada crítica azeda a seu respeito, pipocavam fãs encantados com seu estilo modernoso. Seu filme seguinte, "Amores imaginários" - que também teve sua estreia na Riviera Francesa - apenas acentuou a polêmica em torno de seu nome e a divisão entre admiradores e detratores. É justo, porém, encontrar um meio-termo saudável entre esses dois extremos. "Amores imaginários", uma comédia romântica, nem é tão espetacular como querem fazer crer os convertidos mais fanáticos nem tão vazio como proclamam os mais críticos. É, sim, um filme leve e quase superficial, que privilegia o visual ao conteúdo. Mas é, também, uma delícia de se assistir, desde que se deixe de lado qualquer preconceito ou expectativas grandiosas.

A ideia de um triângulo amoroso moderno no cinema não é nenhuma novidade - haja visto François Truffaut ("Jules e Jim: uma mulher para dois") e Bernardo Bertolucci ("Os sonhadores"), alguns dos célebres cineastas que investigaram essa modalidade de relacionamento. Em seu filme, Dolan não faz questão de soar revolucionário ou ousado, preferindo o caminho da sutileza e da delicadeza, deixando ao espectador o prazer de ir descobrindo aos poucos os rumos de sua trama. O próprio cineasta interpreta um dos protagonistas, o homossexual Francis, que se apaixona perdidamente pelo belo, inteligente, sexy e liberal Nicolas (Niels Schneider). O problema maior é que sua melhor amiga, Marie (Monica Chokri), também cai de amores pelo rapaz, e nenhum dos dois sabe exatamente para qual deles o rapaz está mais inclinado em oferecer o seu amor (ou sequer SE está interessado nisso): Nicolas os trata com igual atenção e carinho, embaralhando cada vez mais as pistas que levam a seu coração - e à sua cama.


Se peca em não aprofundar a psicologia de seus personagens, Dolan acerta em cheio ao tratar seu filme como uma espécie de inventário visual de sua época. É perceptível o cuidado do jovem diretor com cada detalhe de sua mise-en-scéne, desde os objetos de cena até o figurino absurdamente antenado com sua ambientação, assim como a bela fotografia de Stéphanie Weber-Biron e alguns enquadramentos belíssimos que nem mesmo o quase exagero de sequências em câmera lenta consegue atrapalhar. O olho de Dolan para as pequenas coisas e reações é admirável, assim como seu talento em explorar ao máximo a potencialidade de cada tomada. Não há, em seu filme, nenhuma cena que não seja minuciosamente preparada por sua visão esteticamente apurada. E é justamente essa atenção ao aspecto visual - em detrimento a um desenvolvimento maior de seus personagens - que incomoda tanta gente. Porém, o que talvez muitos críticos não tenham percebido em "Amores imaginários" é a sua absoluta falta de compromisso com o realismo.

Dolan trata seu filme como uma espécie de sátira a seu próprio universo cultural, um lugar onde as pessoas querem se parecer com James Dean e idolatram Audrey Hepburn, frequentam cafés e festas com gente bonita e descolada e transitam em cenários coloridos e absurdamente fotogênicos. A beleza exterior é equilibrada apenas pelas histórias dolorosas/engraçadas/patéticas contadas por outros personagens diretamente para a câmera - um artifício que funcionou às mil maravilhas em "Harry & Sally: feitos um para o outro" e que volta a ser bastante interessante nas mãos do diretor: são essas personagens desconhecidas que dão suporte ao roteiro, mostrando ao espectador que amar dói, sim, mas não mata ninguém. Sendo assim, "Amores imaginários" não é um filme feito para aqueles que consideram o cinema como uma arte de reflexão séria e densa. Pode soar raso, sim, e talvez até o seja. Mas todos aqueles que já se apaixonaram entendem perfeitamente as sensações pelas quais passam Francis e Marie. E essa empatia, essa compreensão pelo sofrimento dos outros, é uma das grandes qualidades de um filme que já demonstra grande amadurecimento de seu diretor - que pegaria o caminho dos temas mais profundos em seus filmes seguintes, "Laurence anyways" e "Mommy".

domingo, 4 de junho de 2017

AMOR SEM FIM

AMOR SEM FIM (Endless love, 1981, Polygram Filmed Entertainment, 116min) Direção: Franco Zefirelli. Roteiro: Judith Rascoe, romance de Scott Spencer. Fotografia: David Watkin. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Jonathan Tunick. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Ed Wittstein/Alan Hicks. Produção executiva: Keith Barish. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Brooke Shields, Martin Hewitt, Shirley Knight, James Spader, Beatrice Straight, Don Murray, Richard Kiley, Tom Cruise. Estreia: 17/7/81

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Endless love")

Por motivos bem diferentes entre si, tanto a veterana Shirley Knight quanto Teri Shields, mãe da atriz Brooke Shields, não queriam que a estrela juvenil de "A lagoa azul" (80) fosse escalada para o papel principal de "Amor sem fim", a ser dirigido pelo italiano Franco Zefirelli. Teri temia - com carradas de razão - de que a filha acabasse sendo apenas um enfeite em um filme cujo roteiro era praticamente inexistente. E Knight, com sua experiência, julgava - também sem estar muito errada - que a bela adolescente não tinha talento suficiente para o papel. Para Knight, qualquer outra jovem atriz seria uma melhor opção - e, para facilitar a vida do cineasta, sugeriu uma lista de nomes que incluía Rosanna Arquette, Bo Derek, Linda Blair, Carrie Fisher, Jodie Foster, Melanie Griffith, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer e Debra Winger. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu convencer Zefirelli a mudar de ideia - e Knight ainda teve o desprazer de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante do ano (fazendo companhia, por extrema ironia, tanto à Brooke quanto ao diretor e ao galã do filme, Martin Hewitt).

Baseado em um livro de Scott Spencer, "Amor sem fim" é o típico filme que ganhou notoriedade pelos motivos errados. Em primeiro lugar, há a beleza plácida e incontestável de Brooke Shields, um dos mais lindos rostos já descobertos por Hollywood. Em segundo, há a canção-tema, interpretada por Lionel Richie e Diana Ross, indicada ao Golden Globe e ao Oscar e campeã de vendas e execução nas rádios à época de seu lançamento. Afora isso, é um romance de plástico, com uma trama frouxa e inverossímil e uma dupla central de atores que, à parte sua fotogenia, não consegue sustentar um roteiro de telenovela mexicana dirigido sem brilho e sem inspiração por um cineasta que, pouco mais de uma década antes, havia tornado Shakespeare popular à juventude cinéfila com uma versão delicada e comovente de "Romeu e Julieta" (68). Amor proibido, portanto, não lhe era um terreno desconhecido  - o que deixa a decepção ainda maior e mais imperdoável: "Amor sem fim" é simplesmente ruim, capaz de conquistar corações adolescentes pouco exigentes mas impossível de agradar racionalmente a quem procura um filme de verdade.


A história - rala e pouco crível - já começa mostrando o namoro de David Axelrod (Martin Hewitt, estreando no cinema em papel para o qual até mesmo Tom Hanks foi testado) e Jade Butterfield (Brooke Shields): ele tem 17 anos e ela tem 15, mas a família aparentemente liberal da menina não se importa muito que eles já estejam fazendo sexo (ao menos sua mãe, que gosta de David mais do que uma sogra deveria gostar). De uma hora para outra, no entanto, o pai da garota, Hugh (Don Murray), um médico nem tão moderno assim, decide que é hora de afastá-los, porque as noites de amor entre os dois estão prejudicando os estudos de sua bela filha. Revoltado com o fato - e com a possibilidade de Jade não estar mais apaixonada por ele -, David faz o que qualquer um faria (???) e incendeia, por acidente, a casa da família. Condenado a dois anos em uma instituição psiquiátrica, ele não deixa de pensar na namorada (ou ex) e, assim que tem a oportunidade de sair da prisão, resolve que é hora de reconquistar o seu amor - nem que para isso tenha que usar de meios banais, como seduzir a ex-sogra.

Se fosse uma comédia - ou até mesmo um filme de suspense -, "Amor sem fim" poderia ser um filme no mínimo razoável. Mas Franco Zefirelli, sem a menor sutileza, resolveu apresentá-lo como um romance adolescente, quase pueril (apesar da nudez dos atores centrais) e totalmente desprovido de lógica. A separação do casal por imposição dos pais, por exemplo, soa descabida, assim como a relação entre David e Ann (Shirley Knight) - por mais que desde o início dê para perceber o interesse dela pelo rapaz, sua aproximação é nitidamente um artifício para criar uma aura de tensão que nem é trabalhada com eficiência pelo roteiro, que ainda encontra um jeito de acrescentar uma morte ao molho de tragédias da história e encerra sua narrativa de forma anticlimática e morna. Sobra então encantar-se com Brooke Shields (que além disso some de cena por boa parte do segundo ato) e tentar entender porque Hollywood resolveu fazer um remake em 2014 - que não tinha nem Shields e nem a música de Lionel Richie.

Em tempo: tentem encontrar Tom Cruise em uma única e crucial cena. Talvez seja outro motivo para encarar uma sessão.

sábado, 3 de junho de 2017

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI (Alice doesn't live here anymore, 1974, Warner Bros, 112min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Robert Getchell. Fotografia: Kent L. Wakeford. Montagem: Marcia Lucas. Direção de arte: Toby Carr Rafelson. Produção: Audrey Maas, David Susskind. Elenco: Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Diane Ladd, Jodie Foster. Estreia: 09/12/74

3 indicações ao Oscar: Atriz (Ellen Burstyn), Atriz Coadjuvante (Diane Ladd), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Ellen Burstyn) 

Nem a vítima, nem a compreensiva esposa do herói e muito menos um objeto sexual. Depois do sucesso estrondoso de "O exorcista" (73) - pelo qual foi indicada ao Oscar -, a atriz Ellen Burstyn queria voltar às telas em um papel que fosse o oposto de todos aqueles a que se sujeitava boa parte das intérpretes de sua geração. Foi assim que encontrou, dentre vários roteiros oferecidos pela Warner, uma estória escrita por Robert Getchell que oferecia tudo que ela buscava: uma personagem forte, uma história calcada na realidade e a possibilidade de demonstrar uma outra faceta de seu talento. Recusada por Shirley MacLaine, Barbra Streisand e até Diana Ross, a protagonista de "Alice não mora mais aqui" serviu de passaporte para que Burstyn finalmente levasse a estatueta da Academia - mas, mais importante ainda, foi a responsável por revelar à crítica e ao público que nem apenas de homens à margem da sociedade era feito o cinema do cineasta Martin Scorsese. Recém descoberto por seu elogiado "Caminhos perigosos" (73), o  então jovem realizador mostrou-se à altura do compromisso e preparou terreno para aquele que seria a primeira de suas várias obras-primas: "Taxi driver", lançado em 1976.

Na verdade o diretor nova-iorquino só chegou até Ellen Burstyn por recomendação de outro cineasta então começando sua escalada rumo ao prestígio, Francis Ford Coppola. Procurado pela atriz para que desse sugestões de nomes capazes de dirigir o projeto que estava em suas mãos, o homem que acabava de conhecer aplausos unânimes por "O poderoso chefão" (72) - e que viria a fazer história com duas produções indicadas ao Oscar de melhor filme no mesmo ano de 1974 - indicou o nome de Scorsese. Não muito certa em contratar alguém cujo cartão de visitas era um filme violento e extremamente masculino, Burstyn não demorou a ser convencida do entusiasmo que Scorsese demonstrava pelo roteiro - e foi premiada com uma equipe feminina da qual faziam parte a esposa de George Lucas (Marcia, responsável pela edição) e Bob Rafelson (Toby Carr, a desenhista de produção). Surgia, então, uma parceria que faria acontecer, diante das câmeras, momentos de um naturalismo raros, alcançados depois de exaustivos ensaios e inspiradas improvisações.





Também indicado ao Oscar (que perdeu para o incensado "Chinatown"), o roteiro de Robert Getchell usa e abusa de um tipo de cinema bastante influenciado por John Cassavetes - e serviu, como afirmado pelo próprio Scorsese, como uma tentativa sua de emular o espírito dos filmes estrelados por Bette Davis e Joan Crawford na era de ouro de Hollywood. Sem artifícios de estilo e centrado basicamente em seus personagens, "Alice não mora mais aqui" é um exercício minimalista do diretor, uma história simples e direta, que abdica de grandes reviravoltas e pode ser considerado, sem demérito algum, como seu filme de narrativa mais convencional. Pode-se dizer que é a vida como ela é sob o olhar de um Martin Scorsese menos agressivo e pessimista em relação ao mundo - e uma crônica social e familiar agradável e de fácil comunicação com a plateia, seja ela de onde for. Ao eleger como protagonista uma mulher comum, com problemas ordinários e relações tão falíveis quanto as de qualquer espectador, o filme acerta em cheio - ainda que sua falta de ousadia talvez deixe uma incômoda sensação de simplicidade excessiva.


Simplicidade é o que move o roteiro de Getchell e a direção de Scorsese - assim como é simplicidade também a maior característica da vida de Alice Hyatt (Ellen Burstyn), que vive em Socorro, Novo México, na companhia do marido e do único filho, o precoce Tommy (Alfred Lutter). Sua repentina viuvez acaba por lhe servir como empurrão para finalmente tomar as rédeas de sua vida, e, decidida, ela viaja com o menino de volta para sua cidade natal, Monterey, na California, onde planeja retomar uma carreira de cantora noturna. No meio do caminho, no Arizona, ela arruma emprego como garçonete e se envolve com um homem mais jovem, Ben (Harvey Keitel) - com quem encontra uma série de problemas inesperados - e com o fazendeiro David (Kris Kristofferson), que aparenta ser o homem que irá fazer dela uma mulher mais feliz e completa. Porém, aos poucos, Alice começa a perceber que é provável que sua liberdade e seu filho importem mais do que uma companhia masculina - e passa a questionar seu estilo de vida sentimental.

Narrado de forma fluida e natural, "Alice não mora mais aqui" é um filme atípico na carreira de Martin Scorsese, mais afeito a neuroses e obsessões urbanas do que a personagens mais banais. Porém, na interpretação potente de Ellen Burstyn, a vida de Alice Hyatt torna-se, por si mesma, o retrato do sonho simples de felicidade e paz de espírito. Não é uma obra-prima, mas é um filme importante dentro de seu contexto social e principalmente é uma aula de minimalismo e delicadeza. É a prova de que o cineasta Scorsese já nasceu praticamente pronto!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

ADEUS, MENINOS

ADEUS, MENINOS (Au revoir les enfants, 1987, Nouvelles Éditions de Films (NEF)/MK2 Productions, 104min) Direção e roteiro: Louis Malle. Fotografia: Renato Berta. Montagem: Emanuelle Castro. Figurino: Corrine Jorry. Direção de arte: Willy Holt. Produção: Louis Malle. Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fejto, Francine Racette, Stanislas Carré de Malberg. Estreia: 31/8/87 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original

Quando tinha 11 anos de idade, o futuro cineasta Louis Malle frequentou uma escola católica para rapazes no interior da França. Era o auge da II Guerra Mundial, e o nazismo se espalhava com assustadora velocidade quando o garoto foi testemunha de um acontecimento que nunca mais lhe saiu da memória: tal acontecimento, sob a visão poética e romântica do adulto que Malle se tornou, resultou em uma de suas maiores obras-primas. Indicado aos Oscar de filme estrangeiro e roteiro original e vencedor de 7 César (o Oscar francês), "Adeus, meninos" é, ao mesmo tempo, um delicado retrato do amadurecimento de um menino e uma emocionante ode à amizade incondicional e à solidariedade humana. Triste mas jamais sentimentaloide, forte sem nunca apelar para a violência explícita, o filme de Malle esteve, por coincidência, em uma corrida pelo Oscar marcada por outros três filmes que viam a guerra sob a ótica infanto-juvenil: o britânico "Esperança e glória", de John Boorman, o épico "Império do Sol", dirigido por Steven Spielberg e o caloroso "A era do rádio", de Woody Allen.

Enquanto o filme de Boorman encontrava espaço até mesmo para uma leveza inesperada, a obra de Spielberg apostava nas lágrimas, e a comédia de Allen flertava abertamente com uma nostalgia bem-humorada, a história contada por Malle encontra um equilíbrio perfeito entre a crônica de uma rotina recheada de orações, aulas enfadonhas, rusgas juvenis e o despertar da sexualidade e o drama denso de um filme de guerra visto de fora do conflito, por personagens que só tinham contato com ela através de notícias de rádio, racionamento de alimentos e a constante tensão à espera de bombardeios. Internos por suas famílias até como um meio de distanciar-se ao máximo do conflito, os alunos da escola St. Jean de la Croix sentem-se, de forma um tanto torta, seguros em relação ao mundo exterior, dedicados que estão a manter-se ocupados com suas tarefas diárias. Sentindo-se abandonado pela família - apesar do irmão mais velho também estar matriculado na mesma escola - o introvertido Julien Quentin (Gaspard Manesse, o alter ego do cineasta) volta ao convívio dos colegas e professores em janeiro de 1944 e, apesar de tudo parecer exatamente como nos anos anteriores, ele sente uma aura cada vez mais densa a respeito do colaboracionismo francês em relação ao nazismo. Relativamente popular em sua classe, ele vê sua atenção atraída por um novo aluno, o calado Jean Bonnett (Raphael Fetjo). Percebendo o isolamento a que o garoto é submetido por ser protestante, Julien se aproxima dele e entre os dois nasce uma bela amizade - que fica ainda mais forte quando a verdade sobre Jean surge e, ao invés de separá-los, os une de vez.


Construindo sua narrativa através de pequenas anedotas cotidianas que vão se conectando para formar um mosaico que retrata com precisão e nostalgia um período poucas vezes tratado com carinho pelas memórias afetivas, Louis Malle convida a plateia a penetrar em um universo onde conceitos como amizade, lealdade, honra e ética estão apenas sendo descobertos e postos à prova. Sem preocupar-se em enfeitar seu filme com uma estética rebuscada, o cineasta francês prefere centralizar seus esforços em fortalecer seus personagens e o ambiente de paranoia em que eles se encontram. Apesar de deixar claro em vários momentos que a escola serve como um escudo contra o mundo exterior - e onde a maior preocupação é trocar alimentos por cigarros ou dedicar-se a leituras de teor erótico, proibidas pelos padres -, o roteiro tampouco se furta a expor, de maneira explícita, as relações humanas do lado de fora de suas paredes: a bela cena em que a mãe de Julien, ao lado dos filhos e de Jean, testemunha um ato de violento preconceito contra um senhor judeu em um restaurante, é exemplar nesse sentido, oferecendo aos rapazes uma aula prática de intolerância em tempos de guerra que nenhuma escola lhes seria capaz.

Dirigido com um misto de sobriedade e emoção, "Adeus, meninos" é um filme de tocar o coração. Estabelece aos poucos a rede de relacionamentos entre seus personagens e apresentando-os com fluida naturalidade - para, ao final, utilizá-los com maestria em um desfecho coerente e amargo, que empurra seus protagonistas em direção ao repentino amadurecimento. Por tratar-se de uma história real, tudo fica ainda mais comovente e arrasador, mas Malle é um cineasta elegante e discreto, que impede que sua bela obra se transforme em um clichê melodramático. É de estraçalhar os sentimentos, mas é, acima de tudo, um cinema espetacular, vivo, real e inesquecível. Um dos grandes filmes dos anos 80.