sexta-feira, 17 de março de 2017

99 CASAS

99 CASAS (99 homes, 2014, Broad Green Pictures/Hyde Park Entertainment, 112min) Direção: Ramin Bahrani. Roteiro: Ramir Bahrani, Amir Naderi, estória de Ramir Bahrani, Bahareh Azimi. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Ramin Bahrani. Música: Antony Partos, Matteo Zingales. Figurino: Meghan Kasperlik. Direção de arte/cenários: Alex DiGerlando/Monique Champagne. Produção executiva: Mohammed Al Turki, Ron Curtis, Manu Gargi, Arcadiy Golubovich. Produção: Ashok Amritraj, Ramin Bahrani, Justin Nappi, Kevin Turen. Elenco: Andrew Garfield, Michael Shannon, Laura Dern, Clancy Brown. Estreia: 29/8/14 (Festival de Veneza)

Em 2003, o cineasta ucraniano Vadim Perelman conquistou a crítica - e indicações ao Oscar de melhor ator, atriz coadjuvante e trilha sonora original - com sua adaptação do romance "Casa de areia e névoa", escrito por Andre Dubus III, que fazia uma crítica contundente às leis dos EUA relacionadas ao mercado imobiliário (e de quebra retratava a árdua luta dos imigrantes por uma vida digna). Mais de uma década depois, outro cineasta de origem estrangeira - Ramin Bahrani, nascido na Carolina do Norte mas filho de imigrantes iranianos - põe o dedo na ferida da especulação e da corrupção que corrói as entranhas do sonho americano. Inspirado em uma história real mas sem prender-se a nenhum tipo de compromisso de fidelidade com os desdobramentos da ação, Bahrani criou um drama angustiante e dolorosamente realista, que, amparado por uma atuação inspiradíssima de Andrew Garfield, emociona e incomoda sem fazer concessões ao dramalhão fácil. "99 casas" é, facilmente, um dos pequenos grandes filmes da temporada 2014 - e, como é comum, praticamente ignorada pelas cerimônias de premiação: Michael Shannon chegou a ser eleito o melhor coadjuvante do ano pela Associação de Críticos de Los Angeles e indicado ao Golden Globe e ao Spirit Award, mas a produção passou praticamente em brancas nuvens pelo cinema.

É compreensível: não deve ser nada fácil ser americano e assistir ao que acontece em "99 casas" - aliás, basta ter um mínimo de sensibilidade para ser atingido pelo drama do protagonista, Dennis Nash (Andrew Garfield), um jovem trabalhador na construção civil que, em dificuldades de encontrar um trabalho que lhe pague o bastante para pagar a hipoteca da casa onde mora com a mãe, Lynn (Laura Dern), e o filho pequeno, Connor (Noah Lomax). Com uma dívida maior do que suas posses, ele acaba por ser despejado - em uma sequência angustiante e tensa. Sem encontrar luz no fim do túnel, Dennis acaba sendo seduzido pela possibilidade de recuperar sua propriedade quando aceita trabalhar com Rick Carver (Michael Shannon), o corretor que cuidou de sua situação - e que se utiliza de métodos pouco ortodoxos e bastante ilegais de fazer dinheiro através de transações quase criminosas. Deslumbrado com a chance não apenas de ter de volta o seu lar, mas também de oferecer uma vida mais confortável para a família, Dennis começa a participar das ações de despejo comandadas por Carver - e questionar seus próprios limites morais e éticos ao reviver, em cada situação, o sentimento de desespero e fracasso dos moradores.


Com uma narrativa ágil e surpreendente, que não permite ao espectador que antecipe cada movimento do roteiro, Bahrani se mostra um cineasta de extrema competência em cativar seu público sem subestimar sua inteligência ou sensibilidade. Aproximando sua câmera do rosto angustiado de Dennis - em atuação sublime de Andrew Garfield - e obrigando o espectador a compartilhar com ele de toda a vastidão de sentimentos que lhe tortura, o diretor faz uso eficaz de suas ferramentas visuais ao mesmo tempo em que, através de sequências dramáticas que evitam a pieguice, discute temas como ética e moral em um momento crucial da história americana. Ao fazer de seu protagonista um personagem de dimensões humanas - e portanto passível de monumentais erros e capaz de gestos de grandeza - o roteiro também traça um interessante contraponto entre ele e seu patrão/inimigo/aliado Rick Carver, em mais um trabalho excelente de Michael Shannon: fugindo do maniqueísmo óbvio, Carver não é apenas um homem ganancioso e cruel, mas uma pessoa com um passado doloroso e que aprendeu, da pior maneira possível, que nem sempre ser bom e generoso é o melhor caminho para o sucesso. Sim, o grande vilão de "99 casas" não é Carver, e sim o capitalismo selvagem e devastador, retratado na figura de bancos e instituições financeiras que, como não é surpresa para ninguém, tem no lucro seu maior objetivo, ignorando sem piedade tudo que possa atrapalhar suas metas.

Mas, apesar de sua crítica radical aos métodos pouco humanos dos ferozes capitalistas, "99 casas" não é um tratado sociológico aborrecido e panfletário. Com pleno domínio da narrativa dramática, Ramin Bahrani conta sua história com o máximo de simplicidade e clareza, aproveitando ao máximo o talento de seus intérpretes e o tom emocional de sua trama. Andrew Garfield está sensacional na pele de Dennis Nash, preenchendo sua atuação com nuances e sutilezas que o colocam como um dos mais promissores atores de sua geração - coisa que sua indicação ao Oscar por "Até o último homem" (2016) apenas confirmou. Ao lado de atores experientes como Michael Shannon e Laura Dern, o jovem Garfield consegue sobressair-se sem esforço, explorando cada mínima possibilidade do roteiro e da direção sensível de Bahrani. Seu olhar melancólico, assustado, frustrado e raivoso diz muito mais do que páginas e páginas de diálogo - e o clímax do filme mostra que ele tem muitos mais truques na manga do que sua pouca idade pode fazer supor. Com sua interpretação inteligente, Garfield consegue melhorar ainda mais o belo e corajoso trabalho de Bahrani, um cineasta que parece ainda ter muito a dizer no futuro.

quinta-feira, 16 de março de 2017

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, lies and videotape, 1989, Outlaw Productions, 100min) Direção e roteiro: Steven Soderbergh. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Steven Soderbergh. Música: Cliff Martinez. Direção de arte/cenários: Joanne Schmidt/Victoria Spader. Produção executiva: Morgan Mason, Nancy Tenenbaum, Nick Wechsler. Produção: John Hardy, Robert Newmyer. Elenco: James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher, Laura San Giacomo, Ron Vawter. Estreia: 20/01/89 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Festival de Cannes: Melhor Diretor (Steven Soderbergh), Ator (James Spader)

Quando ganhou a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes 1989, o cineasta Steven Soderbergh tinha apenas 26 anos de idade e, de cara, tornou-se o vencedor mais jovem da categoria na história do prêmio. Mais impressionante ainda: escrito em oito dias, filmado em trinta e com um custo estimado de pouco mais de um milhão de dólares, seu filme "Sexo, mentiras e videotape" ainda saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor ator (James Spader) e revolucionou o modo como os espectadores encaravam os filmes independentes. Não foi um sucesso de bilheteria, mas mostrou que, além dos espetáculos pirotécnicos de que Hollywood é pródiga, existia vida inteligente no cinema norte-americano. Sem efeitos especiais, astros milionários e campanhas de marketing massivas, tornou-se queridinho da crítica e do público, concorreu ao Oscar de roteiro original e impôs um dilema dos grandes a seu criador: tido como gênio já em seu filme de estreia, o que poderia Soderbergh fazer em seguida? A resposta veio dois anos depois com o pretensioso "Kafka" - estrelado por Jeremy Irons - mas demorou quase uma década até que a promessa de seu filme de estreia se cumprisse, com o sucesso de "Irresistível paixão" (98) e o Oscar de melhor direção por "Traffic" (2000), que ele disputou consigo mesmo por "Erin Brockovich: uma mulher de talento".

Mas até que se visse vítima do próprio sucesso repentino, Soderbergh colheu elogios rasgados com seu primeiro filme, que também conquistou prêmios importantes no Festival de Sundance (onde foi lançado, meses antes de Cannes), pelos críticos de Los Angeles e na cerimônia dos Independent Spirit Awards (o Oscar para filmes independentes, de onde saiu com quatro estatuetas, incluindo filme e diretor). Seu êxito em conquistar de forma tão ampla a boa vontade dos críticos e a simpatia dos espectadores dispostos a fugir dos blockbusters não é difícil de entender: inteligente, profundo e dotado de grande compreensão da natureza humana, "Sexo, mentiras e videotape" estreou no momento certo e refletia, como poucos filmes de então, o espírito de sua época, aprisionada pela hipocrisia que vinha à reboque do governo Reagan, recém encerrado. Falando abertamente sobre sexo em diálogos francos e diretos e com personagens tão falíveis quanto ambíguos, seu roteiro nadava contra a corrente do cinema americano dos anos 80, centrado basicamente no visual e na edição histérica: com movimentos de câmera suaves e eficientes, Soderbergh consegue extrair o máximo tanto da palavra quanto da imagem, fugindo da verborragia excessiva e evitando com maestria a tentação de fazer malabarismos estéticos. Usando a câmera como parte integrante da narrativa - dentro da história e fora dela, como instrumento para enfatizar a sensação de sufocamento - o filme mergulha o espectador em um jogo perigoso, onde traições, meias-verdades e luxúria estão em vias de implodir relacionamentos pouco saudáveis.





Um desses relacionamentos é o do casal Ann e John Mullany. Ela - interpretada por Andie MacDowell, que ficou com o papel oferecido a Elizabeth McGovern e Brooke Shields e levou pra casa o prêmio de melhor atriz pelos críticos de Los Angeles - é uma dona de casa introvertida, calada e aparentemente frígida, que se utiliza de terapia para tentar lidar com um casamento frio e sem amor. Ele (vivido por Peter Gallagher) é um advogado ambicioso e egoísta, que não apenas trata a esposa com quase desdém como também tem um caso com a própria irmã dela, Cynthia (Laura San Giacomo), uma garçonete expansiva e sensual, que não hesita em usar o corpo e o charme para conquistar o que quer. O triângulo amoroso secreto torna-se explosivo com a chegada de Graham (James Spader), antigo colega de John, um homem quieto e misterioso que não demora em atrair a atenção de Ann - que vê nele alguém em quem pode confiar seus segredos - e de Cynthia - que chega até ele depois de descobrir sua maior particularidade: impotente, o rapaz se satisfaz sexualmente assistindo às fitas de vídeo que gravou com mulheres contando suas intimidades para a câmera. O que deveria ser apenas uma espécie de hobby para Graham acaba se tornando o pivô de uma revolução na vida de todos, especialmente na de Ann, que se percebe no centro de um furacão pessoal que a levará a repensar toda sua vida sentimental.

Arrancando interpretações fascinantes do seu quarteto de atores - todos em total imersão em seus papéis - e manipulando com inteligência os desvios da trama, Steven Soderbergh aposta no minimalismo como forma de enfatizar o que realmente importa em seu roteiro: os personagens. Do lar quase asséptico de Ann à frugalidade da casa de Graham - quase desprovida de móveis - e passando pelo apartamento modernoso de Cynthia, tudo é milimetricamente planejado para transmitir, sem esforço, as características fundamentais de cada um, o que cada um carrega em sua personalidade para empurrar a trama adiante. Sem pressa de contar sua história, Soderbergh filma longos e esclarecedores diálogos com uma câmera discreta, que só se faz notar em momentos cruciais - especificamente quando os personagens são acuados pelas verdades incômodas que subitamente se tornam explícitas. Sem precisar apelar para discursos moralistas ou cenas catárticas, o roteiro do diretor (que perdeu o Oscar para o belo "Sociedade dos poetas mortos") é admirável também por falar muito até mesmo em silêncio: ao optar em não subestimar a inteligência do público, "Sexo, mentiras e videotape" mostra que é possível dialogar com o espectador sem tratá-lo como criança. É um filme adulto, elegante e que resiste ao tempo justamente por fugir do óbvio ao tratar de assuntos quase sempre tratados com superficialidade e/ou deboche pelo cinemão americano. Uma bela estreia de um cineasta de carreira irregular mas ocasionalmente fascinante.

quarta-feira, 15 de março de 2017

SELENA

SELENA (Selena, 1997, Warner Bros, 127min) Direção e roteiro: Gregory Nava. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Nancy Richardson. Música: Dave Grusin. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Cary White/Jeanette Scott. Produção executiva: Abraham Quintanilla Jr.. Produção: Moctesuma Esparza, Robert Katz. Elenco: Jennifer Lopez, Edward James Olmos, Jon Seda, Constance Marie, Jackie Guerra, Alex Meneses, Rebecca Lee Meza, Lupe Ontiveros. Estreia: 21/3/97

Mesmo acostumado com tragédias e mortes precoces e repentinas, o mundo da música sofreu um grande abalo em 31 de março de 1995, com o brutal assassinato da cantora Selena, ídolo da comunidade hispânica norte-americana e em vias de iniciar uma promissora carreira internacional com o lançamento de seu primeiro álbum em inglês. Comparada a nomes de peso como Gloria Estefan (por sua influência junto ao público latino), Whitney Houston e Mariah Carey, a jovem de apenas 23 anos de idade foi morta com um tiro disparado pela presidente de seu fã-clube e gerente de uma loja de roupas da sua grife, que, desmascarada por desvio de dinheiro, resolveu a situação de forma a deixar órfãos milhares de fãs inconsoláveis - o que lhe rendeu a condenação à prisão perpétua. Se o nome de Selena não diz muito a quem não fazia parte de sua legião de admiradores (dois meses antes de sua morte ela havia levado mais de 60 mil pessoas a seu show em um estádio em Houston, Texas), é somente porque a interrupção inesperada de sua vida não permitiu. Vencedora do Grammy, garota-propaganda da Coca-cola e dona de uma marca de roupas de sucesso junto a seu público-alvo, Selena ainda assim não era uma unanimidade - a comoção por sua morte junto ao público hispânico foi minimizada por grande parte da população branca americana - mas seu carisma e talento (somados à indignação atônita que seguiu-se à tragédia) foram suficientes para que a notícia de sua morte tomasse conta dos EUA e de parte do mundo. Não foi surpresa para ninguém, portanto, que, quase no aniversário de dois anos do crime, estreasse "Selena", um filme realizado para a televisão que celebrava a vida e a carreira da artista - mas que, por privilegiar apenas esses aspectos de sua trajetória, perde a oportunidade de esclarecer aos neófitos as circunstâncias absurdamente mundanas de sua morte, talvez o único fator que o diferencia de várias outras produções semelhantes.

Dirigido por Gregory Nava - um cineasta já preocupado com questões dos povos latinos, como deixa claro seu filme "Minha família" (95) - e estrelado por uma então quase desconhecida Jennifer Lopez, "Selena" é uma cinebiografia convencional, com todas as limitações de um filme para a televisão. Como não poderia deixar de ser, já que seu produtor executivo é Abraham Quintanilla Jr. - pai da cantora - é uma obra que respeita tanto a obra como a imagem da cantora, procurando ater-se à sua meteórica carreira e suas relações familiares e sem exatamente aprofundar-se dramaticamente em nenhum desses aspectos. Bem-sucedido em recriar momentos importantes da jornada da cantora - como seu show em Houston - o filme de Nava não consegue evitar de tropeçar em alguns clichês do gênero, mas o faz com tal carinho e admiração que é difícil não se deixar envolver, apesar da duração excessiva e da falta total de novidades na história. Das origens familiares até o estrelato e seu desfecho violento - com direito até mesmo a uma história de amor proibido - a vida de Selena é contada sem sobressaltos, mas também sem grandes momentos de destaque. Jennifer Lopez se esforça no papel (foi inclusive indicada ao Golden Globe), mas tem pouco a fazer exceto mimetizar com competência as performances da cantora nos palcos (e sincronizar os números musicais, todos apresentados no filme com a voz da própria Selena). Sua atuação é bastante convincente, mas esbarra em um roteiro superficial - talvez culpa da história em si, mas ainda assim pouco empolgante.


Como em toda biografia musical que se preze, a historia de Selena Quintanilla-Perez começa com uma frustração paterna: parte integrante de um trio de cantores latinos que nunca alcançou o sucesso, Abraham Quintanilla Jr. (Edward James Olmos) encontrou nos filhos a possibilidade de fazer parte da história da música. Ainda criança, cantando no grupo formado por seus irmãos e que se apresentava no restaurante de comida típica de propriedade de seu pai, Selena (interpretada por Rebecca Lee Meza na infância) já começa a chamar a atenção pela afinação e pelo carisma. Com o fechamento do restaurante e palcos maiores em parques de diversão e bares, aos poucos ela vai se transformando em uma espécie de porta-voz da comunidade hispânica, misturando influências musicais que iam dos clássicos apresentados por seu pai até o pop de gente como Madonna e Paula Abdul. Sua evolução na carreira chega ao ponto máximo quando ela passa a ser agenciada pelo experiente Jose Behar (John Verea), que lhe oferece um contrato com a EMI e começa a planejar uma expansão internacional. Nessa época, ela conhece e se apaixona por um dos músicos de sua banda, Chris Perez (Jon Seda) - e esbarra na rejeição de seu pai ao relacionamento. Quando as coisas finalmente se acalmam e tudo parece apontar para um futuro alvissareiro, a tragédia acontece.

E é justamente quando o filme chega a um ponto onde realmente pode sobressair-se em relação a outras cinebiografias que "Selena" mostra sua fragilidade. Ao optar por não dar a devida importância ao fim de sua vida - talvez para não tocar em uma ferida ainda recente e dolorida para os fãs e familiares - Gregory Nava simplesmente termina seu filme de forma apressada e anticlimática. A relação entre a cantora e Yolanda Saldivar (Lupe Ontiveros), de vital importância para explicar os acontecimentos que levaram à tragédia final, é quase ignorada, mostrada em poucas cenas que se perdem em meio a sequências desnecessárias e repetitivas da vida profissional e amorosa de Selena. O que é crucial na história - a quebra de confiança entre as duas, as brigas e por fim o assassinato - fica apenas na imaginação do espectador, que, se não souber de detalhes do acontecido, fica completamente perdido nos minutos finais. Aliás, é de se perguntar o motivo de Nava ter escolhido a atriz Lupe Ontiveros - 54 anos à época das filmagens - para interpretar uma personagem de 34: assim como o clímax que não existe, depõe bastante contra o resultado final. Ainda assim, é um filme correto e carinhoso, valorizado pela interpretação vibrante de Jennifer Lopez - e que agrada em cheio aos fãs da cantora sem aborrecer (demais) àqueles que não a conheceram.

terça-feira, 14 de março de 2017

O DESTINO BATE À SUA PORTA

O DESTINO BATE À SUA PORTA (The postman always rings twice, 1981, MGM, 122min) Direção: Bob Rafelson. Roteiro: David Mamet, romance de James M. Cain. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Graeme Clifford. Música: Michael Small. Figurino: Dorothy Jeakins. Direção de arte/cenários: George Jenkins/Robert Gould. Produção executiva: Andrew Braunsberg. Produção: Charles Mulvehill, Bob Rafelson. Elenco: Jack Nicholson, Jessica Lange, John Colicos, Michael Lerner, Christopher Lloyd, Anjelica Huston. Estreia: 20/3/81

Publicado em 1934 pelo norte-americano James M. Cain, o romance "The postman always rings twice" sempre foi bastante atraente para o cinema. Já em 1939, o francês "Paixão criminosa", de Pierre Chenal traduzia para a tela a história de luxúria, ambição e paranoia criada por Cain. Quatro anos mais tarde, foi a vez da Itália apresentar a sua versão da trama, em "Obsessão", dirigido por Luchino Visconti - uma produção que só chegou aos cinemas dos EUA em 1976 (segundo consta, por imposição dos editores do autor). Mas foi somente em 1946 que Hollywood rendeu-se à tentação de adaptar a obra, com direção de Tay Garnett e Lana Turner no papel central feminino - uma demora explicada pela dificuldade de transformar uma obra com alto teor sexual em algo palatável ao gosto dos famigerados responsáveis pelo Código Hayes, que mandava nas produções da época e implicava até mesmo com beijos que durassem mais do que alguns segundos. Foi preciso mais trinta e cinco anos, porém, para que um cineasta americano chegasse perto da amoralidade e da sensualidade retratadas pelo escritor. Mais afeito a rebeldias temáticas do que ao cinemão promovido por Hollywood - vide títulos como "Os Monkees estão à solta" e "Cada um vive como quer", retratos nítidos da contracultura dos anos 60 - o cineasta Bob Rafelson é quem teve a coragem de tirar o pó de um livro com quase meio século de idade, distanciar-se do tom noir imposto pelo filme de 1946 e enfatizar o lado mundano de seus personagens. Com um roteiro seco e incisivo do dramaturgo David Mamet (estreando no cinema), "O destino bate à sua porta" versão 1981 pegou de surpresa o puritano público norte-americano e provou, entre uma cena mais quente e outra, que a bela Jessica Lange , ainda desacreditada pela crítica, era uma atriz de grande potencial dramático - o que ficou provado no ano seguinte, quando ela arrebatou indicações ao Oscar de atriz e atriz coadjuvante por dois filmes totalmente opostos (e ganhou a estatueta da segunda categoria pela comédia "Tootsie").

Enfatizando a sexualidade quase animal dos protagonistas e tornando-os mais humanos (e portanto mais suscetíveis a falhas de caráter e incoerências), o roteiro de Mamet transformou o romance de Cain em um pesadelo claustrofóbico e sufocante, tanto pelo visual árido oferecido pela fotografia do sueco Sven Nykvist - colaborador habitual de Ingmar Bergman - quanto pela atmosfera de tensão criada por Rafelson. Substituindo o visual elaborado de luz e sombra dos filmes americanos da década de 40 por um tom naturalista que sublinha a sordidez das situações da história, Nykvist aproxima seus personagens da plateia, impelindo-a a mergulhar em seu emaranhado de circunstâncias cruéis e trágicas sem a proteção de qualquer tipo de glamour. Quando Jack Nicholson e Jessica Lange cedem ao desejo e fazem da mesa da cozinha como palco de seu amor - em meio à farinha e outros ingredientes - o público sabe que está testemunhando o início de um romance que não tem como dar certo, mas compreende completamente suas ações. No auge da beleza, Lange é impossível de se resistir - e Nicholson, em sua quarta parceria com Bob Rafelson, surge em sua vida como alternativa a um mundo sem perspectivas. É um caminho de paixão desmedida e avassaladora conduzido com um senso absoluto de urgência e melancolia - e, paradoxalmente, de uma elegância ímpar mesmo em seu desolador cenário.


A história se passa durante a Grande Depressão americana ocorrida logo após a queda da bolsa de Nova York em 1929. À beira de uma estrada da Califórnia, o grego Nick Papadakis (John Colicos em papel que foi oferecido ao cineasta Elia Kazan) vive com a esposa bem mais jovem, Cora (Jessica Lange) e dirige um restaurante e um posto de gasolina. É lá que vai parar Frank Chambers (Jack Nicholson), um andarilho sem passado - e logicamente sem futuro - que não demora em conquistar a confiança do proprietário do local e convencê-lo a lhe dar um emprego. Surge então, entre ele e Cora, uma tensão sexual que é rapidamente transformada em um caso tórrido e irresponsável. Apaixonados, os dois resolvem fugir juntos, mas quando percebem que lhes será impossível manter o relacionamento sem uma boa base financeira, decidem matar Nick e fazer parecer um acidente. Como não são exatamente gênios do crime, porém, as coisas começam a sair muito erradas - o que coloca a polícia em seu encalço e o remorso em sua rotina como amantes. Em pouco tempo, sua história de amor vira uma história de angústia e desespero.

Acostumado a filmar histórias com anti-heróis e personagens que não se encaixam em uma sociedade convencional, Bob Rafelson faz dos protagonistas de "O destino bate à sua porta" pessoas de carne e osso, uma visão mais perto da obra de Visconti do que da adaptação estrelada por Lana Turner - de certa forma presa à estética noir. Ao dotá-los de características mais humanas, o cineasta (e o roteirista David Mamet) acaba por oferecer a seus atores centrais um material rico e complexo. Em seu ponto de vista, Frank Chambers e Cora Papadakis não são simplesmente dois amantes sórdidos e ambiciosos - como sugere o romance original e suas adaptações anteriores: são pessoas lutando desesperadamente por uma vida menos triste e sem sentido. É lógico que o fazem da maneira errada, mas sua incapacidade até mesmo de lidar com suas escolhas os aproxima do público com grande sucesso, mesmo que seja para serem rejeitados por ele. Nesse ponto é Jessica Lange quem se sai melhor, dotando sua Cora de subtextos e nuances que expandem a compreensão de sua personagem até o limite da compaixão. Jack Nicholson se mantém como o sedutor mau-caráter que sempre lhe cai bem, mas é Lange quem brilha, justificando a escolha de Rafelson e pavimentando um caminho que lhe traria ainda muitas glórias. Tenso e cortante, "O destino bate à sua porta" é uma das adaptações mais certeiras da obra de Cain, ainda que, por incrível que pareça, tente se distanciar das versões cinematográficas anteriores.

segunda-feira, 13 de março de 2017

PARCEIROS DA NOITE

PARCEIROS DA NOITE (Cruising, 1980, United Artists, 102min) Direção: William Friedkin. Roteiro: William Friedkin, romance de Gerald Walker. Fotografia: James Contner. Montagem: Bud Smith. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Robert deMora. Direção de arte/cenários: Bruce Weintraub/Robert Drumheller. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: Al Pacino, Paul Sorvino, Karen Allen, Richard Cox, Don Scardino, Jay Acovone, Joe Spinell, James Remar. Estreia: 08/02/80

Parece coisa de ficção, mas consta que é a mais pura verdade: em 1972, quando estava filmando "O exorcista" - que se tornaria um dos filmes de terror mais bem-sucedidos da história do cinema - o cineasta William Friedkin utilizou-se de um radiologista de verdade para uma cena em que a jovem protagonista, vivida por Linda Blair, passava por uma bateria de exames para diagnosticar seu problema (que, como todo mundo que assistiu ao filme sabe, era o demônio em pessoa). O assistente do tal radiologista, um rapaz chamado Paul Bateson, acabou preso, alguns anos depois, acusado de ter assassinado o amante, o crítico de cinema Addison Verrill. Em 1979, durante a fase de pesquisa para seu filme "Parceiros da noite" - baseado em um romance de Gerald Walker, por sua vez baseado no caso real de um serial killer que, no período 1962-1979, depois de fazer suas vítimas, frequentadores do submundo gay nova-iorquino, desovava partes de seus corpos em sacolas plásticas no Rio Hudson - o diretor resolveu conversar com Bateson, na tentativa de entender um pouco mais sobre a mentalidade de um criminoso como ele. O que Friedkin não poderia sequer imaginar é que Bateson - mais tarde condenado à prisão perpétua - sempre deu a entender, em seu período na prisão, de que ele era também o real assassino que deu origem ao livro de Walker. Por uma incrível coincidência, o vencedor do Oscar de melhor direção por "Operação França" (71) trabalhou, ainda que por um breve período de tempo, com o homem que seria a base para o mais polêmico e complicado trabalho de sua carreira.

Logo que o projeto de "Parceiros da noite" surgiu no horizonte chamou para si a fúria de todos os setores da sociedade norte-americana. Dos republicanos mais ferrenhos aos militantes mais ferozes do movimento LGBT, todo mundo parecia disposto a apedrejar o filme antes mesmo de sua estreia. A comunidade gay organizava piquetes para atrapalhar as filmagens, clamando contra o que considerava um retrato preconceituoso e tendencioso. Os grandes estúdios de Hollywood, por sua vez, recusavam financiar uma produção que obviamente causaria mais controvérsia do que bilheteria - filmes de temática gay invariavelmente fracassavam comercialmente em um país à beira de uma onda de conservadorismo que encontraria no vírus da AIDS (noticiado pela primeira vez um ano após sua estreia) um pretexto mais do que perfeito para sua ideologia. Entre idas e vindas, a ideia de traduzir para as telas o romance de Walker passou pelas mãos de diversos diretores - Brian De Palma (que apesar de interessado não conseguiu os direitos de produção e foi fazer "Vestida para matar"), o alternativo Paul Morrissey (que queria Jeff Bridges no papel principal) e até (pasmem!!) Steven Spielberg, já consagrado por "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau", mas antes de "Caçadores da Arca Perdida" e "E.T.: o extra-terrestre", que só pulou fora por causa da alta de apoio dos estúdios - e, mesmo com Friedkin no comando, demorou a encontrar um protagonista de peso. O cineasta queria o então novato Richard Gere e chegou a convidar Robert De Niro e Roy Scheider para o elenco, mas foi Al Pacino, então em alta graças a sucessivas indicações ao Oscar, quem ficou com um dos papéis mais polêmicos de sua trajetória artística - e que precipitou uma pausa estratégica pouco tempo depois.


Fracasso de bilheteria e de crítica - chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro - e atacado sem piedade por todos os lados, "Parceiros do crime" é um filme que merece uma revisão. Se recusando a tornar mais palatável o universo sombrio e por vezes chocante de uma parte do submundo gay - no caso, os clubes sadomasoquistas - o roteiro de Friedkin mergulha o espectador em sequências sufocantes, quase claustrofóbicas, filmadas com uma aspereza quase documental (não à toa, seu diretor de fotografia, James Contner, pensou em apelar para o preto-e-branco). Pouco afeito a melindres desnecessários, Friedkin não poupa a plateia de cenas que retratam, com o máximo de realismo permitido a uma produção que se pretendia comercial, a rotina de frequentadores de bares homossexuais da Nova York do final da década de 70. Funcionando quase como um voyeur, o público penetra em salas escuras, onde o perigo pode estar em qualquer canto - algo assim como Richard Brooks fez com os bares de solteiros em "À procura de Mr. Goodbar" (77), em que Diane Keaton desafiava o perigo em encontros casuais com estranhos. Para isso, ele se utiliza do ponto de vista de seu protagonista, o policial Steve Burns, que se vê diante de um mundo novo (e ao mesmo tempo fascinante e grotesco) quando é escalado para caçar um serial killer que vem fazendo suas vítimas entre os frequentadores desses locais.

Escolhido para a missão por ter o tipo físico das vítimas, Burns aceita servir de isca para que a polícia de Nova York encontre o criminoso, e, para isso, passa a frequentar assiduamente bares e clubes noturnos voltados à prática específica de sadomasoquismo. Escondendo a missão até mesmo da namorada, Nancy (Karen Allen), ele se envolve gradualmente com a situação, testemunhando a forma como a própria polícia trata a comunidade homossexual e participando, sem querer, da vida de um novo vizinho, que sofre com os ciúmes do namorado violento. Abalado com o andamento das investigações, Burns inicia um lento processo de desconstrução de si mesmo - que acarreta até mesmo dúvidas a respeito de sua própria sexualidade. E é nesse tom dúbio de um protagonista complexo e multifacetado que William Friedkin mostra sua coragem: às vésperas de entrar em um período de extremo puritanismo, o público dos EUA realmente não tinha como abraçar um filme como "Parceiros do crime". Não apenas por sua violência, por mostrar uma sexualidade alternativa que repudiava o estereótipo ou por colocar um ator popular como Al Pacino no centro da narrativa, mas sim por ousar eleger como protagonista um policial que que destoa radicalmente do herói com que a plateia já estava acostumada no gênero. Embaralhando suas cartas com pistas falsas, mesnagens subliminares e um final em aberto que deixa qualquer um pensando por muito tempo após a sessão, Friedkin mostra que um filme policial não precisa necessariamente abrir mãos dos clichês para provocar e instigar. A estrutura do seu roteiro é simples - apresentação, desenvolvimento, desfecho - e não há maiores ousadias visuais. O que o eleva a um patamar acima de seus congêneres é a inteligência de buscar algo mais do que simplesmente apresentar um jogo de gato e rato: "Parceiros do crime" é desconfortável, tenso e, levando-se em consideração que já tem quase quatro décadas, um filme à frente de seu tempo. Pode parecer datado em alguns momentos, mas ainda é forte o bastante para resistir à passagem dos anos.

quinta-feira, 9 de março de 2017

PERSONAL SHOPPER

PERSONAL SHOPPER (Personal shopper, 2016, CG Cinéma/Vortex Sutra/Sirena Film, 105min) Direção e roteiro: Olivier Assayas. Fotografia: Yoric Le Saux. Montagem: Marion Monnier. Figurino: Jurgen Doering. Direção de arte/cenários: François-Renaud Labarthe/Martin Kurel. Produção executiva: Genevieve Lemal. Produção: Charles Gillibert. Elenco: Kristen Stewart, Lars Eidinger, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Ty Olwin, Nora von Waldstatten. Estreia: 17/5/16 (Festival de Cannes)

Vencedor da Palma de Melhor Direção no Festival de Cannes

Idolatrada por milhares de adolescentes graças à sua participação na série de filmes "Crepúsculo" e massacrada por detratores exatamente pelo mesmo motivo, a atriz Kristen Stewart foi encontrar apoio artístico, por incrível que pareça, nos braços de cineastas cultuados, em projetos que a distanciassem o máximo possível de sua atuação como a boba adolescente dividida entre o amor de um vampiro que brilhava no sol e um lobisomem que não hesitava em mostrar os músculos para delírio da plateia feminina. Foi assim que ela atuou sob a batuta de Woody Allen em "Café Society" (2016) e do francês Olivier Assayas em "Acima das nuvens" (2014) - filme que, surpreendentemente, lhe tornou a primeira atriz norte-americana a ganhar um César (na categoria coadjuvante). A experiência com Assayas - diretor respeitado em seu país de origem e que ganhou as plateias internacionais quando passou a ser figurinha carimbada no Festival de Cannes desde 2000, com o filme "Les destinées sentimentales" - rendeu mais do que elogios e um prêmio importante para Stewart: foi sua parceria artística que fez com que o cineasta e roteirista criasse o argumento de seu filme seguinte, o perturbador "Personal shopper" - que novamente deu à jovem atriz a chance de mostrar que pode ir além das caras e bocas que marcaram sua personagem mais famosa.

Não que os trejeitos de Stewart tenham sumido completamente: em "Personal shopper" eles continuam claramente perceptíveis, mas de algum modo servem como elementos indispensáveis à sua atuação. De forma inteligente, Assayas explora o desconforto da personagem central através justamente de sua expressão corporal tensa, que transmite com exatidão o tom de estranheza que o filme em si causa no espectador, ao misturar gêneros, deixar perguntas sem respostas e conduzir a ação por caminhos tão díspares que é impossível não se deixar envolver completamente. Com uma atmosfera densa que remete aos melhores trabalhos de David Lynch e uma sofisticação narrativa muito além de seu linear (e superestimado) "Depois de maio", o cineasta convida a plateia a mergulhar em um universo onde ectoplasmas convivem com o luxo das lojas mais caras do planeta, a futilidade do mundo das celebridades divide espaço com dramas existenciais profundos e a calmaria precede uma tempestade inesperada de violência. Não é um filme de fácil classificação, mas é, com certeza, um trabalho fascinante, que marca pela ousadia de não seguir caminhos já trilhados e impor um estilo próprio - ainda que incorra no risco de afastar um público pouco afeito ao que aciona os mecanismos do cérebro.


A protagonista do filme é a tal personal shopper do título, Maureen, uma jovem de 27 anos de idade que trabalha comprando roupas e acessórios caríssimos para sua ocupada patroa, a celebrada modelo Kyra (Nora von Waldstatten), enquanto esta viaja pelo mundo exibindo um senso fashion impecável e luxuoso. Seu emprego, que a mantém vivendo em Paris e saindo do país sempre que necessário para manter atualizado o guarda-roupa de Kyra, não é, no entanto, o foco maior de sua vida. Ainda traumatizada com a recente morte de seu irmão gêmeo, Lewis - que morreu de uma doença congênita no coração da qual ela também sofre - Maureen se recusa a abandonar Paris enquanto não conseguir manter contato com ele. Médium, ela aguarda ansiosamente que ele lhe envie sinais de uma vida após a morte (conforme haviam combinado) e adia o reencontro com o namorado que mora do outro lado do planeta. Frequentando a casa em que o irmão vivia com a namorada na tentativa de contatá-lo, ela mal consegue ter uma vida para si mesma, o que acaba por chamar a atenção de um misterioso stalker, que passa a mandar-lhe mensagens enigmáticas via celular. Duvidando da própria sanidade mental, Maureen se vê diante de uma tragédia inesperada - que finalmente irá empurrá-la em direção à paz de espírito (ou não).

Na verdade, tudo que acontece em "Personal shopper" pode (e deve!) ser visto com olhos desconfiados. De forma brilhante, o roteiro e a direção de Assayas jogam constantemente com a dubiedade, confundindo com maestria o real e o imaginário, o mundano e o espiritual, o drama fútil e o suspense incômodo. O primeiro encontro de Maureen com o espírito que pode ou não ser de seu irmão mescla, com categoria invejável, a sutileza de filmes de fantasma com o horror explícito das produções mais populares de Hollywood - mas acontece sem a pretensão de assustar gratuitamente, o que lhe deixa ainda mais instigante e surpreendente. A tensão constante obtida pelo diretor consegue até mesmo disfarçar o ritmo irregular do conjunto final, que desafia o público ainda mais com um final em aberto que definitivamente irá frustrar alguns - e fascinar muitos outros. Elegante e sóbrio, "Personal shopper" não é para qualquer tipo de audiência, mas confirma Olivier Assayas como um cineasta sem medo de experimentar ou fugir do lugar-comum. E só o fato de ter arrancado de Kristen Stewart uma atuação acima da média - com direito inclusive a momentos bastante satisfatórios - já justifica o prêmio de melhor direção arrebatado em Cannes (onde, logicamente, dividiu a crítica e suscitou tantos aplausos entusiásticos quanto vaias ruidosas). Um filme que provoca discussões - o que não pode ser dito de muitos outros, hoje em dia.

quarta-feira, 8 de março de 2017

UM TIRO NA NOITE

UM TIRO NA NOITE (Blow out, 1981, Cinema 77/Geria/Filmway Pictures, 107min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Vicki Sanchez. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Bruce Weintraub. Produção executiva: Fred Caruso. Produção: George Litto. Elenco: John Travolta, Karen Allen, John Lithgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May. Estreia: 07/7/81

Acostumado a uma sucessão de altos e baixos em uma trajetória profissional que tanto lhe deu grandes sucessos de bilheteria, como "Os embalos de sábado à noite" (77), "Grease: nos tempos da brilhantina" (78) - e até o fraquinho mas imensamente popular "Olha quem está falando" (89) - quanto fracassos homéricos, a exemplo do tenebroso "Perfeição" (85), o ator John Travolta experimentou, em 1994, uma ressurreição de espantar até aos mais crédulos e vividos fãs de cinema, quando voltou a tornar-se um nome quente em Hollywood graças ao incensado "Pulp fiction: tempo de violência". O filme deu um bem-vindo novo fôlego a uma carreira praticamente estagnada, respeito da crítica e até mesmo uma indicação ao Oscar. Aplaudido aos quatro ventos, louvado e considerado uma das mais influentes obras da década de 90, o trabalho de Quentin Tarantino revelou a uma nova geração de espectadores um talento dramático que pouca gente conseguia vislumbrar no galã de olhos azuis que não hesitou em deixar a vaidade de lado para interpretar um matador de aluguel viciado em cocaína e muitos quilos acima do peso ideal. Esse talento, revelado em um desempenho icônico, foi descoberto por Tarantino não em seus filmes mais celebrados, onde requebrava o corpo em coreografias que marcaram época, mas sim em uma trama de suspense que naufragou nas bilheterias no início dos anos 80 apesar de suas vastas qualidades artísticas. Dirigido por Brian De Palma logo após o impacto de "Vestida para matar" - em que prestava reverência ao mestre Hitchcock - "Um tiro na noite" confirmou sua capacidade de aproveitar os velhos clichês do gênero em histórias originais, mas não encontrou seu público e teve de contentar-se em esperar que o tempo o tornasse cult - e desse à Travolta a chance de voltar às boas graças da indústria.

Como o título original já denuncia, "Um tiro na noite" é uma homenagem clara e reverente ao clássico "Blow up: depois daquele beijo" (66), de Michelangelo Antonioni. No filme do cineasta italiano, um jovem fotógrafo descobria um assassinato ocorrido em um parque no momento de revelar seus negativos. Na obra assinada por De Palma - que mesmo inspirado por Antonioni não deixa de lado seu fetiche pelos ensinamentos de Hitchcock - o protagonista é Jack Terry (John Travolta), um técnico de som de filmes de terror barato que tem sua vida transformada em uma madrugada, quando, ao gravar ruídos para um de seus próximos trabalhos, acaba sendo testemunha de um acidente de carro que mata um candidato à presidência dos EUA. No processo, salva da morte por afogamento a acompanhante do político, a prostituta Sally Bedina (Nancy Allen, à época casada com o diretor), e entra de gaiato em uma conspiração muito mais perigosa quando, ao escutar os sons gravados, descobre que antes do estouro do pneu que causou a queda do carro no rio, um tiro foi disparado. Ignorado pela polícia e pelas autoridades, Jack se une à Sally para desmascarar os culpados, utilizando-se, para isso, de seus conhecimentos profissionais.





Um apaixonado confesso pela arte cinematográfica e seus artifícios narrativos (que utiliza sem pestanejar em praticamente toda a sua filmografia), Brian De Palma faz, em "Um tiro na noite", uma bela homenagem à sétima arte, muito bem embalada em um gênero que domina como poucos. Desde a primeira sequência, que abraça carinhosamente os filmes B de horror, o cineasta oferece à plateia uma trama intrigante (ainda que previsível em muitos momentos) e recheada de um tesão explícito pela arte de fazer cinema, De Palma usa a trajetória de seu protagonista em busca da verdade como um pretexto para exibir seu vasto conhecimento do ofício. Tudo funciona como um relógio em sua narrativa visual e sonora, começando com a sutil trilha sonora de Pino Donaggio, passando pela edição enxuta e claustrofóbica de Paul Hirsch e chegando ao desenho de som, o ponto crucial do filme e razão de ser de sua existência: foi durante o processo de sonorização de "Vestida para matar" que o diretor teve a ideia de contar uma história que explorasse os bastidores do cinema através de uma técnica pouco conhecida (e também pouco valorizada) pela plateia. Surgiu, então, um enredo que misturava momentos de pura tensão, curiosidades sobre bastidores e uma conspiração que lembrava (e muito) um acidente de carro envolvendo o então senador Edward Kennedy.

Mas nem mesmo essa citação clara e óbvia a um fato político acontecido em seu próprio país - somada ao interessante mergulho no que acontece por trás das câmeras - ajudou a plateia a se deixar seduzir pelo filme. John Travolta - segunda opção para o papel, substituindo Al Pacino - arrancou elogios da crítica, mas deu início a um período escuro da carreira, que teria seguimento com "Os embalos de sábado continuam" (83) e uma série de produções ignoradas nas bilheterias. Não se sabe exatamente o que causou tal descaso popular ao filme de Brian De Palma - uma produção correta, com grandes momentos de suspense e um roteiro inteligente - mas talvez a ideia de um dos produtores (à época desconsiderada rapidamente) pudesse ter ajudado no resultado final, em termos comerciais: sem carisma e pouco conhecida do público, Nancy Allen teve seu papel quase oferecido à Olivia Newton-John, como forma de capitalizar sua química com o galã, já comprovada em "Grease". Mas Travolta já não era mais o protagonista dançante de seus maiores hits e buscava novos desafios artísticos. Demorou mais de dez anos - e o faro de Quentin Tarantino - para ser reconhecido como bom ator, mas basta prestar atenção em sua atuação em "Um tiro na noite" para perceber que seu talento já estava presente. Com mais de trinta anos de idade, o filme merece ser descoberto pelas novas gerações.

segunda-feira, 6 de março de 2017

JUSTIÇA PARA TODOS

JUSTIÇA PARA TODOS (... and justice for all, 1979, Columbia Pictures, 119min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Valerie Curtin, Barry Levinson. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Joe Wizan. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Al Pacino, Jack Warden, John Forsythe, Lee Strasberg, Jeffrey Tambor, Christine Lahti. Estreia: 15/9/79 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Original

Não havia, na Hollywood da década de 70, ator mais quente do que Al Pacino. Indicado quatro anos consecutivos ao Oscar - por "O poderoso chefão" (em que concorreu injustamente como coadjuvante), "Serpico", "O poderoso chefão - parte 2" (dessa vez como protagonista) e "Um dia de cão" - e respeitado como um dos maiores intérpretes de sua geração, ao lado de Robert De Niro, Pacino também tinha como característica buscar desafios cada vez maiores, em papéis que questionassem o status quo e o tradicional american way of life. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele voltou a disputar a estatueta dourada na cerimônia de 1980, por uma atuação que se tornaria, anos mais tarde, uma das mais icônicas de sua carreira. Na pele de um advogado lutando contra a burocracia e o descaso da justiça norte-americana, Pacino entregou mais uma interpretação feroz e intensa, que encantou a crítica e o público mas esbarrou nos eleitores da Academia, que preferiram abraçar o minimalista desempenho de Dustin Hoffman em "Kramer vs Kramer" - papel do qual, por ironia do destino, o próprio Pacino declinou para trabalhar no filme de Jewison.

"Justiça para todos" - um título recheado de uma boa dose de sarcasmo que fica evidente no final amargo do filme - é quase uma crônica a respeito dos meandros da justiça americana, inspirada em visitas do casal de roteiristas a tribunais de júri em Baltimore e Los Angeles. O futuro cineasta Barry Levinson (vencedor do Oscar por "Rain Man") e sua então esposa Valerie Curtin (que também concorreram à estatueta dourada, assim como Pacino) criaram um roteiro que não se prende a uma única situação dramática, desenvolvendo, ao invés disso, uma série de acontecimentos que vão levando seu protagonista à mais completa desilusão com o sistema judicial de seu país. Logo em sua primeira cena, Arthur Kirkland é visto junto a presos comuns, na cela de uma delegacia, depois de passar a noite na cadeia por desacato ao juiz Henry Fleming (John Forsythe) - a personificação do lado mais corrupto e arrogante da lei. É nesse ambiente que Kirkland, que mantém seu idealismo intacto apesar de algumas experiências pouco saudáveis, conhece Ralph Agee (Robert Christian), uma travesti negra, acusada injustamente de tráfico de drogas e que acaba se tornando sua cliente. Cuidando também do caso do jovem Jeff McCullaugh (Thomas Waites) - condenado devido a uma série de enganos judiciais que o estão empurrando diretamente para a insanidade mental - Kirkland acaba se vendo obrigado a defender justamente seu maior desafeto quando o Juiz Fleming é acusado de estupro e agressão. Chantageado (tal aproximação pode salvar McCullaugh), Kirkland aceita, mesmo a contragosto, a tarefa de engolir seus princípios, mas nem de longe imagina o quão podre pode ser o meio em que transita.


Utilizando personagens secundários como forma de comentar a ação, o roteiro de "Justiça para todos" evita cair no dramalhão mesmo quando se vê obrigado a apelar para tragédias como forma de sublinhar sua contundência. Enquanto luta por seus clientes, Kirkland se vê enredado em um romance com Gail Packer (Christine Lahti) - advogada que faz parte de um comitê que investiga assuntos internos - e convive com outros membros de sua profissão, retratos ora cômicos ora dramáticos de seu círculo. No primeiro caso existe o Juiz Francis Rayford (Jack Warden) - que tem constantes pensamentos suicidas e não hesita em utilizar uma arma durante as sessões que preside; no segundo, o filme apresenta Jay Porter (Jeffrey Tambor, estreando em cinema), que sofre de um grave desequilíbrio emocional depois que um cliente que ajudou a absolver voltou a praticar crimes violentos. Nem sempre os alívios cômicos inseridos na narrativa funcionam - pelo contrário, soam muitas vezes deslocados e desnecessários - mas é inegável que o ritmo impresso pelos diálogos ágeis e pela edição inteligente envolvem o espectador sem grande dificuldade, em especial graças ao elenco impecável selecionado por Jewison, que apesar de manter o tom sóbrio na direção, não hesitou em definir seu filme, à época da estreia, como uma "grande comédia".

Não é difícil compreender o ponto de vista de Jewison. Ao enfatizar os absurdos e as situações surreais que ocorrem nos bastidores da Justiça e colocá-las lado a lado com suas consequências diretas nas vidas de réus, advogados e juízes, "Justiça para todos" se mostra, a cada minuto, como um panorama quase bizarro de uma sociedade em constante desequilíbrio de classe e raças. Único personagem com real percepção sobre o mundo que o cerca, Arthur Kirkland é uma espécie de anti-heroi, um homem perdido em um redemoinho de corrupção, burocracia e interesses escusos, tentando desesperadamente manter sua retidão moral mesmo quando tudo o empurra em direção contrária. Al Pacino oferece todo o seu talento para contar sua história, acertando o tom em qualquer direção que a trama siga e mostrando porque é um dos grandes atores de sua geração. Voltando a contracenar com seu mestre do Actor's Studio, o veterano Lee Strasberg (com quem havia trabalhado em "O poderoso chefão - parte II", aqui na pele de seu estimado avô), Pacino brinda o espectador com uma de suas mais poderosas interpretações, intensa e dotada da energia de que apenas os maiores são capazes. Uma obra indispensável para os fãs de cinema e de filmes de tribunal, "Justiça para todos" é atemporal.

O PESO DE UM PASSADO

O PESO DE UM PASSADO (Running on empty, 1988, Double Play, 120min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Naomi Foner. Fotografia: Gerry Fisher. Montagem: Andrew Mondshein. Música: Tony Mottola. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Philip Rosenberg/Philip Smith. Produção executiva: Naomi Foner, Burtt Harris. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson. Elenco: Christine Lahti, Judd Hirsch, River Phoneix, Martha Plimpton, Jonas Abry, Ed Crowley. Estreia: 09/9/88

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (River Phoenix), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Roteiro 

Em 1983, o cineasta Sidney Lumet assinou o filme "Daniel", que, baseado em romance de E.L. Doctorow, inspirava-se na história real do casal Julius e Ethel Rosenberg, executado em 1953 nos EUA, acusado de traição. De uma certa forma, o tema voltou à tona na filmografia do diretor com "O peso de um passado", lançado cinco anos mais tarde e novamente com um foco mais familiar do que político. Se no filme estrelado por Timothy Hutton o protagonista embarcava em uma dolorosa jornada para descobrir os detalhes do processo que vitimou seus pais depois de uma tragédia que envolve sua irmã, na trama escrita por Naomi Foner o núcleo familiar formado por um par de militantes de esquerda e seus dois filhos precisa enfrentar uma temida realidade quando o passado começa a ameaçar o presente e o futuro - na figura de uma possível carreira musical para o talentoso primogênito, que coincidentemente está descobrindo o amor e a individualidade. Interpretado por um inspirado River Phoenix em vias de passar de promessa a ator consagrado ainda antes dos 20 anos de idade, o romântico e idealista Danny Pope acaba sendo o maior atrativo da produção, que apesar dos prêmios ao roteiro de Naomi Foner (e uma indicação ao Oscar da categoria), se ressente de um ritmo irregular e da demora em determinar seu foco.

O público demora um pouco a compreender a dinâmica da família Pope: tanto o pai, Arthur (Judd Hirsh) quanto a mãe, Annie (Christine Lahti) não demonstram claramente os motivos que os levam a mudar-se, juntamente com os filhos, a cada seis meses, deixando para trás identidades, rotinas e todos os vestígios de sua existência. Os filhos - o adolescente Danny e o pequeno Harry (Jonas Abry) - apenas seguem, sem questionar, as ordens paternas, impedidos de levar uma vida normal e dotada de qualquer aspecto de normalidade. É quando chegam em uma cidade do interior de Nova Jersey que as coisas começam a precipitar-se em suas vidas - e finalmente a plateia é informada sobre seu dramático passado, que remonta à 1971, quando, ainda jovens e esperançosos de modificar o mundo, Arthur e Annie explodiram um laboratório de napalm, atingindo um faxineiro que estava no local indevidamente. Desde então, foragidos, construíram uma vida em eterna fuga do FBI, jamais se permitindo permanecer na mesma cidade e com a mesma identidade por mais de poucos meses. De repente, como obra do destino, dois acontecimentos aleatórios ameaçam a rotina do grupo: o reaparecimento de Gus (L.M. Kit Carson), um antigo companheiro de lutas políticas e o nascimento da paixão entre Danny e Lorna (Martha Plimpton), filha de um professor de música que vê no rapaz o talento necessário para uma carreira como pianista - o que, logicamente, bate de frente com os planos a longo prazo do casal de foragidos.


Sem o brilhantismo de algumas de suas obras mais famosas - como "12 homens e uma sentença" (57) "Um dia de cão "(75), "Rede de intrigas" (76) e "O veredicto" (82), todos grandes filmes com aguda percepção da sociedade americana - Sidney Lumet não apresenta o mesmo brilhantismo em "O peso de um passado". Mesmo de posse de uma história de enorme potencial dramático, o veterano cineasta parece não sentir-se à vontade em explorar o romantismo da relação entre Danny e Lorna ou a rebeldia do rapaz quanto à imposição de uma vida nômade que finalmente passa a incomodá-lo. O tom morno da narrativa só é interrompido quando o roteiro abre espaço para o brilho de Christine Lahti, que acerta em cheio na construção de uma personagem que vai se revelando gradualmente ao espectador, até explodir em uma comovente cena em que encontra seu pai milionário, com quem rompeu ao unir-se a Arthur: é um momento de sensibilidade à flor da pele, que dialoga muito mais com a intensidade de River Phoenix do que com a frieza com que o filme vai acontecendo até então.

Indicado ao Oscar de coadjuvante - que perdeu para Kevin Kline por "Um peixe chamado Wanda" - o jovem Phoenix, que morreria precocemente poucos anos mais tarde, demonstra mais uma vez um carisma e uma naturalidade impressionantes, capazes de contagiar os colegas de cena e o público. De olhar doce e personalidade serena, ele oferece a seu personagem camadas intensas que contrastam saudavelmente com a quase frieza com que o filme é apresentado na grande maioria do tempo. Seus arroubos de espontaneidade garantem um acréscimo e tanto de interesse à uma trama que, apesar de relevante e naturalmente dramática, frequentemente entra em um estágio de monotonia e apatia que quase eclipsa suas qualidades - além de apresentar um protagonista tão chato quanto Arthur Pope, que nem mesmo o talento de Judd Hirsch consegue tornar simpático. Não é um dos melhores trabalhos de Sidney Lumet, mas graças a seu tema palpitante, a momentos pontuais de atuação de Lahti e ao carisma de Phoenix, prende a atenção até seu emocionante (ainda que um tanto abrupto) desfecho. Vale a pena dar uma chance.

domingo, 5 de março de 2017

C.R.A.Z.Y. - LOUCOS DE AMOR

C.R.A.Z.Y.: LOUCOS DE AMOR (C.R.A.Z.Y., 2005, Téléfilm Canada, 127min) Direção: Jean-Marc Vallée. Roteiro: François Boulay, Jean-Marc Vallée. Fotografia: Pierre Mignot. Montagem: Paul Jutras. Figurino: Ginette Magny. Direção de arte/cenários: Patrice Bricault-Vermette/Nicolas Lepage. Produção executiva: Jacques Blain, Richard Speer. Produção: Pierre Even. Elenco: Marc-André Grondin, Michel Côté, Danielle Proulx, Émile Vallée, Pierre-Luc Brillant, Maxime Tremblay, Alex Gravel. Estreia: 27/5/05

Zac Beaulieu nasceu no Dia de Natal, no seio de uma família católica e conservadora do Canadá. Quarto filho de uma prole de cinco, desde sempre foi objeto de estranhamento em seu lar machista e pouco afeito aos avanços da sociedade. Sua mãe acreditava que ele tinha o poder de curar as pessoas à distância e seu pai não compreendia sua necessidade de vestir-se de buscar sua própria identidade - seja através de roupas copiadas de seus ídolos musicais ou de atitudes consideradas pouco masculinas mesmo nos efervescentes anos 60 e 70. Inquieto por natureza e rebelde em todas as definições, Zac é o protagonista de "C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor", representante canadense por uma indicação ao Oscar de 2006. Baseada nas memória do corroteirista François Boulay e dirigido por Jean-Marc Vallée - que anos mais tarde se tornaria figura assídua nas festas da Academia, com "Clube de Compras Dallas" (2013) e "Livre" (2014) - a comédia dramática arrebatou prêmios em diversos festivais de cinema pelo mundo e, embalada por uma trilha sonora que mistura Patsy Cline, Charles Aznavour, Pink Floyd, Rolling Stones e principalmente David Bowie, revelou um diretor inventivo e sensível, que consegue equilibrar com destreza momentos de um humor sutil e um drama comovente e que escapa milagrosamente do piegas.

Quando o filme começa, no fim de 1960, o roteiro já dá mostras de que não se trata de uma produção comum - a ironia e o humor iconoclasta são sublinhados pela edição ágil, pela narração em off do protagonista e pela trilha sonora eclética e inteligente. Quando criança, Zac é interpretado pelo carismático Émile Vallée (filho do diretor), e é impossível não se deixar conquistar por seu sorriso franco e sua timidez incurável, que transforma até mesmo as visitas à Igreja - nos Natais em que precisa dividir a atenção com o outro aniversariante, mais famoso - em momentos inspirados. Quando Zac atinge a adolescência - e por consequência sua efervescência natural - o ator Marc-André Grondin assume o papel, e sem prejuízo nenhum à narrativa, envolve o espectador em uma história que consegue ser, ao mesmo tempo, uma homenagem à rebeldia e uma ode à família, por mais idiossincrática que ela possa ser. E a de Zac, como fica claro desde o início, não é nada simples.


Pais de cinco meninos - Christian, Raymond, Antoine, Zachary e Yvan - o casal Gervais (Michel Côté) e Laurianne (Danielle Proulx) levam uma vida confortável, mas não luxuosa. Ela se dedica profundamente à criação dos filhos e à religião, tanto na forma de visitas assíduas à igreja local quanto em constantes consultas com uma picareta que se diz paranormal e identifica em seu quarto filho alguém com poderes místicos (revelados através de uma mecha loura de cabelos). Ele é um pai rígido e pouco afeito a demonstrações de afeto e carinho, mas que vê nos filhos a chance de redimir-se de uma vida não exatamente bem-sucedida. Zac, por sua vez, tenta desesperadamente encaixar-se nos moldes da rotina imposta por seus pais, principalmente quando percebe, logo cedo, que é muito mais diferente de toda a sua família do que deveria ser. Por toda a sua infância e adolescência ele irá lutar contra esse sentimento de deslocamento, ao mesmo tempo em que tentará manter um relacionamento saudável com seus principais desafios: o machismo arraigado do pai e a virulência de Raymond (Pierre-Luc Brillant), seu irmão viciado em drogas e seu principal desafeto dentro do núcleo familiar. Buscando de todas as maneiras encaixar-se no perfil esperado por todos - mesmo que aparentemente esteja pouco ligando para quaisquer convenções - o rapaz irá, aos poucos, despertar para o fato de que, independente de tudo, sua individualidade sempre irá sobressair-se aos cânones impostos pela sociedade.

Mesmo que em sua segunda metade substitua a ironia e o bom-humor por uma alta dose de drama e melancolia, "C.R.A.Z.Y." é um filme que passa longe dos tradicionais retratos amargos e deprimentes da comunidade gay que o cinema costuma apresentar - ou ao menos premiar e louvar. Tem um clima constante de desconstrução de clichês, enfatizado pela seleção cuidadosa das obras que formam sua trilha sonora (especialmente a canção-título, interpretada por Patsy Cline, idolatrada pelo pai do protagonista) e pela reconstituição de época, impecável mas nada óbvia. Sem precisar nem ao menos explicitar a sexualidade de Zac com cenas mais ousadas, Jean-Marc Vallée constroi uma narrativa que funciona em todos os níveis emocionais e intelectuais a que se propõe. É um filme delicado, engraçado, comovente e que não subestima a inteligência do espectador. Um belo cartão de visitas para um cineasta de talento e sensibilidade. Em tempo: o titulo "C.R.A.Z.Y." é a união das iniciais dos cinco filhos do casal Beaulieu, como fica evidente nos créditos finais. Um filme encantador!

sábado, 4 de março de 2017

ANJOS E DEMÔNIOS

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels and demons, 2009, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 138min) Direção: Ron Howard. Roteiro: David Koepp, Akiva Goldsman, romance de Dan Brown. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Allan Cameron/Larry Bellantoni, Robert Gould. Produção executiva: Dan Brown, Todd Hallowell, Marco Valerio Pugini. Produção: John Calley, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Tom Hanks, Ewan McGregor, Armin Mueller-Stahl, Ayelet Zurer, Stellan Skarsgaard, Pierfrancesco Favino, Cosimo Fusco. Estreia: 04/5/09 (Roma)

Best-seller absoluto em todo o mundo, o livro "O Código Da Vinci", de Dan Brown, não demorou em chegar às telas de cinema, em 2006, com o apoio de um invejável time liderado pelo diretor Ron Howard (vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante") e pelo ator Tom Hanks (dono de duas estatuetas, por "Filadélfia" e "Forrest Gump: o contador de histórias" e que ficou com um papel disputado pelos maiores astros de Hollywood à época, como Russell Crowe e Hugh Jackman). Com um custo estimado de 125 milhões de dólares, o filme acabou desagradando boa parte da crítica e dos fãs da obra original, e, apesar de ter coletado mais de 750 milhões internacionalmente, ficou longe de ser considerado um fenômeno sequer parecido com o do livro, que vendeu mais de 80 milhões de cópias e causou polêmicas infindáveis com suas teorias a respeito de uma possível descendência de Jesus Cristo. Isso não impediu, no entanto, que Hollywood percebesse que Langdon e suas aventuras poderiam tranquilamente render muito mais - especialmente porque Brown já tinha publicado outro livro com o mesmo personagem e que estava pronto para ser adaptado. Mesmo se passando antes dos acontecimentos mostrados em "Da Vinci", "Anjos e demônios" foi lançado, três anos mais tarde, como uma continuação - e, se não teve a bilheteria esperada, não foi por falta de esforço por parte dos produtores, que tentaram (sem conseguir muito) corrigir as falhas do primeiro filme.


Uma das mais frequentes críticas feita à "O Código Da Vinci" em seu lançamento dizia respeito à forma como o roteirista Akiva Goldsman havia traduzido a estratosférica quantidade de informações sobre História, Arte e Religião do livro para o filme. Para evitar o didatismo em "Anjos e demônios", o vencedor do Oscar por "Uma mente brilhante" - que recebeu um salário recorde de 3,8 milhões de dólares pelo trabalho - enxugou o máximo que pode de referências históricas aos Illuminati (sociedade secreta surgida no século XVIII que tem papel preponderante na trama) e concentrou-se nas aventuras de Langdon pela cidade do Vaticano às vésperas da eleição de um novo Papa. O roteiro acabou por ter cenas reescritas pelo veterano David Koepp (a pedido de Tom Hanks) e chegou até o público sem a mesma inteligência de "Da Vinci" - e com sequências de suspense e ação mornas e apáticas. Nem mesmo a duração excessiva (quase duas horas e meia de projeção) dá conta de costurar o exagero de situações criadas pela história, que envolve sequestro de cardeais, o roubo de antimatéria com intenções criminosas, os famigerados Illuminati e uma sucessão de cenas que se pretendem chocantes mas que ficam no meio do caminho entre a violência e o desejo de atrair público de todas as idades às salas de cinema. O resultado é um filme bem produzido (como era de se esperar haja visto o orçamento gigantesco para uma obra sem efeitos visuais mirabolantes) mas sonolento, incapaz de empolgar ou sequer atiçar a imaginação da plateia como seu antecessor.


Se em "O Código Da Vinci" o protagonista fazia uma turnê pelos pontos turísticos religiosos e históricos de Paris, em "Anjos e demônios" o simbologista mais famoso da literatura mundial é chamado ao Vaticano para tentar evitar uma tragédia de grandes proporções: um grupo de membros dos Illuminati acaba de sequestrar os quatro cardeais favoritos ao posto de novo Papa (após a morte inesperada do último) e pretende matá-los de hora em hora, além de detonar uma explosão capaz de arrasar com a cidade. Tais atos, planejados como uma revanche pela perseguição da Igreja Católica feita à sociedade secreta desde sua criação, ameaçam não apenas a integridade física de todos os religiosos reunidos para o conclave, mas também a própria estrutura da Igreja - o que deixa o carmelengo Patrick McKenna (Ewan McGregor) na difícil situação de lidar tanto com a eleição quanto com a possibilidade de não sobrarem possíveis candidatos ao cargo, já que, além dos desaparecidos, apenas o Cardeal Strauss (Armin Mueller-Stahl) tem condições de assumir tal papel. Nesse meio-tempo, Langdon corre de uma catedral à outra, tentando evitar as mortes dos cardeais usando, para isso, pistas que remetem a antigas anotações guardadas a sete chaves pelas autoridades canônicas.

Substituindo a francesa Audrey Tautou pela israelense Ayelet Zurer (que foi a mulher de Eric Bana em "Munique", de 2005), "Anjos e demônios" consegue evitar a verborragia excessiva de "O Código Da Vinci", mas esbarra em um problema ainda maior: a superficialidade de absolutamente toda a sua narrativa. Enquanto no filme anterior o diretor Ron Howard ilustrava longos discursos com uma edição notável e criativa (mas ainda assim vítima de muitas reclamações), aqui ele simplesmente ignora toda e qualquer vontade de esclarecer a plateia sobre as origens dos Illuminati ou sobre detalhes a respeito das pistas que Langdon vai encontrando em sua busca. O ritmo talvez tenha ficado mais ágil, mas em compensação é difícil de envolver-se com a trama ou com seus personagens. Tom Hanks continua no piloto automático e Ewan McGregor faz o que pode com um personagem que jamais atinge todas as suas possibilidades. No cômputo final, é um filme menor do que seu primeiro capítulo - não empolga, não ensina nem tampouco é memorável. Um entretenimento decente, mas nada além disso. Uma decepção quando se pensa que tem a assinatura de um time de talento inegável e uma produção caríssima.