quarta-feira, 8 de março de 2017

UM TIRO NA NOITE

UM TIRO NA NOITE (Blow out, 1981, Cinema 77/Geria/Filmway Pictures, 107min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Vicki Sanchez. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Bruce Weintraub. Produção executiva: Fred Caruso. Produção: George Litto. Elenco: John Travolta, Karen Allen, John Lithgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May. Estreia: 07/7/81

Acostumado a uma sucessão de altos e baixos em uma trajetória profissional que tanto lhe deu grandes sucessos de bilheteria, como "Os embalos de sábado à noite" (77), "Grease: nos tempos da brilhantina" (78) - e até o fraquinho mas imensamente popular "Olha quem está falando" (89) - quanto fracassos homéricos, a exemplo do tenebroso "Perfeição" (85), o ator John Travolta experimentou, em 1994, uma ressurreição de espantar até aos mais crédulos e vividos fãs de cinema, quando voltou a tornar-se um nome quente em Hollywood graças ao incensado "Pulp fiction: tempo de violência". O filme deu um bem-vindo novo fôlego a uma carreira praticamente estagnada, respeito da crítica e até mesmo uma indicação ao Oscar. Aplaudido aos quatro ventos, louvado e considerado uma das mais influentes obras da década de 90, o trabalho de Quentin Tarantino revelou a uma nova geração de espectadores um talento dramático que pouca gente conseguia vislumbrar no galã de olhos azuis que não hesitou em deixar a vaidade de lado para interpretar um matador de aluguel viciado em cocaína e muitos quilos acima do peso ideal. Esse talento, revelado em um desempenho icônico, foi descoberto por Tarantino não em seus filmes mais celebrados, onde requebrava o corpo em coreografias que marcaram época, mas sim em uma trama de suspense que naufragou nas bilheterias no início dos anos 80 apesar de suas vastas qualidades artísticas. Dirigido por Brian De Palma logo após o impacto de "Vestida para matar" - em que prestava reverência ao mestre Hitchcock - "Um tiro na noite" confirmou sua capacidade de aproveitar os velhos clichês do gênero em histórias originais, mas não encontrou seu público e teve de contentar-se em esperar que o tempo o tornasse cult - e desse à Travolta a chance de voltar às boas graças da indústria.

Como o título original já denuncia, "Um tiro na noite" é uma homenagem clara e reverente ao clássico "Blow up: depois daquele beijo" (66), de Michelangelo Antonioni. No filme do cineasta italiano, um jovem fotógrafo descobria um assassinato ocorrido em um parque no momento de revelar seus negativos. Na obra assinada por De Palma - que mesmo inspirado por Antonioni não deixa de lado seu fetiche pelos ensinamentos de Hitchcock - o protagonista é Jack Terry (John Travolta), um técnico de som de filmes de terror barato que tem sua vida transformada em uma madrugada, quando, ao gravar ruídos para um de seus próximos trabalhos, acaba sendo testemunha de um acidente de carro que mata um candidato à presidência dos EUA. No processo, salva da morte por afogamento a acompanhante do político, a prostituta Sally Bedina (Nancy Allen, à época casada com o diretor), e entra de gaiato em uma conspiração muito mais perigosa quando, ao escutar os sons gravados, descobre que antes do estouro do pneu que causou a queda do carro no rio, um tiro foi disparado. Ignorado pela polícia e pelas autoridades, Jack se une à Sally para desmascarar os culpados, utilizando-se, para isso, de seus conhecimentos profissionais.





Um apaixonado confesso pela arte cinematográfica e seus artifícios narrativos (que utiliza sem pestanejar em praticamente toda a sua filmografia), Brian De Palma faz, em "Um tiro na noite", uma bela homenagem à sétima arte, muito bem embalada em um gênero que domina como poucos. Desde a primeira sequência, que abraça carinhosamente os filmes B de horror, o cineasta oferece à plateia uma trama intrigante (ainda que previsível em muitos momentos) e recheada de um tesão explícito pela arte de fazer cinema, De Palma usa a trajetória de seu protagonista em busca da verdade como um pretexto para exibir seu vasto conhecimento do ofício. Tudo funciona como um relógio em sua narrativa visual e sonora, começando com a sutil trilha sonora de Pino Donaggio, passando pela edição enxuta e claustrofóbica de Paul Hirsch e chegando ao desenho de som, o ponto crucial do filme e razão de ser de sua existência: foi durante o processo de sonorização de "Vestida para matar" que o diretor teve a ideia de contar uma história que explorasse os bastidores do cinema através de uma técnica pouco conhecida (e também pouco valorizada) pela plateia. Surgiu, então, um enredo que misturava momentos de pura tensão, curiosidades sobre bastidores e uma conspiração que lembrava (e muito) um acidente de carro envolvendo o então senador Edward Kennedy.

Mas nem mesmo essa citação clara e óbvia a um fato político acontecido em seu próprio país - somada ao interessante mergulho no que acontece por trás das câmeras - ajudou a plateia a se deixar seduzir pelo filme. John Travolta - segunda opção para o papel, substituindo Al Pacino - arrancou elogios da crítica, mas deu início a um período escuro da carreira, que teria seguimento com "Os embalos de sábado continuam" (83) e uma série de produções ignoradas nas bilheterias. Não se sabe exatamente o que causou tal descaso popular ao filme de Brian De Palma - uma produção correta, com grandes momentos de suspense e um roteiro inteligente - mas talvez a ideia de um dos produtores (à época desconsiderada rapidamente) pudesse ter ajudado no resultado final, em termos comerciais: sem carisma e pouco conhecida do público, Nancy Allen teve seu papel quase oferecido à Olivia Newton-John, como forma de capitalizar sua química com o galã, já comprovada em "Grease". Mas Travolta já não era mais o protagonista dançante de seus maiores hits e buscava novos desafios artísticos. Demorou mais de dez anos - e o faro de Quentin Tarantino - para ser reconhecido como bom ator, mas basta prestar atenção em sua atuação em "Um tiro na noite" para perceber que seu talento já estava presente. Com mais de trinta anos de idade, o filme merece ser descoberto pelas novas gerações.

segunda-feira, 6 de março de 2017

JUSTIÇA PARA TODOS

JUSTIÇA PARA TODOS (... and justice for all, 1979, Columbia Pictures, 119min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Valerie Curtin, Barry Levinson. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Joe Wizan. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Al Pacino, Jack Warden, John Forsythe, Lee Strasberg, Jeffrey Tambor, Christine Lahti. Estreia: 15/9/79 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Original

Não havia, na Hollywood da década de 70, ator mais quente do que Al Pacino. Indicado quatro anos consecutivos ao Oscar - por "O poderoso chefão" (em que concorreu injustamente como coadjuvante), "Serpico", "O poderoso chefão - parte 2" (dessa vez como protagonista) e "Um dia de cão" - e respeitado como um dos maiores intérpretes de sua geração, ao lado de Robert De Niro, Pacino também tinha como característica buscar desafios cada vez maiores, em papéis que questionassem o status quo e o tradicional american way of life. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele voltou a disputar a estatueta dourada na cerimônia de 1980, por uma atuação que se tornaria, anos mais tarde, uma das mais icônicas de sua carreira. Na pele de um advogado lutando contra a burocracia e o descaso da justiça norte-americana, Pacino entregou mais uma interpretação feroz e intensa, que encantou a crítica e o público mas esbarrou nos eleitores da Academia, que preferiram abraçar o minimalista desempenho de Dustin Hoffman em "Kramer vs Kramer" - papel do qual, por ironia do destino, o próprio Pacino declinou para trabalhar no filme de Jewison.

"Justiça para todos" - um título recheado de uma boa dose de sarcasmo que fica evidente no final amargo do filme - é quase uma crônica a respeito dos meandros da justiça americana, inspirada em visitas do casal de roteiristas a tribunais de júri em Baltimore e Los Angeles. O futuro cineasta Barry Levinson (vencedor do Oscar por "Rain Man") e sua então esposa Valerie Curtin (que também concorreram à estatueta dourada, assim como Pacino) criaram um roteiro que não se prende a uma única situação dramática, desenvolvendo, ao invés disso, uma série de acontecimentos que vão levando seu protagonista à mais completa desilusão com o sistema judicial de seu país. Logo em sua primeira cena, Arthur Kirkland é visto junto a presos comuns, na cela de uma delegacia, depois de passar a noite na cadeia por desacato ao juiz Henry Fleming (John Forsythe) - a personificação do lado mais corrupto e arrogante da lei. É nesse ambiente que Kirkland, que mantém seu idealismo intacto apesar de algumas experiências pouco saudáveis, conhece Ralph Agee (Robert Christian), uma travesti negra, acusada injustamente de tráfico de drogas e que acaba se tornando sua cliente. Cuidando também do caso do jovem Jeff McCullaugh (Thomas Waites) - condenado devido a uma série de enganos judiciais que o estão empurrando diretamente para a insanidade mental - Kirkland acaba se vendo obrigado a defender justamente seu maior desafeto quando o Juiz Fleming é acusado de estupro e agressão. Chantageado (tal aproximação pode salvar McCullaugh), Kirkland aceita, mesmo a contragosto, a tarefa de engolir seus princípios, mas nem de longe imagina o quão podre pode ser o meio em que transita.


Utilizando personagens secundários como forma de comentar a ação, o roteiro de "Justiça para todos" evita cair no dramalhão mesmo quando se vê obrigado a apelar para tragédias como forma de sublinhar sua contundência. Enquanto luta por seus clientes, Kirkland se vê enredado em um romance com Gail Packer (Christine Lahti) - advogada que faz parte de um comitê que investiga assuntos internos - e convive com outros membros de sua profissão, retratos ora cômicos ora dramáticos de seu círculo. No primeiro caso existe o Juiz Francis Rayford (Jack Warden) - que tem constantes pensamentos suicidas e não hesita em utilizar uma arma durante as sessões que preside; no segundo, o filme apresenta Jay Porter (Jeffrey Tambor, estreando em cinema), que sofre de um grave desequilíbrio emocional depois que um cliente que ajudou a absolver voltou a praticar crimes violentos. Nem sempre os alívios cômicos inseridos na narrativa funcionam - pelo contrário, soam muitas vezes deslocados e desnecessários - mas é inegável que o ritmo impresso pelos diálogos ágeis e pela edição inteligente envolvem o espectador sem grande dificuldade, em especial graças ao elenco impecável selecionado por Jewison, que apesar de manter o tom sóbrio na direção, não hesitou em definir seu filme, à época da estreia, como uma "grande comédia".

Não é difícil compreender o ponto de vista de Jewison. Ao enfatizar os absurdos e as situações surreais que ocorrem nos bastidores da Justiça e colocá-las lado a lado com suas consequências diretas nas vidas de réus, advogados e juízes, "Justiça para todos" se mostra, a cada minuto, como um panorama quase bizarro de uma sociedade em constante desequilíbrio de classe e raças. Único personagem com real percepção sobre o mundo que o cerca, Arthur Kirkland é uma espécie de anti-heroi, um homem perdido em um redemoinho de corrupção, burocracia e interesses escusos, tentando desesperadamente manter sua retidão moral mesmo quando tudo o empurra em direção contrária. Al Pacino oferece todo o seu talento para contar sua história, acertando o tom em qualquer direção que a trama siga e mostrando porque é um dos grandes atores de sua geração. Voltando a contracenar com seu mestre do Actor's Studio, o veterano Lee Strasberg (com quem havia trabalhado em "O poderoso chefão - parte II", aqui na pele de seu estimado avô), Pacino brinda o espectador com uma de suas mais poderosas interpretações, intensa e dotada da energia de que apenas os maiores são capazes. Uma obra indispensável para os fãs de cinema e de filmes de tribunal, "Justiça para todos" é atemporal.

O PESO DE UM PASSADO

O PESO DE UM PASSADO (Running on empty, 1988, Double Play, 120min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Naomi Foner. Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Tony Mottola. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Philip Smith. Produção executiva: Naomi Foner, Burtt Harris. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Christine Lahti, Judd Hirsch, River Phoneix, Martha Plimpton, Jonas Abry, Ed Crowley. Estreia: 09/9/88

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (River Phoenix), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro 

Em 1983, o cineasta Sidney Lumet assinou o filme "Daniel", que, baseado em romance de E.L. Doctorow, inspirava-se na história real do casal Julius e Ethel Rosenberg, executado em 1953 nos EUA, acusado de traição. De uma certa forma, o tema voltou à tona na filmografia do diretor com "O peso de um passado", lançado cinco anos mais tarde e novamente com um foco mais familiar do que político. Se no filme estrelado por Timothy Hutton o protagonista embarcava em uma dolorosa jornada para descobrir os detalhes do processo que vitimou seus pais depois de uma tragédia que envolve sua irmã, na trama escrita por Naomi Foner o núcleo familiar formado por um par de militantes de esquerda e seus dois filhos precisa enfrentar uma temida realidade quando o passado começa a ameaçar o presente e o futuro - na figura de uma possível carreira musical para o talentoso primogênito, que coincidentemente está descobrindo o amor e a individualidade. Interpretado por um inspirado River Phoenix em vias de passar de promessa a ator consagrado ainda antes dos 20 anos de idade, o romântico e idealista Danny Pope acaba sendo o maior atrativo da produção, que apesar dos prêmios ao roteiro de Naomi Foner (e uma indicação ao Oscar da categoria), se ressente de um ritmo irregular e da demora em determinar seu foco.

O público demora um pouco a compreender a dinâmica da família Pope: tanto o pai, Arthur (Judd Hirsh) quanto a mãe, Annie (Christine Lahti) não demonstram claramente os motivos que os levam a mudar-se, juntamente com os filhos, a cada seis meses, deixando para trás identidades, rotinas e todos os vestígios de sua existência. Os filhos - o adolescente Danny e o pequeno Harry (Jonas Abry) - apenas seguem, sem questionar, as ordens paternas, impedidos de levar uma vida normal e dotada de qualquer aspecto de normalidade. É quando chegam em uma cidade do interior de Nova Jersey que as coisas começam a precipitar-se em suas vidas - e finalmente a plateia é informada sobre seu dramático passado, que remonta à 1971, quando, ainda jovens e esperançosos de modificar o mundo, Arthur e Annie explodiram um laboratório de napalm, atingindo um faxineiro que estava no local indevidamente. Desde então, foragidos, construíram uma vida em eterna fuga do FBI, jamais se permitindo permanecer na mesma cidade e com a mesma identidade por mais de poucos meses. De repente, como obra do destino, dois acontecimentos aleatórios ameaçam a rotina do grupo: o reaparecimento de Gus (L.M. Kit Carson), um antigo companheiro de lutas políticas e o nascimento da paixão entre Danny e Lorna (Martha Plimpton), filha de um professor de música que vê no rapaz o talento necessário para uma carreira como pianista - o que, logicamente, bate de frente com os planos a longo prazo do casal de foragidos.


Sem o brilhantismo de algumas de suas obras mais famosas - como "12 homens e uma sentença" (57) "Um dia de cão "(75), "Rede de intrigas" (76) e "O veredicto" (82), todos grandes filmes com aguda percepção da sociedade americana - Sidney Lumet não apresenta o mesmo brilhantismo em "O peso de um passado". Mesmo de posse de uma história de enorme potencial dramático, o veterano cineasta parece não sentir-se à vontade em explorar o romantismo da relação entre Danny e Lorna ou a rebeldia do rapaz quanto à imposição de uma vida nômade que finalmente passa a incomodá-lo. O tom morno da narrativa só é interrompido quando o roteiro abre espaço para o brilho de Christine Lahti, que acerta em cheio na construção de uma personagem que vai se revelando gradualmente ao espectador, até explodir em uma comovente cena em que encontra seu pai milionário, com quem rompeu ao unir-se a Arthur: é um momento de sensibilidade à flor da pele, que dialoga muito mais com a intensidade de River Phoenix do que com a frieza com que o filme vai acontecendo até então.

Indicado ao Oscar de coadjuvante - que perdeu para Kevin Kline por "Um peixe chamado Wanda" - o jovem Phoenix, que morreria precocemente poucos anos mais tarde, demonstra mais uma vez um carisma e uma naturalidade impressionantes, capazes de contagiar os colegas de cena e o público. De olhar doce e personalidade serena, ele oferece a seu personagem camadas intensas que contrastam saudavelmente com a quase frieza com que o filme é apresentado na grande maioria do tempo. Seus arroubos de espontaneidade garantem um acréscimo e tanto de interesse à uma trama que, apesar de relevante e naturalmente dramática, frequentemente entra em um estágio de monotonia e apatia que quase eclipsa suas qualidades - além de apresentar um protagonista tão chato quanto Arthur Pope, que nem mesmo o talento de Judd Hirsch consegue tornar simpático. Não é um dos melhores trabalhos de Sidney Lumet, mas graças a seu tema palpitante, a momentos pontuais de atuação de Lahti e ao carisma de Phoenix, prende a atenção até seu emocionante (ainda que um tanto abrupto) desfecho. Vale a pena dar uma chance.

domingo, 5 de março de 2017

C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR

C.R.A.Z.Y.: LOUCOS DE AMOR (C.R.A.Z.Y., 2005, Téléfilm Canada, 127min) Direção: Jean-Marc Vallée. Roteiro: François Boulay, Jean-Marc Vallée. Fotografia: Pierre Mignot. Montagem: Paul Jutras. Figurino: Ginette Magny. Direção de arte/cenários: Patrice Bricault-Vermette/Nicolas Lepage. Produção executiva: Jacques Blain, Richard Speer. Produção: Pierre Even. Elenco: Marc-André Grondin, Michel Côté, Danielle Proulx, Émile Vallée, Pierre-Luc Brillant, Maxime Tremblay, Alex Gravel. Estreia: 27/5/05

Zac Beaulieu nasceu no Dia de Natal, no seio de uma família católica e conservadora do Canadá. Quarto filho de uma prole de cinco, desde sempre foi objeto de estranhamento em seu lar machista e pouco afeito aos avanços da sociedade. Sua mãe acreditava que ele tinha o poder de curar as pessoas à distância e seu pai não compreendia sua necessidade de vestir-se de buscar sua própria identidade - seja através de roupas copiadas de seus ídolos musicais ou de atitudes consideradas pouco masculinas mesmo nos efervescentes anos 60 e 70. Inquieto por natureza e rebelde em todas as definições, Zac é o protagonista de "C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor", representante canadense por uma indicação ao Oscar de 2006. Baseada nas memória do corroteirista François Boulay e dirigido por Jean-Marc Vallée - que anos mais tarde se tornaria figura assídua nas festas da Academia, com "Clube de Compras Dallas" (2013) e "Livre" (2014) - a comédia dramática arrebatou prêmios em diversos festivais de cinema pelo mundo e, embalada por uma trilha sonora que mistura Patsy Cline, Charles Aznavour, Pink Floyd, Rolling Stones e principalmente David Bowie, revelou um diretor inventivo e sensível, que consegue equilibrar com destreza momentos de um humor sutil e um drama comovente e que escapa milagrosamente do piegas.

Quando o filme começa, no fim de 1960, o roteiro já dá mostras de que não se trata de uma produção comum - a ironia e o humor iconoclasta são sublinhados pela edição ágil, pela narração em off do protagonista e pela trilha sonora eclética e inteligente. Quando criança, Zac é interpretado pelo carismático Émile Vallée (filho do diretor), e é impossível não se deixar conquistar por seu sorriso franco e sua timidez incurável, que transforma até mesmo as visitas à Igreja - nos Natais em que precisa dividir a atenção com o outro aniversariante, mais famoso - em momentos inspirados. Quando Zac atinge a adolescência - e por consequência sua efervescência natural - o ator Marc-André Grondin assume o papel, e sem prejuízo nenhum à narrativa, envolve o espectador em uma história que consegue ser, ao mesmo tempo, uma homenagem à rebeldia e uma ode à família, por mais idiossincrática que ela possa ser. E a de Zac, como fica claro desde o início, não é nada simples.


Pais de cinco meninos - Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan - o casal Gervais (Michel Côté) e Laurianne (Danielle Proulx) levam uma vida confortável, mas não luxuosa. Ela se dedica profundamente à criação dos filhos e à religião, tanto na forma de visitas assíduas à igreja local quanto em constantes consultas com uma picareta que se diz paranormal e identifica em seu quarto filho alguém com poderes místicos (revelados através de uma mecha loura de cabelos). Ele é um pai rígido e pouco afeito a demonstrações de afeto e carinho, mas que vê nos filhos a chance de redimir-se de uma vida não exatamente bem-sucedida. Zac, por sua vez, tenta desesperadamente encaixar-se nos moldes da rotina imposta por seus pais, principalmente quando percebe, logo cedo, que é muito mais diferente de toda a sua família do que deveria ser. Por toda a sua infância e adolescência ele irá lutar contra esse sentimento de deslocamento, ao mesmo tempo em que tentará manter um relacionamento saudável com seus principais desafios: o machismo arraigado do pai e a virulência de Raymond (Pierre-Luc Brillant), seu irmão viciado em drogas e seu principal desafeto dentro do núcleo familiar. Buscando de todas as maneiras encaixar-se no perfil esperado por todos - mesmo que aparentemente esteja pouco ligando para quaisquer convenções - o rapaz irá, aos poucos, despertar para o fato de que, independente de tudo, sua individualidade sempre irá sobressair-se aos cânones impostos pela sociedade.

Mesmo que em sua segunda metade substitua a ironia e o bom-humor por uma alta dose de drama e melancolia, "C.R.A.Z.Y." é um filme que passa longe dos tradicionais retratos amargos e deprimentes da comunidade gay que o cinema costuma apresentar - ou ao menos premiar e louvar. Tem um clima constante de desconstrução de clichês, enfatizado pela seleção cuidadosa das obras que formam sua trilha sonora (especialmente a canção-título, interpretada por Patsy Cline, idolatrada pelo pai do protagonista) e pela reconstituição de época, impecável mas nada óbvia. Sem precisar nem ao menos explicitar a sexualidade de Zac com cenas mais ousadas, Jean-Marc Vallée constroi uma narrativa que funciona em todos os níveis emocionais e intelectuais a que se propõe. É um filme delicado, engraçado, comovente e que não subestima a inteligência do espectador. Um belo cartão de visitas para um cineasta de talento e sensibilidade. Em tempo: o titulo "C.R.A.Z.Y." é a união das iniciais dos cinco filhos do casal Beaulieu, como fica evidente nos créditos finais. Um filme encantador!

sábado, 4 de março de 2017

ANJOS E DEMÔNIOS

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels and demons, 2009, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 138min) Direção: Ron Howard. Roteiro: David Koepp, Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Larry Bellantoni, Robert Gould. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell, Marco Valerio Pugini. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Armin Mueller-Stahl, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgaard, Pierfrancesco Favino, Cosimo Fusco. Estreia: 04/5/09 (Roma)

Best-seller absoluto em todo o mundo, o livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown, não demorou em chegar às telas de cinema, em 2006, com o apoio de um invejável time liderado pelo diretor Ron Howard (vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante") e pelo ator Tom Hanks (dono de duas estatuetas, por "Filadélfia" e "Forrest Gump: o contador de histórias" e que ficou com um papel disputado pelos maiores astros de Hollywood à época, como Russell Crowe e Hugh Jackman). Com um custo estimado de 125 milhões de dólares, o filme acabou desagradando boa parte da crítica e dos fãs da obra original, e, apesar de ter coletado mais de 750 milhões internacionalmente, ficou longe de ser considerado um fenômeno sequer parecido com o do livro, que vendeu mais de 80 milhões de cópias e causou polêmicas infindáveis com suas teorias a respeito de uma possível descendência de Jesus Cristo. Isso não impediu, no entanto, que Hollywood percebesse que Langdon e suas aventuras poderiam tranquilamente render muito mais - especialmente porque Brown já tinha publicado outro livro com o mesmo personagem e que estava pronto para ser adaptado. Mesmo se passando antes dos acontecimentos mostrados em "Da Vinci", "Anjos e demônios" foi lançado, três anos mais tarde, como uma continuação - e, se não teve a bilheteria esperada, não foi por falta de esforço por parte dos produtores, que tentaram (sem conseguir muito) corrigir as falhas do primeiro filme.


Uma das mais frequentes críticas feita à "O Código Da Vinci" em seu lançamento dizia respeito à forma como o roteirista Akiva Goldsman havia traduzido a estratosférica quantidade de informações sobre História, Arte e Religião do livro para o filme. Para evitar o didatismo em "Anjos e demônios", o vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante" - que recebeu um salário recorde de 3,8 milhões de dólares pelo trabalho - enxugou o máximo que pode de referências históricas aos Illuminati (sociedade secreta surgida no século XVIII que tem papel preponderante na trama) e concentrou-se nas aventuras de Langdon pela cidade do Vaticano às vésperas da eleição de um novo Papa. O roteiro acabou por ter cenas reescritas pelo veterano David Koepp (a pedido de Tom Hanks) e chegou até o público sem a mesma inteligência de "Da Vinci" - e com sequências de suspense e ação mornas e apáticas. Nem mesmo a duração excessiva (quase duas horas e meia de projeção) dá conta de costurar o exagero de situações criadas pela história, que envolve sequestro de cardeais, o roubo de antimatéria com intenções criminosas, os famigerados Illuminati e uma sucessão de cenas que se pretendem chocantes mas que ficam no meio do caminho entre a violência e o desejo de atrair público de todas as idades às salas de cinema. O resultado é um filme bem produzido (como era de se esperar haja visto o orçamento gigantesco para uma obra sem efeitos visuais mirabolantes) mas sonolento, incapaz de empolgar ou sequer atiçar a imaginação da plateia como seu antecessor.


Se em "O Código Da Vinci" o protagonista fazia uma turnê pelos pontos turísticos religiosos e históricos de Paris, em "Anjos e demônios" o simbologista mais famoso da literatura mundial é chamado ao Vaticano para tentar evitar uma tragédia de grandes proporções: um grupo de membros dos Illuminati acaba de sequestrar os quatro cardeais favoritos ao posto de novo Papa (após a morte inesperada do último) e pretende matá-los de hora em hora, além de detonar uma explosão capaz de arrasar com a cidade. Tais atos, planejados como uma revanche pela perseguição da Igreja Católica feita à sociedade secreta desde sua criação, ameaçam não apenas a integridade física de todos os religiosos reunidos para o conclave, mas também a própria estrutura da Igreja - o que deixa o carmelengo Patrick McKenna (Ewan McGregor) na difícil situação de lidar tanto com a eleição quanto com a possibilidade de não sobrarem possíveis candidatos ao cargo, já que, além dos desaparecidos, apenas o Cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl) tem condições de assumir tal papel. Nesse meio-tempo, Langdon corre de uma catedral à outra, tentando evitar as mortes dos cardeais usando, para isso, pistas que remetem a antigas anotações guardadas a sete chaves pelas autoridades canônicas.

Substituindo a francesa Audrey Tautou pela israelense Ayelet Zurer (que foi a mulher de Eric Bana em "Munique", de 2005), "Anjos e demônios" consegue evitar a verborragia excessiva de "O Código Da Vinci", mas esbarra em um problema ainda maior: a superficialidade de absolutamente toda a sua narrativa. Enquanto no filme anterior o diretor Ron Howard ilustrava longos discursos com uma edição notável e criativa (mas ainda assim vítima de muitas reclamações), aqui ele simplesmente ignora toda e qualquer vontade de esclarecer a plateia sobre as origens dos Illuminati ou sobre detalhes a respeito das pistas que Langdon vai encontrando em sua busca. O ritmo talvez tenha ficado mais ágil, mas em compensação é difícil de envolver-se com a trama ou com seus personagens. Tom Hanks continua no piloto automático e Ewan McGregor faz o que pode com um personagem que jamais atinge todas as suas possibilidades. No cômputo final, é um filme menor do que seu primeiro capítulo - não empolga, não ensina nem tampouco é memorável. Um entretenimento decente, mas nada além disso. Uma decepção quando se pensa que tem a assinatura de um time de talento inegável e uma produção caríssima.

sexta-feira, 3 de março de 2017

FORA DE CONTROLE

FORA DE CONTROLE (Changing lanes, 2002, Paramount Pictures, 98min) Direção: Roger Michell. Roteiro: Chap Taylor, Michael Tolkin, estória de Chap Taylor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: David Arnold. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kristi Zea/Debra Schutt. Produção executiva: Ron Bozman, Adam Schroeder. Produção: Scott Rudin. Elenco: Samuel L. Jackson, Ben Affleck, Toni Collette, Sydney Pollack, Richard Jenkins, William Hurt, Amanda Peet, Dylan Baker. Estreia: 07/4/02

Doyle Gipson precisa chegar ao tribunal para provar ao juiz que acaba de dar entrada em uma casa onde seus filhos pequenos poderão morar com a mãe - o que evitaria que fossem de mudança com ela para longe de Nova York. Gavin Banek é um jovem e bem-sucedido advogado que também tem um compromisso importante, que fará com que sua firma (cujo principal sócio é seu sogro) assuma a administração de um fundo milionário de um cliente já morto. No meio do caminho, os dois carros batem um no outro e, na pressa, Banek deixa Gipson para trás, sem dar-lhe tempo de resolver seu grande problema - e, consequentemente, salvar-se da separação dos filhos. Porém, o destino não brinca em serviço: assim que chega no tribunal, Banek descobre que um importantíssimo documento (crucial para sua vitória) ficou nas mãos de Gipson - que, por sua vez, não tem a menor intenção de devolvê-lo antes que seu prejuízo seja sanado. Essa guerra de nervos, que retrata o tênue limite entre a civilidade e a barbárie, é o tema de "Fora de controle", dirigido por Roger Michell como seu projeto seguinte ao grande sucesso da comédia romântica "Um lugar chamado Notting Hill" (1999). Ao contrário do solar e delicado filme estrelado por Julia Roberts e Hugh Grant, porém, "Fora de controle" mostra um lado amargo, pessimista e cínico da humanidade - daí, talvez, o motivo de seu fracasso comercial nos EUA mesmo com o elenco liderado por Ben Affleck e Samuel L. Jackson. Mesmo conseguindo cobrir seu custo estimado de 45 milhões de dólares, o filme nem chegou à marca dos 70 milhões no mercado doméstico - o que também pode ser creditado ao marketing equivocado, que vendia um thriller dramático como um suspense de ação.

O trailer de "Fora de controle" realmente prometia à plateia uma trama eletrizante, com cenas repletas de tensão - e a presença de Ben Affleck, então um ator em ascensão e vindo direto de "Pearl Harbor" apenas aumentava essa impressão. O que Michell apresenta, no entanto, é um filme de ritmo bem mais lento do que o esperado, com uma pegada bem menos dinâmica e violenta do que se poderia supor. Não é um defeito - a narrativa é fluida e evita com inteligência o óbvio - mas de forma alguma se conecta com aqueles que procuram uma produção calcada em perseguições de carro, tiroteios ou a velha e boa troca de socos. A intenção do diretor (apoiado em um roteiro repleto de diálogos a respeito de ética, civilidade e tentativas de manter a esperança em um mundo com armadilhas à espreita em cada esquina) é fazer pensar, mais do que injetar adrenalina no espectador. Poderia ter dado mais certo se um dos protagonistas não fosse interpretado por Ben Affleck, notadamente um dos atores mais inexpressivos de sua geração - o que fica ainda mais evidente diante do show de seu parceiro de cena, o sempre espetacular Samuel L. Jackson.


Descoberto pelo público com sua atuação hipnotizante em "Pulp fiction: tempo de violência" (94), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante, Jackson teve, a partir de então, um novo recomeço de carreira - iniciada no começo dos anos 70 e finalmente reconhecida na década de 90, graças ao cineasta Spike Lee, que lhe deu o papel de um viciado em drogas no filme "Febre da selva" (91), responsável por um prêmio de coadjuvante no Festival de Cannes (uma categoria, aliás, criada exclusivamente naquela edição do Festival e nunca mais repetida). Parceiro constante também de Quentin Tarantino - seu trabalho em "Jackie Brown" (98) resultou em um prêmio no Festival de Berlim - e dono de um típico físico marcante, o ator empresta ao desiludido mas ainda esperançoso Doyle Gipson nuances que vão se avolumando com o desenrolar da narrativa: é um homem comum que se vê sem alternativa quando vê, diante de si, a possibilidade de perder tudo que lhe é mais caro. Jackson passeia com maestria entre diferentes estados de espírito - a esperança, a raiva, o desespero, a ternura, a angústia - e leva o público junto com ele por todo o caminho. O mesmo não acontece com Affleck - que ainda tem o azar de ter ficado com um personagem bem menos gostável.

Quando fez "Fora de controle", Affleck já era um nome conhecido dos cinéfilos, graças a filmes como "Gênio indomável" (que lhe deu o Oscar de roteiro original, dividido com o amigo Matt Damon), "Armageddon" (98), "Forças do destino" (99) e "Pearl Harbor" (2001), superprodução de Michael Bay que, ao invés de tornar-se um novo "Titanic", decepcionou crítica e público. Frequentado capas de revistas mais por seus casos amorosos - com as atrizes Gwyneth Paltrow e Jennifer Lopez - do que exatamente por seus dotes artísticos, Affleck é um ator que funciona razoavelmente quando bem dirigido, mas que, sob um comando menos rígido, demonstra toda a fragilidade de seu talento como ator. Roger Michell enquadra-se na segunda categoria, o que acaba por minar a potência de sua trama: quando os dois protagonistas estão juntos em cena, a fúria e o desespero de Jackson é palpável, mas tudo que vem de Affleck soa artificial e forçado. Não ajuda nem mesmo colocar como coadjuvantes atores excelentes como William Hurt, Richard Jenkins e Toni Collette (subaproveitada como uma colega de trabalho e ex-amante de Gavin): servindo apenas como peões em uma trama centrada basicamente no duelo entre os dois personagens centrais, eles não conseguem disfarçar o fato óbvio de que, com um ator com mais recursos para fazer frente à Samuel L. Jackson, nem mesmo o equívoco na hora de vender "Fora de controle" ao público seria um pecado tão mortal. Do jeito que está, o filme de Michell é um bom entretenimento, com qualidade dramática e uma história que faz pensar nos rumos de uma sociedade cada vez mais intolerante e sem empatia - mas é pouco diante do grande filme que poderia ter sido.

quinta-feira, 2 de março de 2017

SABOTADOR (Saboteur, 1942, Universal Pictures, 109min) Direção: Alfred Hitchcock. Roteiro: Peter Viertel, Joan Harrison, Dorothy Parker. Fotografia: Joseph Valentine. Montagem: Otto Ludwig. Música: Frank Skinner. Direção de arte/cenários: Jack Otterson/R.A. Gausman. Produção: Frank Lloyd. Elenco: Robert Cummings, Priscilla Lane, Otto Kruger, Alan Baxter, Clem Bevans, Norman Lloyd. Estreia: 22/4/42

Em 1941, Alfred Hitchcock já era um grande nome do cinema, tanto em termos de público quanto de prestígio: "Rebecca, a mulher inesquecível" tinha ganho o Oscar de melhor filme e "Suspeita" havia dado à Joan Fontaine uma estatueta de melhor atriz. Mesmo assim, com todo o prestígio de seu nome, ele ainda não podia mandar na própria carreira, e uma prova disso é "Sabotador". Emprestado por David O. Selznick a um produtor independente (que depois distribuiria o filme através da Universal Pictures), o cineasta teve que dirigir uma produção com uma atriz imposta contra a sua vontade (a insossa Priscilla Lane), um protagonista carismático mas longe de ser um astro com quem a plateia poderia realmente se importar (Robert Cummings no lugar de Henry Fonda e Gary Cooper, as primeiras escolhas do diretor) e uma história que lembrava seus anteriores "Os 39 degraus" (1935) e "Correspondente estrangeiro" (1940). Sem elementos que pudessem fazer dele mais uma obra-prima do mestre do suspense, "Sabotador" acabou ficando no meio-termo: tem muitas das qualidades que fazem de Hitchcock um mestre do gênero, mas está aquém de seus melhores trabalhos, em especial por algumas falhas pontuais que enfraquecem o resultado final.

Apesar de ter a escritora Dorothy Parker entre seus roteiristas, "Sabotador" pouco uso faz da ironia e das sutilezas que marcariam as carreiras tanto dela quanto do cineasta. Com uma narrativa convencional e uma estrutura que seria trabalhada com mais sofisticação dezessete anos depois, no bem mais popular "Intriga internacional", o quinto filme de Hitchcock em Hollywood tem um sério problema de ritmo - o que impede a total imersão da plateia nas desventuras do protagonista - e uma química ineficaz entre seus dois atores centrais, algo que nem mesmo o grande talento do diretor é capaz de disfarçar. Apesar de talentoso, Robert Cummings - que voltaria a trabalhar com Hitchcock em "Disque M para matar", de 1954 - não tinha, como o próprio mestre do suspense assumiu em suas conversas com François Truffaut, o peso necessário para dar a dimensão do drama de seu personagem, graças a um carisma mais adequado a produções leves e descompromissadas. Sabiamente acreditando que o protagonista merecia um ator de tintas mais trágicas (e também mais conhecido do público), Hitchcock percebeu ainda nas filmagens que seu filme não se tornaria um de seus melhores trabalhos - e ainda assim brinda o público com alguns momentos de pura magia cinematográfica.


Desde o início do filme, fica claro que a jornada será mais importante do que o destino, quando o senso visual de Hitchcock se sobrepõe à trama, simples e sem maiores novidades: depois de testemunhar um colega de trabalho ser vítima de um atentado e morrer queimado, o jovem Barry Keane (interpretado com garra por Robert Cummings) passa a ser considerado o principal suspeito do crime. Na sua tentativa desesperada de provar-se inocente, ele sai em fuga pelas estradas do país, contando com a ajuda (a princípio hesitante) de Patricia Martin (Priscilla Lane), por quem acaba se apaixonando. No caminho para descobrir o culpado pela tragédia que vitimou seu melhor amigo, Barry parte em busca de um misterioso Frank Fry (Norman Lloyd), com quem cruzou rapidamente antes do crime e que, segundo suas pistas, está em Nova York. Não demora para que, além da polícia, o rapaz passe a ter atrás de si também um grupo de sabotadores que, responsáveis pelo atentado, não desejam ter seus planos descobertos e frustrados - e assim, Barry se vê diante de gente poderosa e sem medo de matar para atingir seus objetivos.

Hitchcock, confirmando-se um diretor acima da média mesmo antes de tornar-se unanimidade, cria sequências mirabolantes mesmo diante de um roteiro quase pálido. O encontro de Keane com um homem cego - que ele acredita não saber de sua condição de foragido - e as cenas em que a dupla de protagonistas se vê em um vagão de trem ocupado por artistas de circo - mulher barbada, gêmeas siamesas, etc - são provas da criatividade quase sádica do cineasta, que insiste em jogar seu herói em situações aparentemente simples mas repletas de um perigo quase invisível. Uma festa cheia de convidados milionários pode não parecer uma armadilha das mais apavorantes, mas Hitchcock transforma uma delas em um assustador pesadelo. Uma visita à Estátua da Liberdade, em suas mãos, torna-se uma cena de suspense crescente - ainda que sem a mesma potência da sequência no Monte Rushmore, de "Intriga internacional". E até mesmo o encontro entre Barry e Patricia deixa no ar a dúvida se a moça é realmente de confiança - uma questão que felizmente é resolvida em pouco tempo e não deixa a história inchada demais de informações em seu desenvolvimento. No final das contas, "Sabotador" é um Hitchcock menor, mas ainda assim interessante o bastante para cativar o público e oferecer-lhe alguns momentos de extremo deleite e entretenimento de qualidade. Não há erro com o velho e bom mestre do suspense!