terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSHENKO (Love and death, 1975, United Artists, 85min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Ghislain Cloquet. Montagem: Ron Kalish, Ralph Rosenblum. Figurino: Gladys de Segonzac. Direção de arte/cenários: Willy Holt. Produção executiva: Martin Poll. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Diane Keaton. Estreia: 10/6/75

Quando se assiste aos primeiros filmes de Woody Allen - basicamente estruturados em uma narrativa à base de piada atrás de piada - dificilmente se pode imaginar que, por trás de seu humor iconoclasta e neurótico, existe uma profunda admiração por Dostoievski e Ingmar Bergman. Cada um a seu modo, o escritor russo e o cineasta sueco são grandes influências na obra de Allen, o que ficou óbvio quando ele iniciou uma jornada por filmes mais dramaticamente densos, como "Interiores" (78) e "Setembro" (87) - que dividiram a crítica -  ou com reflexões mais pessimistas, como "Crimes e pecados" (89) e "Match point" (2005) - ambos grandes sucessos. Um sinal de seu apreço pelas questões que viria a abordar futuramente é "A última noite de Boris Grushenko", um filme que ainda seguia seu estilo anárquico de fazer cinema mas que já apontava para um caminho mais sofisticado de contar histórias - que culminaria com os Oscar de filme, roteiro e direção para "Noivo neurótico, noiva nervosa" (77), seu trabalho seguinte. Carregado de referências culturais e históricas - mas nem por isso pedante ou presunçoso - "A última noite de Boris Grushenko" é um dos melhores filmes da fase pré-Oscar de Allen, com um equilíbrio perfeito entre o humor visual debochado e diálogos brilhantes que beiram o surreal.

Escrito durante um bloqueio criativo de Allen - que emperrou no meio daquele que se tornaria, anos mais tarde, "Um misterioso assassinato em Manhattan" (95) - e inspirado na leitura de um livro sobre a história da Rússia, "A última noite de Boris Grushenko" apresenta o diretor na pele do personagem-título, um pacifista intelectual deslocado em uma família pouco afeita a livros e atividades culturais. Apaixonado por uma prima, a bela Sonja (Diane Keaton), que não tem o menor interesse em seus desejos, nem mesmo depois de rejeitada por seu irmão - e prefere entregar-se a uma sucessão de amantes do que envolver-se com ele - o pacífico Boris se vê obrigado a partir para a guerra e impedir o avanço das tropas de Napoleão Bonaparte (James Tolkan). Com o tempo, ele se descobre um inusitado conquistador e acaba, por obra e graça do destino, como a principal peça de um plano para assassinar o líder francês - ao lado de sua amada Sonja.


Filmado na Hungria e na França, "A última noite de Boris Grushenko" teve uma saudável cota de problemas durante sua produção - o mais grave deles o sério problema intestinal do produtor Charles H. Joffe graças à comida de Budapeste - mas, surpreendentemente, é um dos filmes mais felizes da carreira de Woody Allen em seus primeiros anos. Ainda que apoiado em uma avalanche de piadas de todo tipo, o roteiro do diretor tem uma coesão e uma linha narrativa menos solta que seus trabalhos anteriores, o que viria a se refinar ainda mais nas obras seguintes, quando ele finalmente conseguiu reunir seu genial senso de humor com a linguagem cinematográfica de forma a equilibrar os dois fatores. Com uma fotografia caprichada do belga Ghislain Cloquet - que explora admiravelmente o clima dos cenários naturais para enfatizar o tom épico/histórico/romântico da trama - e uma edição enxuta que jamais deixa o ritmo cair, o filme não é apenas indicado aos fãs do cineasta, mas consegue a façanha de fazer rir até mesmo o mais renitente espectador. Tudo mérito das micagens de Allen e Keaton, em excepcional dueto que remete aos grandes momentos de Chaplin, Irmãos Marx e Bob Hope. Certeiro em suas observações perspicazes sobre a vida, a morte, o amor e outras considerações filosóficas, Allen não apenas faz rir: ele presta sinceras homenagens a alguns de seus maiores ídolos.

Em um dos diálogos mais geniais de sua filmografia, Allen faz com que seu personagem receba a visita de seu pai, na prisão, e receba dele notícias sobre alguns de seus conhecidos: surge então, de maneira brilhante, citações a "Crime e castigo", "Os irmãos Karamazov", "O idiota", "O jogador", "O duplo" e outras obras de Dostoievski. Em outras sequências, ele brinca com imagens e conversas que remetem a filmes do sueco Ingmar Bergman, como "Quando duas mulheres pecam" (66) e "O sétimo selo" (57), e até mesmo o título original do filme ("Amor e morte") é uma tentativa de evocar outros romances russos, como "Guerra e paz", de Tolstoi, e o já citado "Crime e castigo". Nenhum detalhe escapa à visão cínica de Allen, que arranca gargalhadas sem precisar deixar de lado a inteligência e comprova que ser erudito não necessariamente significa ser chato ou pedante. Uma pequena obra-prima de humor e sofisticação que ainda precisa ser redescoberto como um dos mais completos de seu realizador.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A TRAVESSIA

A TRAVESSIA (The walk, 2015, Sony Pictures Entertainment/TriStar Productions, 123min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Christopher Brown, livro de Philippe Petit. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Jeremiah O'Driscoll. Música: Alan Silvestri. Figurino: Suttirat Anne Larlab. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Geoffroy Gosselin, Ann Smart. Produção executiva: Jacqueline Levine, Cherylanne Martin, Ben Waisbren. Produção: Jack Rapke, Steve Starskey, Robert Zemeckis. Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, James Badge Dale, Ben Schwartz. Estreia: 26/9/15 (New York Film Festival)

O vencedor do Oscar de melhor documentário de 2008, "O equilibrista", dirigido por James Marsh, contava a inacreditável história de Philippe Petit, um francês que conseguiu, em 1974, quando as Torres Gêmeas ainda nem estavam totalmente prontas, atravessar a distância entre elas equilibrado no fio que utilizava em suas apresentações artísticas em Paris. Como documentários não são exatamente gêneros populares - com raras exceções - o cineasta Robert Zemeckis achou que a trajetória de Petit em sua tentativa de atingir seu objetivo poderia render um belo e emocionante filme, capaz de atrair as mesmas multidões que lotaram os cinemas para assistir a alguns de seus maiores sucessos de bilheteria, como a trilogia "De volta para o futuro", o divertidíssimo "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e o multi-oscarizado "Forrest Gump: o contador de histórias" (94). Enganou-se. Com uma renda de pouco mais de 10 milhões de dólares arrecadados no mercado doméstico, "A travessia" foi uma grande decepção comercial, e nem mesmo sua renda internacional conseguiu apagar o gostinho amargo do fracasso, mal ultrapassando os 50 milhões e nem sequer dobrando seu custo (relativamente baixo) de 35 milhões de dólares. Nem mesmo a Academia de Hollywood, tão generosa com Zemeckis em outras ocasiões, pareceu impressionar-se com seu novo filme, lhe ignorando até mesmo nas categorias técnicas. Uma tremenda injustiça! Mesmo longe de ser o melhor trabalho do diretor, "A travessia" é entretenimento honesto, tecnicamente irrepreensível e com um clímax poderoso o bastante para prender o espectador na poltrona até os minutos finais.

Construindo sua narrativa em um estilo que lembra os famosos "filmes de golpe", o roteiro, baseado em livro do próprio Petit, acompanha o protagonista desde seus primeiros passos como equilibrista - sob os cuidados do experiente e ranzinza Papa Rudy (Ben Kingsley) - até seu mais famoso e arriscado espetáculo, um acontecimento ao mesmo tempo poético e assustador, belo e transgressor. Na pele de um Joseph Gordon-Levitt com sotaque francês e lentes de contato azuis, o personagem central apresenta todas as características típicas de um protagonista arrojado: é intransigente, quase arrogante, obsessivo e dotado de uma visão artística muito superior à sua percepção do perigo. Zemeckis não tenta forçar a simpatia do público com seu herói, deixando a missão com o seu ator principal - que mais uma vez demonstra um carisma acima de qualquer dúvida, mesmo tendo em mãos um personagem cuja fixação chega, em determinados momentos, a por em risco inclusive aqueles que aceitam colaborar com ela. Ao equilibrar (sem trocadilhos) o tom cômico com um ritmo de filmes de aventura da velha Hollywood e efeitos visuais espetaculares, "A travessia" é um programa completo, capaz de agradar a todos os tipos de público, mas que infelizmente não conseguiu a atenção que merecia.


Milimetricamente construído como um programa para seduzir qualquer espectador, "A travessia" é um produto raro dentro da indústria hollywoodiana. Não apela para nenhum tipo de violência, não é inspirado em nenhuma história em quadrinhos, não é sequência de um sucesso ou tampouco tem como ator principal um nome de forte apelo popular, capaz de levar o público às salas de exibição somente por sua presença. Nem mesmo o nome de Robert Zemeckis foi o bastante para convencer a audiência, no entanto. De volta ao formato tradicional de contar histórias no cinema desde "O voo" - que concorreu aos Oscar de ator (Denzel Washington) e roteiro original - o cineasta que há anos dedicava-se a experimentações, como "O Expresso Polar" (2004) comprova que não perdeu a habilidade em mergulhar em tramas centradas mais em personagens do que em desafios técnicos. Ainda que "A travessia" tenha como maior atrativo o envolvente clímax que coloca Philippe Petit a centenas de metros do chão, é sua jornada para atingir seu objetivo que determina o ritmo do filme, ditado pela edição ágil (mas nunca histérica) e sublinhado pela trilha sonora discreta de Alan Silvestri. É assim que Petit vai explicando sua ideia fixa à plateia, enquanto vai recrutando colaboradores, entre elas a namorada Annie (Charlotte Le Bon) e seu fotógrafo oficial, Jean-Louis (Clement Sibony), que chegam à Nova York convencidos a participar de um evento sem igual - e ilegal.

É quando o grupo de Petit chega à Nova York - depois de mais de uma hora de filme - que "A travessia" parece finalmente começar, e talvez essa demora em engrenar seja seu maior problema. Quando finalmente é hora do clímax - poderoso, engraçado, tenso e emocionante - é possível que boa parte da plateia já tenha se incomodado com os dois terços iniciais, interessantes mas sem maiores atrativos exceto a produção impecável e o carisma de Gordon-Levitt. Àqueles que tem paciência, porém, Zemeckis entrega um belo presente em seus trinta minutos finais: a sequência em que finalmente Petit faz sua travessia entre as torres do World Trade Center não apenas é um feito técnico impressionante (em especial em uma sessão 3D) como também é uma linda homenagem à cidade e aos edifícios, que surgem como personagens indispensáveis à história. Essa etapa final do filme - cuidadosamente filmada, editada e sonorizada - apaga todo e qualquer deslize anterior, mostrando porque o diretor é um dos mais conceituados e bem-sucedidos de Hollywod apesar de alguns fracassos no caminho. Os efeitos visuais deslumbrantes (injustamente esquecidos pelo Oscar) podem ser o que fica na memória do espectador, mas o carinho de Petit e do cineasta por Nova York também ficam evidentes no tom melancólico de seus últimos minutos. "A travessia" pode não ser um dos melhores filmes de Zemeckis, mas não faz feio em uma carreira vitoriosa e principalmente repleta de respeito a seu público.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

AS SUFRAGISTAS

AS SUFRAGISTAS (Suffragette, 2015, Ruby Films/Pathé/Film4, 106min) Direção: Sarah Gavron. Roteiro: Abi Morgan. Fotografia: Edu Grau. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Alice Normington/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Nik Bower, Rose Garnett, Cameron McCracken, Teresa Moneo, Tessa Ross, James Schamus. Produção: Alison Owen, Faye Ward. Elenco: Carey Mulligan, Helena Bonham-Carter, Anne-Marie Duff, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Meryl Streep, Romola Garai. Estreia: 04/9/15 (Festival de Teluride)

Tinha tudo para ser um daqueles filmes que a Academia de Hollywood adora e enche de estatuetas douradas: uma história socialmente relevante, um elenco com nomes já lembrados em outras ocasiões (Carey Mulligan, Helena Bonham-Carter, Meryl Streep), um tema de grande importância sociopolítica (os direitos das mulheres) e uma reconstituição de época caprichada. No entanto, "As sufragistas" - filme que tem como foco narrativo a luta das mulheres inglesas pelo direito ao voto, no começo do século XX - acabou passando batido pelas cerimônias de premiação e naufragou nas bilheterias, apesar dos elementos que poderiam ter feito dele um vencedor. Não deixou de ser um tanto injusta essa esnobada absoluta: por mais que o filme da cineasta Sarah Gavron esteja longe da perfeição, é consistente o bastante para levantar discussões e comparações com a fragilizada sociedade ocidental contemporânea. Além disso, ainda apresenta mais uma ótima atuação de Carey Mulligan, perfeita no papel principal e mais uma vez se mostrando uma das melhores atrizes de sua geração. Dono de um timing perfeito de lançamento, falta à "As sufragistas" um pouco mais de uma contundência que lhe poderia tornar muito maior.

A estrutura do roteiro de Abi Morgan segue uma linha narrativa bastante tradicional, inserindo uma protagonista fictícia em um contexto real: Carey Mulligan, caprichando no tom suave de sua personagem, interpreta Maud Watts, uma jovem londrina que, em 1912, trabalha no insalubre ambiente de uma lavanderia, assim como fazia sua mãe e da mesma forma que fazem muitas mulheres de sua geração, que se dividem entre o lar e um sub-emprego que não lhes dá nem ao menos o direito ao voto. É justamente essa questão que se põe no caminho de Maud quando ela se vê repentinamente próxima de Violet Miller (Anne-Marie Duff), uma das maiores entusiastas do movimento sufragista inglês - e que trabalha a seu lado, incentivando a participação de todas as mulheres na militância. Mesmo contra a vontade do marido, Sonny (Ben Whishaw), que não vê com bons olhos a participação feminina na política e especialmente a de sua mulher em questões consideradas masculinas, Maud acaba se envolvendo cada vez mais nos comícios, nas passeatas e nas discussões parlamentares a respeito do assunto - e quando chega a participar de atos considerados terroristas, corre o risco de perder a guarda do único filho.


O problema de "As sufragistas" nem é tanto o didatismo do roteiro ou a indecisão entre enfatizar a luta feminina pelo direito ao voto (retratada na figura carismática da líder do movimento, Emmeline Pankhurst, vivida rapidamente por Meryl Streep) ou os dilemas de sua protagonista - um símbolo da luta contra o machismo e a sociedade patriarcal que lhe oprime desde a infância, quando era abusada pelo patrão. Sempre que a cineasta opta por sequências que ilustram a violência da repressão do Estado contra as mulheres, seu filme demonstra fragilidade técnica, com uma edição que mais esconde do que mostra e por vezes soa confusa e sem energia. Por outro lado, quando o foco é o olhar melancólico e expressivo de Carey Mulligan, a produção cresce em emoção e atinge o objetivo de alcançar o espectador e torná-lo cúmplice de sua narrativa. Para isso, Mulligan conta com o apoio de Helena Bonham-Carter em uma atuação discreta mas poderosa, que foge de seus trabalhos mais conhecidos ao lado do ex-marido Tim Burton: sua composição de uma mulher que enfrenta o machismo da sociedade de cabeça erguida e peito aberto é, talvez, uma das melhores de sua carreira, infelizmente ignorada pela Academia que já havia lhe indicado duas vezes ao Oscar (melhor atriz por "Asas do amor", em 1998, e coadjuvante por "O discurso do rei", em 2011). A química entre ela, Mulligan e Anne-Marie Duff é a maior força do filme de Sarah Gavron - o que não deixa de ser coerente de se dizer a respeito de uma obra que fala justamente sobre o poder da união entre mulheres.

Com apenas um longa para cinema no currículo (o pouco visto "Brick Lane", de 2007), Sarah Gavron dá um grande passo à frente na carreira, com uma produção correta e socialmente relevante, estrelada por nomes fortes e sem maiores escorregões. Não criou uma obra com o impacto que se poderia esperar de um tema tão contundente, mas foi feliz ao não apelar para o melodrama exagerado ou o panfletarismo barato. Equilibrado em suas intenções (ainda que por vezes um tantinho aquém do que se poderia desejar em ênfase), Gavron se mostrou uma diretora sensível, inteligente e capaz de explorar com sutileza o talento de seu excepcional elenco. "As sufragistas" é um filme de grande importância, e se não é um grande e inesquecível filme, ao menos levanta questões e provoca reflexões a cada dia mais prementes em um mundo progressivamente conservador. Vale mais pela intenção do que pelo resultado, mas jamais pode ser considerado ruim ou insignificante.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A PELE DE VÊNUS (La Vénus à la fourrure, 2013, R.P. Productions, 96min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, David Ives, romance de Leopold von Sacher-Masoch, peça teatral de David Ives. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze, Margot Meynier. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Bruno Via/Philippe Cord'homme. Produção: Robert Benmussa, Alain Sarde. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner. Estreia: 25/5/13 (Festival de Cannes)

Quando trabalhou junto com a atriz Emmanuelle Seigner pela primeira vez, no thriller "Busca frenética" (1988), o diretor Roman Polanski encontrou na bela francesa uma esposa e uma musa. Desde então dirigiu-a em "Lua de fel" (1992) e "O último portal" (1999), mas nunca teve a oportunidade de mostrar à plateia a evolução de seu talento como atriz, adquirida com a experiência e a maturidade. Trabalhando com o marido pela primeira vez em seu idioma natural - o francês - a bela Seigner finalmente teve a chance de deixar de ser coadjuvante para ser a estrela em "A pele de Vênus", que estreou no Festival de Cannes 2013 com efusivos elogios e rendeu ao veterano Polanski um César (o Oscar francês) de melhor diretor. Com um roteiro inspirado na peça de teatro de David Ives - por sua vez baseado no romance homônimo de Leopold von Sacher-Masoch - o filme volta a brincar com a obsessão do cineasta por ambientes claustrofóbicos, e envolve a plateia em um jogo de sedução e dominação inteligente e perspicaz, que tem especial ressonância àqueles apaixonados por teatro. Com uma invejável química entre Seigner e Mathieu Amalric - que substituiu Louis Garrell pouco antes do começo das filmagens - e um ritmo que se mantém em constante ebulição, "A pele de Vênus" é mais um filme que confirma Roman Polanski como um inquieto criador de obras perturbadoras e densas.

Uma clara homenagem ao teatro - forma de arte de que o próprio Polanski já se utilizou em filmes como "A morte e a donzela" (2004) e "O deus da carnificina" (2013) - e à arte da atuação, "A pele de Vênus" é, também, uma sofisticada obra de arte, recheada de referências culturais e psicológicas, que, ao contrário do que poderia acontecer, jamais soa pedante ou inalcançável. É, sem dúvida, muito acima da média do cinema popular (em que o cérebro do espectador raramente é acionado), mas dificilmente pode ser acusado de intelectualizado em excesso. Ao abraçar uma estrutura puramente teatral - sem respiros artificiais ou tramas paralelas desnecessárias - o roteiro, coescrito pelo diretor e pelo autor da peça original, exige da plateia uma atenção e uma disposição absolutas, mas lhe dá em troca um espetáculo do mais alto nível. É contra-indicado àqueles que reclamam da verborragia do teatro filmado, mas suas qualidades cinematográficas - a edição precisa, a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat, a direção segura de Polanski - conseguem facilmente conquistar a admiração até do mais exigente espectador que se deixar envolver pela complexa relação estabelecida entre seus dois protagonistas.


Thomas (Mathieu Amalric) é um dramaturgo que está em vias de estrear como diretor, adaptando um clássico e polêmico romance escrito no século XVIII. Depois de testar dezenas de candidatas ao principal papel feminino e quase desistindo de sua busca, ele se vê surpreendido pela bela e determinada Vanda (Emmanuelle Seigner), que chega ao teatro onde os ensaios devem tomar forma com o firme objetivo de mostrar a ele que é a atriz ideal para viver a personagem, que, coincidentemente, tem o mesmo nome que ela. A princípio recusando-se a testar Vanda por ela ter chegado atrasada e parecer pouco apropriada fisicamente ao papel, aos poucos Thomas vai percebendo que, por trás de sua aparência vulgar e pouco inteligente, ela é uma mulher não apenas completamente dedicada à sua profissão como também apaixonada pelo texto - do qual ele tem indisfarçável orgulho. Não demora para que ele se deixe seduzir pelo talento da moça, que transforma uma simples audição em um sagaz jogo de dominação - que é, afinal, o tema da peça de Thomas. Cada vez mais certo de que Vanda (por coincidência ou não, o mesmo nome da protagonista de sua trama) é a melhor escolha para a peça, ele aceita sua proposta de fazer uma espécie de ensaio informal ali mesmo, diante de uma plateia vazia: surge, então, uma bizarra relação entre os dois.

E é esse relacionamento sui generis que conduz "A pele de Vênus" durante seus 96 minutos. Valorizando cada trecho de diálogos - bem escritos, inteligentes, irônicos e questionadores a respeito de temas como fetichismo e a complexidade das relações homem/mulher - mas jamais esquecendo as ferramentas do cinema (edição, fotografia), Polanski brinda o espectador com um brilhante exercício artístico, que sublinha o melhor de cada linguagem e as reapresenta em forma de um novo e excitante tabuleiro, onde cada nova cena ilumina um novo lado da personalidade - do texto, da direção e dos personagens, que se multiplicam conforme a narrativa vai se tornando mais e mais sinuosa. Para sua sorte, conta com dois atores excepcionais nas reviravoltas dramáticas e que seguram com extrema habilidade cada nuance proposta pelo roteiro. Elegante, fascinante e inteligente, "A pele de Vênus" é o melhor que um teatro filmado pode ser.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

STRAPPED (Strapped, 2010, AltarBoy Productions, 95min) Direção e roteiro: Joseph Graham. Fotografia: Matthew Boyd. Montagem: Sharon Franklin. Música: Inu, Windows to Sky. Direção de arte/cenários: Will King/Andrew Colon. Produção executiva: Derek Curl, Raymond Murray. Produção: Joseph Graham, William D. Parker. Elenco: Ben Bonenfant, Nick Frangione, Artem Mishin, Carlo D'Amore, Michael Klinger, Raphael Baker. Estreia: 17/7/10

Quando se tem ambições comerciais amplas, filmes de temática homossexual seguem padrões não muito ousados: ou apelam para versões gays de histórias de amor trágicas ou optam por produções mais politizadas, com a intenção de conscientizar o público sobre os problemas da comunidade. Foi assim com o ótimo "Milk: a voz da igualdade" (2008), que, dirigido por Gus Van Sant, deu o segundo Oscar de melhor ator a Sean Penn e ainda levou a estatueta de roteiro original ao contar a história de Harvey Milk, político homossexual que levantou a bandeira dos direitos gays, lutou contra o ódio dos fundamentalistas mais fervorosos dos EUA e acabou assassinado. Deixando de lado o talento de todos os envolvidos no filme e sua grande qualidade como cinema, porém, seu sucesso muito se deveu à força do dinheiro envolvido, nos nomes fortes do elenco e da produção e de um generoso empurrão da crítica. Produções independentes, baratas, sem nomes conhecidos no elenco e sem a máquina dos grandes estúdios normalmente passam em branco junto às plateias, ficando relegadas a seu público-alvo ou a poucos curiosos desprovidos de preconceito. Foi o que aconteceu com "Strapped", que não ganhou nem mesmo título em português, nunca estreou oficialmente no Brasil e mesmo assim conquistou fãs com sua honestidade e inteligência ao retratar, com um roteiro repleto de metáforas, a rotina de um garoto de programa que, descobre, mesmo sem querer, que tem muitos sentimentos escondidos por trás de sua fachada de autossuficiência.

Escrito e dirigido por Joseph Graham - especializado em produções de temática gay - e estrelado por um elenco de atores desconhecidos que dão plena conta do recado, "Strapped" é praticamente um conto surreal, que mistura um erotismo sutil (mas por vezes bastante sexy) com momentos de quase sentimentalismo. O mérito é, em boa parte, do roteiro, que consegue a façanha de ficar à beira do didático ao explorar inúmeros tipos que constroem a diversidade do universo que se propõe a iluminar, mas consegue escapar dos estereótipos e dos exageros que normalmente povoam o gênero. Graham consegue, de maneira fluente e com ritmo admirável, conduzir sua narrativa de forma a envolver a plateia e fazer com que ela acompanhe seu protagonista sem nome (ou, dependendo do ponto de vista, com vários nomes diferentes) em sua involuntária jornada de autodescobrimento com prazer e interesse. Para isso, muito ajuda a presença de Ben Bonenfant, um ator longe de ser brilhante ou dono de uma beleza avassaladora, mas que tem carisma e um ar de ingenuidade que serve perfeitamente ao personagem e o aproxima da audiência com extrema facilidade. Mesmo que o texto não aprofunde o bastante o histórico do protagonista - que veste um personagem diferente para cada cliente que se apresenta - o filme seduz o espectador pela despretensão e pelo tom realista/fantástico que imprime em cada sequência.


"Strapped" já começa em plena ação com o protagonista visitando John (Artem Mishin), um russo casado que, aproveitando-se de uma viagem da esposa, o chama para momentos de sexo casual e acaba desabafando com ele, contando sobre uma experiência de sua adolescência, quando se apaixonou perdidamente por um colega e viu o preconceito de perto, através dos olhos da própria família. Programa encerrado, o rapaz se vê perdido em um prédio cuja saída parece inalcançável e dá de cara com Leon (Carlo D'Amore), que o reconhece de programas anteriores e o leva para seu apartamento, onde ele dá de cara com uma festa particular regada a álcool e drogas - e com dois convidados muito especiais, entre os quais um jovem e tímido escritor Gary (Nick Frangione), que se encanta por sua sensualidade quase desajeitada. Em seguida, ele topa com David (Michael Klinger), também casado, que, a pretexto de ajudá-lo a sair do edifício, se esgueira com o rapaz para a lavanderia, onde revela seu desejo secreto por homens: o encontro acaba mal, e o jovem prostituto é amparado por Sam (Paul Gerrior), um homem de meia-idade que se revela uma pessoa solitária e com experiências de vida absolutamente fascinantes. É quando já está quase amanhecendo que o seguro e cobiçado michê descobre, da forma mais surpreendente possível, que dentro do "prédio mais gay da rua mais gay da cidade" pode estar sua chance de encontrar o amor.

Utilizando sem medo a metáfora do prédio sem saída como um retrato da encruzilhada existencial de seu protagonista, "Strapped" felizmente não se mantém como um filme de uma ideia só. Ao apresentar diversos tipos de homossexuais, ele quebra as barreiras de estereótipos e mostra ao público momentos de grande humanização de todos eles, desde o russo que nunca esqueceu o primeiro amor até o homem de meia-idade sedento por um abraço e uma boa conversa. Sem deixar de lado o aspecto mais festivo do mundo gay (com direito a cocaína, álcool e stripteases), Joseph Graham busca principalmente mostrar a comunidade homossexual masculina com todos os seus problemas e algumas eventuais alegrias. Até soa um tanto melancólico em boa parte do tempo, mas tal opção cabe perfeitamente em seu objetivo de tirar da prostituição masculina o glamour que muitos filmes acabaram por emprestar. Ainda que o protagonista não esteja exatamente desgostoso com sua profissão, o roteiro deixa claro sua solidão, os perigos que ele corre e até mesmo a falta de vínculos que o impede de encontrar o amor e o carinho não remunerados. O final feliz que finalmente consegue vislumbrar - depois de uma bela sequência romântico/erótica - é realista ao mesmo tempo em que flerta com o romantismo mais assumido. Essa surpresa final (essa ruptura com o quase pessimismo anterior) é que faz de "Strapped" um filme acima da média, apesar de alguns problemas decorrentes do perceptível orçamento baixo. É um filme que merece ser descoberto e admirado, não apenas por seu público-alvo mas por todos aqueles que admiram produções que falam sobre pessoas - seus medos, inseguranças e pequenas felicidades. Uma pequena pérola do cinema LGBT.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O SONO DA MORTE

O SONO DA MORTE (Before I wake, 2015, Relativity Media, 97min) Direção: Mike Flanagan. Roteiro: Mike Flanagan, Jeff Howard. Fotografia: Michael Fimognari. Montagem: Mike Flanagan. Música: Danny Elfman, The Newton Brothers. Figurino: Lynn Falconer. Direção de arte/cenários: Patricio M. Farrell/Tim Pope. Produção executiva: Mali Elfman, David S. Greathouse, Lew Horwitz, Michael Ilitch Jr., Dale Armin Johnson, D. Scott Lumpkin, Julie B. May, Glenn Murray. Produção: Sam Englebardt, William D. Johnson, Trevor Macy. Elenco: Kate Bosworth, Thomas Jane, Jacob Tremblay, Annabeth Gish. Estreia: 07/4/16

Coisas do destino: se o filme "O sono da morte" tivesse sido lançado na data prevista, em setembro de 2015, um de seus maiores trunfos provavelmente teria passado batido. No entanto, sua produtora, a Relativity Media, declarou falência antes de sua estreia e deixou-lhe em um limbo de onde sairia apenas em 2016, quando foi comprado e distribuído internacionalmente pela Netflix. De uma certa forma, foi um percalço providencial: quando finalmente a produção de Mike Flanagan viu a luz do dia, seu ator-mirim, Jacob Tremblay, já era uma pequena grande estrela graças à "O quarto de Jack", que virou queridinho da crítica e deu a Brie Larson o Oscar de melhor atriz. Assim como na dramática história de mãe e filho presos em um cativeiro durante anos, o suspense de Flanagan tem na diminuta figura de Tremblay seu maior destaque: em uma trama que foge do terror fácil, o garotinho dá mais um show, oferecendo consistência dramática e sensibilidade à uma história que mistura tensão, fantasia e sobrenatural sem nunca definir-se completamente por nenhum dos gêneros com que flerta. Apesar dessa indecisão (ou talvez até por causa da ousadia de tal proposta), "O sono da morte" acaba por ser o melhor filme do diretor que, no mesmo ano de 2016, lançou outros duas produções de terror: "Hush: a morte ouve" e "Ouija: origem do mal".

Assim como o australiano "O Babadook", de 2014, usava um monstro assustador como metáfora para a depressão, em "O sono da morte" o diretor Flanagan (também coautor do roteiro e editor) também explora sentimentos de tristeza e solidão para narrar o encontro entre um casal em luto pela morte do filho pequeno e um menino órfão que tem problemas para encontrar novos pais graças a um estranho dom (ou maldição) que o impede de levar uma infância normal. Os pais, Jessie e Mark, são interpretados por Kate Bosworth e Thomas Jane, em atuações apenas corretas. Inconsoláveis com a morte do filho ainda criança, eles decidem amainar a dor através da adoção de Cody (um trabalho impecável de Jacob Tremblay, já mostrando o potencial que o mundo conheceria em seu filme seguinte). Órfão e traumatizado por uma série de lares que acabaram por não efetivar sua adoção, o menino de oito anos é recebido com carinho e atenção, mas não demora para que estranhos acontecimentos abalem a estrutura de seu novo lar: o que começa com a aparição inesperada de belas borboletas coloridas e a surpreendentes visitas do falecido filho torna-se, aos poucos, uma espécie de pesadelo vívido. E não é apenas impressão, já que Cody tem o poder de transformar todos os seus sonhos em realidade - inclusive a constante aparição de um monstro que se recusa a abandonar o garoto.


O mais interessante no roteiro de Flanagan é a sua opção por inserir elementos de terror em uma história repleta de dor e melancolia, tornando-os ferramentas narrativas dúbias ao espectador escolado no gênero. Mesmo que a aparição do monstro que atormenta Cody não acrescente nenhuma novidade aos filmes de terror que são lançados a granel, sua função na trama foge do óbvio ao não limitar-se apenas a provocar sustos. O "Homem-Cancro" que aterroriza o menino e o faz desesperadamente evitar noites de sono tem um alcance psicológico muito maior do que se poderia esperar em um filme de suspense, mas isso não o impede de, como bom vilão, ameaçar a paz dos personagens em sequências desenhadas com louvável cuidado pela fotografia discreta e pela trilha sonora eficiente em sublinhar cada sentimento da aflita família. São nos momentos de maior pavor que o pequeno Jacob Tremblay mostra a que veio, lembrando, com uma atuação segura e surpreendente, a impressionante presença de Haley Joel Osment em "O sexto sentido" (1999). Diante dele, Kate Bosworth e Thomas Jane - não exatamente grandes atores - empalidecem, mas felizmente não deixam escapar o tom, entregando interpretações consistentes mesmo quando a trama parece estar a um passo do inverossímil.

Vendido erroneamente como um filme de terror comum, "O sono da morte" pode pegar o espectador de surpresa: na verdade, é um drama familiar denso e angustiante, que se aproveita dos clichês de um gênero pouco afeito a ousadias para fazer pensar e emocionar. Essa ambiguidade é, ao mesmo tempo, uma de suas maiores qualidades e um de seus maiores defeitos: ainda que acrescente camadas mais inteligentes a um estilo normalmente rígido em suas regras, pode afastar os fãs mais radicais. No fim das contas, vale a pena conferir nem que seja para perceber que o pequeno Tremblay não brilhou em "O quarto de Jack" apenas por sorte: ele é realmente um espanto de ator.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

HEDWIG: ROCK, AMOR E CONFUSÃO (Hedwig and the Angry Inch, 2001, New Line Cinema, 95min) Direção: John Cameron Mitchell. Roteiro: John Cameron Mitchell, romance de John Cameron Mitchell, Stephen Trask. Fotografia: Frank G. DeMarco. Montagem: Andrew Marcus. Música: Stephen Trask. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Therese DePrez/Liesl Deslauriers. Produção executiva: Michael De Luca, Amy Henkels, Mark Tusk. Produção: Pamela Koffler, Katie Roumel, Christine Vachon. Elenco: John Cameron Mitchell, Michael Pitt, Miriam Shor, Stephen Trask, Theodore Liscinski, Alberta Watson, Maurice Dean Wint. Estreia: 19/01/01 (Festival de Sundance)

Energético, criativo, ousado. É difícil não chegar ao final de uma sessão de "Hedwig: rock, amor e confusão" - um subtítulo desnecessário e bobo, diga-se de passagem - sem que esses três adjetivos não estejam saltitando na mente do espectador. Uma mistura anárquica e debochada de comédia, drama e musical com fortes cores homossexuais, o filme de estreia de John Cameron Mitchell é também uma tour de force que revelou no diretor então iniciante uma capacidade ímpar de surpreender em vários campos de seu ofício: além de comandar o espetáculo e ter escrito o roteiro (adaptado de uma peça teatral de sua autoria), Mitchell também reservou para si o papel principal da produção, em uma decisão ao mesmo tempo corajosa (o mercado para filmes de temática gay nunca foi exatamente grande em Hollywood ou no mundo, especialmente quando eles não tem um grande astro como chamariz) e acertada (sem um grande nome na liderança do elenco, a liberdade criativa estava assegurada). O resultado veio na aclamação da crítica, na profusão de prêmios e homenagens de diversos festivais internacionais e em uma merecida indicação ao Golden Globe de melhor ator em comédia/musical. Melhor que tudo isso, porém, foi a aceitação popular: em pouco tempo, "Hedwig" tornou-se cult por excelência e credenciou seu criador a partir para experiências ainda mais radicais ("Shortbus", de 2006) ou comportadas ("Reencontrando a felicidade", de 2010, que deu à Nicole Kidman uma indicação ao Oscar de melhor atriz).

Nascido no palcos - onde marcou presença desde 1998, quando mesmo sendo uma produção off-Broadway saiu da temporada com prêmios bastante importantes do teatro norte-americano - e muito bem-recebido no cinema, Hedwig é um personagem dos mais exóticos e encontrou em seu criador o intérprete perfeito. Sem medo do ridículo ou do exagero de determinadas situações, Mitchell encarna com segurança e determinação tanto o drama quanto a comédia que existem na trajetória do protagonista, conduzindo a narrativa com um misto de gêneros que, em mãos menos capazes, poderia facilmente tornar-se dispersivo. Inserindo números musicais na narração da trajetória de Hedwig desde sua infância até a vida adulta e ilustrando-os com animações criativas e irreverentes, o cineasta/roteirista convida a plateia a mergulhar em um universo à parte, recheado de personagens excêntricos e/ou idiossincráticos e sequências que, a despeito da seriedade de seu conteúdo, nunca ultrapassam o tom de sarcasmo e ironia. No final das contas, a leveza de "Hedwig" acaba por ser seu maior trunfo.


Logo na primeira cena a plateia já é apresentada a tudo que virá pela frente: com um figurino inspirado no glam rock dos anos 70, Hedwig é a vocalista de uma banda que tenta lutar contra a indiferença de uma audiência formada pelos frequentadores ocasionais de um restaurante. É pouco para seu talento, principalmente quando ela começa a contar sua trajetória até ali e se descobre que ela é a responsável pelo sucesso de Tommy Gnosis (Michael Pitt), um ídolo pop de fama internacional que só está no topo do sucesso graças às músicas que ela compôs quando ambos estavam juntos. Recheando sua narrativa com sarcasmo e deboche, Hedwig viaja à Alemanha de infância um tanto traumática, à juventude de descobertas sexuais (e um bizarro casamento com um militar, que resultou em uma cirurgia de sexo incompleta que lhe inspirou a batizar seu grupo musical de "Angry Inch" - a polegada irada) e suas desventuras amorosas e artísticas. Recusando-se terminantemente a apelar para qualquer espécie de sentimentalismo ou autopiedade, Hedwig frequentemente ri da própria desgraça e disfarça sua dor com canções que vão da melancolia à mais pura gozação. Com uma performance vocal arrebatadora somada a seus méritos como ator, Mitchell constrói um personagem-título inspiradíssimo, que desperta no público um misto de compaixão e admiração, mesmo que em determinados momentos sua garra em mostrar-se forte e resiliente impeça o espectador de conectar-se emocionalmente a ele. É somente quando sua máscara de altivez desaparece e um ser humano surge sob ela que o filme se torna mais fascinante e palpável. Uma pena que isso ocorra tão raramente.

"Hedwig: rock, amor e traição" é um filme de concepção anárquica e sagaz, quase uma desconstrução dos musicais típicos de Hollywood. É muito mais "Velvet goldmine" (98), de Todd Haynes, do que qualquer produção com Fred Astaire ou Judy Garland. É devasso, ousado, quase ultrajante em seu modo de ver e transmitir temas delicados, mas paradoxalmente é dono de uma pureza quase comovente. É como se John Cameron Mitchell fizesse de seu protagonista um anti-herói dotado de uma ingenuidade maleável, que se adequa através da ironia a um mundo de decepções e libertinagem. Não tenta arrancar compaixão do público, quer apenas fazê-lo rir e divertir-se por uma hora e meia de boa música e transgressão. É bem-sucedido em boa parte do tempo - é impossível não admirar-se com a variedade de talentos de seu criador - mas corre o risco de aborrecer àqueles que, de certa forma, não pertencem a seu público-alvo. Os mais conservadores devem ficar à distância do filme de Mitchell na mesma medida em que todos aqueles que procuram o cinema para romper com os padrões estéticos e/ou sociais devem fazer dele um programa obrigatório. Basta decidir em qual time se encaixar e esperar por 95 minutos de diversão - ou procurar um entretenimento mais careta.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

A ONDA

A ONDA (Die welle, 2008, Rat Pack Filmproduktion, 107min) Direção: Dennis Gansel. Roteiro: Johnny Dawkins, Ron Birnbach, adaptação de Dennis Gansel, Peter Thorwarth, conto de William Ron Jones. Fotografia: Torsten Breuer. Montagem: Ueli Christen. Música: Heiko Maile. Figurino: Ivana Milos. Direção de arte/cenários: Knut Loewe/Tilman Lasch. Produção: Christian Becker. Elenco: Jurgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt, Jennifer Ulrich, Christiane Paul. Estreia: 18/01/08 (Festival de Sundance)

Em abril de 1967, um professor de História chamado Ron Jones, conduziu uma experiência com seus alunos de Palo Alto, na Califórnia, tentando provar a eles que regimes ditatoriais como o nazismo poderiam tranquilamente encontrar espaço em qualquer sociedade democrática do pós-guerra. O trabalho acabou rendendo um romance escrito por Morton Rhue (pseudônimo de Todd Strasser) e uma adaptação para a televisão escrita por ele mesmo. Em 2007, o cineasta Dennis Gansel, cujo avô fez parte da juventude hitlerista, seduzido por suas promessas de proporcionar-lhe uma carreira artística, encontrou na narrativa de Jones o material ideal para um filme que demonstrasse, nas telas de cinema, sua ideologia contrária a qualquer tipo de fascismo. Nascia, então, "A onda", uma transposição honesta, forte e inquietante que estreou no Festival de Sundance de 2008 e, com um final mais impactante do que o livro e a história real, conquista o público com uma trama surpreendente e chocante.

O protagonista é Rainer Wenger (Jurgen Vogel), um carismático professor de história que, mesmo com planos de utilizar o conceito de anarquia para um projeto com seus alunos, acaba sendo obrigado pela direção a optar pelo seu exato oposto, a autocracia. Como forma de mostrar aos jovens que um regime autoritário não floresceu por acaso na Alemanha nazista, ele propõe a eles que formem um novo e rígido sistema político dentro da própria sala de aula, tendo-o como líder. A princípio tímidos e relutantes, aos poucos os estudantes começam a empolgar-se com a ideia, especialmente quando os mais introvertidos e problemático passam a experimentar o gostinho de pertencer a um grupo e os demais percebem a importância da união que surge entre eles. Porém, com o tempo, as coisas começam a sair do controle de Wenger: o uniforme obrigatório do grupo (batizado como "A onda") se transforma imediatamente em uma espécie de passaporte para um mundo com novas regras e leis, que exclui aqueles que não compartilham de seu pensamento, e, utilizando-se de seu logotipo como propaganda, alguns dos membros iniciam uma campanha para impor suas ideias. Sentindo que algo está muito errado, a jovem Karo (Jennifer Ulrich) - expulsa do grupo por não concordar com suas normas - tenta abrir os olhos do namorado, Marco (Max Riemelt), jogador de polo aquático que vê na turma de colegas o apoio que necessita para se tornar um atleta mais bem-sucedido.


Com um roteiro simples e direto, que vai envolvendo a plateia cada vez mais, conforme a experiência de Wenger vai saindo de seu controle, "A onda" é um filme alemão com um ritmo ágil e inteligente que dialoga muito mais com o cinema americano do que com produções europeias com pretensões artísticas. Apesar da questão cada vez mais relevante que apresenta para discussão, em nenhum momento o filme de Dennis Gansel se propõe a ser mais do que entretenimento acima de tudo. Para isso, não abre mão do suspense, do drama, de pitadas de romance e de um clímax arrebatador, que leva quase às últimas consequências a proposta inicial. Com uma direção correta, que não corre riscos desnecessários e conduz a narrativa de forma sóbria, "A onda" se apoia basicamente em sua empolgante premissa e em seus (bons) atores, Jurgen Vogel à frente: sem exagerar nas tintas de seu mestre apaixonado que vê seu experimento escapar de suas mãos de maneira trágica, Vogel não procura o brilho fácil, dividindo a atenção com um elenco de jovens intérpretes dotados de garra e carisma suficientes para manter o público ligado até as últimas cenas. Max Riemelt - que anos depois estaria no elenco da cultuada série "Sense 8" - é um dos destaques, como um rapaz dividido entre a fidelidade a seus colegas (e consequentemente à sua futura carreira no esporte) e a noção de que algo está muito errado nas regras propostas por seu líder.

Apresentando algumas sequências bastante interessantes visualmente - em especial no terço final, quando o diretor se utiliza do branco do uniforme do grupo para enfatizar a falta de individualidade dos personagens - e conduzido com discrição, "A onda" é um filme de suma importância nos tempos difíceis de obscurantismo e fascismo que vem tomando conta do mundo. Alertando para os perigos do totalitarismo, o belo trabalho de Dennis Gansel consegue aquilo que o bom cinema deveria conseguir sempre: entreter e fazer pensar, divertir e questionar. Pode suscitar muitas discussões e só por isso já deveria ser mais conhecido e louvado - mas além disso, é uma história interessante e bem contada, amparada por um roteiro sóbrio e um elenco esforçado. Imprescindível em qualquer momento histórico!

sábado, 18 de fevereiro de 2017

BELEZA OCULTA

BELEZA OCULTA (Collateral beauty, 2016, New Line Cinema/Village Roadshow Pictures, 97min) Direção: David Frankel. Roteiro: Allan Loeb. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Andrew Marcus. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Leah Katznelson. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Kara Zeigon. Produção executiva: Michael Bederman, Bruce Berman, Richard Brener, Peter Cron, Michael Disco, Toby Emmerich, Steven Muchin, Steven Pearl, Ankur Rungta. Produção: Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes, Allan Loeb, Michael Sugar. Elenco: Will Smith, Edward Norton, Kate Winslet, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Jacob Latimore. Estreia: 12/12/16

Conhecido por liderar o elenco de produções de bilheteria milionária, como "Independence Day" (96) e "Homens de preto" (97), o ator Will Smith entrou no século XXI disposto a mostrar que também sabia ser sério quando necessário - e de cara recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por "Ali" (2001). A partir daí dividiu a carreira em produções que se escoravam unicamente em seu carisma para conquistar o público - "Eu, robô" (2004), "Hitch: conselheiro amoroso" (2005), "Eu sou a lenda" (2007) e "Hancock" (2008) - e tentativas de manter sua aura de intérprete dramático e maduro - "À procura da felicidade" (2006, que lhe rendeu outra indicação à estatueta dourada), "Sete vidas" (2008) e "Um homem entre gigantes" (2015). É dessa segunda leva que surgiu "Beleza oculta", uma sensível e um tanto inverossímil fábula sobre o amor, o perdão e a esperança dirigida pelo mesmo David Frankel da comédia "O diabo veste Prada" (2006). Ficando com o papel principal que foi de Hugh Jackman até que problemas de agenda o impediram de manter-se no projeto, Smith entrega mais um desempenho memorável, ao lado de um elenco estelar que conta com Kate Winslet, Edward Norton, Keira Knightley e Helen Mirren. Sucesso apenas moderado nos EUA, o filme é uma adocicada fábula natalina que pode até emocionar aos menos exigentes mas carece de um roteiro menos óbvio - apesar de sua reviravolta final relativamente surpreendente.

Quando o filme começa, o público é apresentado ao publicitário Howard - interpretado de corpo e alma por Smith - comemorando, ao lado dos sócios, um ano extremamente produtivo e bem-sucedido profissionalmente. Três anos mais tarde, porém, a situação é bastante diferente: sua agência está em franco declínio com a perda de importantes clientes, basicamente devido à falta de interesse de Howard, que perdeu todo o entusiasmo com a vida desde a morte de sua única filha, fato que o levou ao divórcio e uma depressão profunda. Preocupados com Howard - ou mais precisamente com os problemas financeiros que sua nova rotina pode acarretar - seus três colegas resolvem tomar uma atitude tão desesperada quanto surreal: sabendo que, em seus delírios, o rapaz escreveu cartas melancólicas ao Amor, ao Tempo e à Morte, eles contratam três atores de teatro amador para confrontar o rapaz e fazê-lo voltar ao normal. A ideia, no entanto, não é assim tão altruísta, já que o objetivo também é desacreditar Howard diante de investidores e obrigá-lo a vender sua parte na empresa. É assim que entram em cena Brigitte (Helen Mirren), Amy (Keira Knightley) e Raffi (Jacob Latimore) - respectivamente, a Morte, o Amor e o Tempo - para ajudar a resolver a situação. Nesse meio-tempo, Howard tenta frequentar um grupo de apoio às pessoas de luto, liderado por Madeleine (Naomi Harris) - também uma mulher lutando contra a tristeza depois de perder uma filha.


O roteiro de "Beleza oculta" poderia centrar-se apenas na história de Howard e seus amigos imaginários, mas, para embaralhar ainda mais as coisas, seus três sócios também tem problemas com os quais lidar. Whit (Edward Norton) passa por um divórcio complicado e tem uma relação difícil com a filha adolescente; Claire (Kate Winslet), solteira, vê o tempo passar diante dos seus olhos sem que consiga realizar o sonho de tornar-se mãe; e Simon (Michael Peña), esconde de todos uma doença grave e incurável que em breve o privará da companhia da família. A seu modo, todos estão lidando com as abstrações citadas por Howard em seus momentos de tristeza, mas a trama deixa de aprofundar-se nas questões levantadas, preferindo contar uma história linear e recheada de sentimentalismo, que tenta emocionar ao apelar para o limite entre o comovente e o piegas. Apoiando-se no talento incontestável de seu elenco - que faz o possível e o impossível para dar consistência e verossimilhança a personagens nem sempre bem construídos no papel - o filme de David Frankel é visualmente atraente e cativa a plateia por apresentar com fluência emoções primárias e universais, mas falha ao subestimar a inteligência do espectador: tudo é entregue de forma maniqueísta e simplória, sem espaços para nada mais do que uma narrativa previsível e sem maiores traços de inventividade.

Will Smith está ótimo, convencendo em todas as nuances de seu personagem - assim como Helen Mirren consegue atingir as notas certas de sua Brigitte. Mas é uma pena que Frankel tenha desperdiçado atores tão talentosos quanto Edward Norton e Kate Winslet em papéis sem grandes possibilidades. "Beleza oculta" é um bom filme para quem procura se emocionar ou para os fãs do estupendo elenco reunido por David Frankel, mas deixa a sensação de promessa não totalmente cumprida, já que perde a oportunidade de ouro de ser inesquecível ou ter o impacto possível - tanto junto ao público quanto em relação à crítica, que torceu o nariz para seu roteiro raso e justificou sua falha também em conquistar os eleitores da Academia de Hollywood: mesmo com sua estreia acontecendo em dezembro (época quente para as produções que ambicionam indicações ao Oscar), foi ignorado por todas as cerimônias de premiação. Infelizmente não é o caso de ter sido injustiçado: é um filme agradável, mas jamais marcante.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM HOMEM CHAMADO OVE

UM HOMEM CHAMADO OVE (En man som heter Ove, 2015, Tre Vanner Produktion AB, 116min) Direção: Hannes Holm. Roteiro: Hannes Holm, romance de Fredrik Backman. Fotografia: Goran Hallberg. Montagem: Fredrik Morheden. Música: Gaute Storaas. Figurino: Camilla Lindblom. Direção de arte/cenários: Jan Olof Agren. Produção executiva: Michael Hjorth, Fredrik Wikstrom. Produção: Annica Bellander, Nicklas Wikstrom Nicastro. Elenco: Rolf Lassgard, Bahar Pars, Filip Berg, Ida Engvoll, Tobias Almborg. Estreia: 13/12/15

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Maquiagem

Talvez nem mesmo os mais assíduos frequentadores de mostras de cinema e festivais internacionais consigam fazer, sem pensar por um bom tempo, uma lista de filmes suecos que conseguiram ultrapassar as barreiras do idioma e chegar às telas nacionais nos últimos vinte anos. Não tão tradicionais e populares no Brasil como as produções espanholas, francesas e italianas, os filmes da terra de Ingmar Bergman apenas ocasionalmente tem a oportunidade de romper o hermetismo do mercado brasileiro de exibição - e para que isso aconteça, nada mais oportuno e eficaz do que uma indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Por isso - e logicamente por suas qualidades inerentes - o emocionante "Um homem chamado Ove" conseguiu a façanha de conquistar o público sem apelar para efeitos visuais de última geração ou orçamentos inchados. Adaptado do romance de Fredrik Backman - que vendeu mais de 700 mil exemplares em sua língua original - e dirigido por Hannes Holm, o filme tornou-se um enorme sucesso na Suécia, chegando a figurar entre as cinco maiores bilheterias da história do país antes de começar uma vitoriosa trajetória em festivais que culminou com sua candidatura à estatueta dourada. Simples, direto e de fácil comunicação com a plateia, é um oásis de delicadeza em meio à pretensão do cinema que convencionou-se chamar de "cabeça" pelo simples fato de não ser falado em inglês.

Ao contrário do alemão "Toni Erdmann", seu rival na disputa pelo Oscar, que já tem refilmagem hollywoodiana engatilhada apesar de ser dolorosamente chato, "Um homem chamado Ove" nem precisa ganhar um remake para cativar a plateia. Contando uma história universal de amor, perda e redenção, o roteiro do também diretor Holm brinca com duas linhas temporais para iluminar a rotina de um senhor que, às vésperas de completar 60 anos, perde o sentido da existência ao ser demitido e perder a esposa a quem idolatrava. Interpretado com maestria por Rolf Lassgard, o protagonista se apresenta como um homem amargurado e de mal com a vida, que passa os dias implicando com os vizinhos e tentando manter a ordem no condomínio fechado em que mora, no interior da Suécia. Ranzinza e fechado, ele vê seu dia-a-dia ser transformado com a chegada de uma nova família ao local. A jovem iraniana Parvaneh (Bahar Pars), grávida e mãe de duas meninas, se torna uma inesperada fonte de vivacidade e prazer na vida do solitário ancião, que também ajuda o marido da nova amiga, Patrik (Tobias Almborg), a adaptar-se em sua nova realidade. Aos poucos, sua existência cinzenta ganha novas cores, e seus constantes desejos de morrer - refletidos em suas frequentes e frustradas tentativas de suicídio - dão lugar a um relacionamento construtivo que muda inclusive sua percepção dos demais companheiros de condomínio.


Iluminando o passado de Ove através de elucidativos flashbacks que explicam seu comportamento atual, o filme de Holm utiliza-se de uma edição inteligente - ainda que relativamente comum - para revelar ao público diferentes nuances do protagonista. Interpretado ainda por Filip Berg em sua juventude e Viktor Baagoe na infância, Ove se demonstra, a cada cena, uma pessoa dona de uma personalidade complexa, consequência de uma vida repleta de amor e paixões - seja pela esposa, Sonja (Ida Engvoll), ou por carros e motores, que lhe fascinam desde criança. Conforme o roteiro vai avançando e os reais sentimentos de Ove vão sendo expostos pela bela fotografia e pela doce trilha sonora, o filme vai alcançando uma dimensão bem mais humana e singela do que se poderia supor. Mesmo apelando para o clichê em sua estrutura dramática, o filme jamais se deixa atrapalhar pelo previsível ou pela apatia: seu protagonista é, sim, um típico idoso chato e desagradável, cheio de manias e regras, mas a forma com que ele transforma tudo isso em combustível para uma nova fase da vida é capaz de desenhar um sorriso no rosto do mais cínico dos espectadores. E para isso, nem é preciso uma grande reviravolta ou armadilhas sentimentalistas.

Contando sua história com delicadeza e um senso de ritmo que evita tempos mortos, Hannes Holm convida a plateia a testemunhar, sem pressa, a mudança de percepção do personagem principal em relação à vida e ao que ela (ainda) o oferece. De forma surpreendente, o roteiro consegue cativar a audiência tanto nos flashbacks que contam a história de amor entre Ove e Sonja quanto em seu presente tedioso, alterado pela convivência com a juventude e a esperança de seus novos companheiros de jornada. Mesmo que não apresente maiores novidades em sua trama, é um filme dotado de uma beleza tão simples e delicada que se torna impossível não se deixar envolver por ele. Um belo programa, que merece ser descoberto pelo público que gosta de ter o coração aquecido por uma boa e humana história sobre pessoas que podem estar na casa ao lado.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A LEI DA NOITE

A LEI DA NOITE (Live by night, 2016, Warner Bros, 129min) Direção: Ben Affleck. Roteiro: Ben Affleck, romance de Dennis Lehane. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: William Goldenberg. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Chris Brigham, Chay Carter, Dennis Lehane. Produção: Ben Affleck, Jennifer Davisson, Leonardo DiCaprio, Jennifer Todd. Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Sienna Miller, Chris Messina, Robert Glenister, Remo Girone, Zoe Saldana, Chris Cooper. Estreia: 13/12/16

Não é a primeira vez que os caminhos de Ben Affleck e do escritor Dennis Lehane se cruzam: a estreia de Affleck como diretor, em 2007 foi com a adaptação do romance "Gone baby, gone", batizada no Brasil como "Medo da verdade" e que deu à Amy Ryan uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante. De lá pra cá, Affleck colecionou elogios e prêmios com novas incursões à carreira de diretor - como a estatueta de melhor filme, por "Argo", em 2013 - e Lehane viu outro livro seu ganhar as telas ("Ilha do medo", de Martin Scorsese, de 2010) e chegou a roteirizar um conto seu em "A entrega", dirigido por Michael R. Roskam em 2014. O reencontro entre os dois, porém, não foi dos mais felizes: apático e desinteressante, "A lei da noite" decepcionou nas bilheterias e foi desprezado pela crítica e pelas cerimônias de premiação, tornando-se, até agora, o elo mais fraco de uma filmografia que vinha se mostrando bastante consistente e empolgante. Mesmo contando com algumas louváveis qualidades, o quarto trabalho de Affleck como diretor não empolga nem cativa o espectador - e só não é ainda pior porque, inteligente e já experiente, ele soube cercar-se de uma equipe acima de qualquer suspeita, que disfarça suas eventuais falhas.

Abandonando sua temática urbana contemporânea, Lehane buscou, para "A lei da noite", raízes no cinema noir e em sua iconografia facilmente reconhecível pelos cinéfilos: estão presentes no filme a narração em off, mulheres fatais, regras de moral bastante elásticas, violência e o visual deslumbrante oferecido pelo premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" (91). Porém, apesar de todos os elementos estarem no lugar, há algo que falta ao resultado final: alma. Apesar da reconstituição de época caprichada, do excelente trabalho do elenco (exceção ao próprio Affleck, mau ator como em seus piores dias) e da ambientação sofisticada, não existe empatia em relação ao protagonista e até mesmo as tramas secundárias são apresentadas de forma confusa, em um roteiro que não se aprofunda em nenhuma delas e ainda deixa o público sem ter por quem torcer. Tivesse deixado o ego um pouco de lado e escalado um ator melhor para viver o personagem principal (como Leonardo DiCaprio, que foi considerado mas permaneceu apenas como um dos produtores) talvez parte do problema resolvido, mas sua falta de expressão acaba por ser o tiro de misericórdia em uma produção morna e lenta que em nenhum momento empolga a plateia. A falta de personalidade de "A lei da noite" pode até ser creditada às diferenças criativas entre o diretor e a Warner Bros - que exigiu um filme com mais ação em detrimento de diálogos e uma trama mais psicológica que era a intenção de Affleck e deixou o resultado final capenga - mas é inegável que o domínio narrativo apresentado nos trabalhos anteriores do diretor/ator/roteirista faz uma enorme falta quando se assiste a um filme com mais de duas horas de duração que parecem o dobro de tempo quando a sessão acaba.


Assim como todo policial noir, "A lei da noite" acompanha a trajetória de um anti-herói. Joe Coughlin (Ben Affleck) é o filho caçula de um respeitado policial de Boston (Brendan Gleeson), mas isso não o impede de flertar abertamente com o mundo do crime, assaltando bancos e roubando até mesmo dos perigosos mafiosos que lucram com a Lei Seca. Um desses golpes o aproxima de Emma Gould (Sienna Miller, irreconhecível), que também é amante de um poderoso chefão local. Tal romance acaba por colocá-lo em maus lençóis: condenado à prisão e sabendo da morte da bela namorada, ele sai da cadeia disposto a vingar-se e aceita trabalhar com um dos rivais de seu novo inimigo. Enquanto sobe na carreira, se envolve com a cubana Graciela (Zoe Saldana), um relacionamento que irá despertar a fúria da Ku Klux Klan e deixá-lo em rota de colisão com rivais que também buscam enriquecer com o contrabando de bebidas - e posteriormente com o jogo. Para proteger-se, Coughlin se aproxima do xerife local, Figgis (Chris Cooper) e de sua ambiciosa filha, Loretta (Elle Fanning).

Com tantos personagens e tramas paralelas jogadas na tela, "A lei da noite" sofre de um sério problema de foco. Ben Affleck desperdiça alguns ótimos personagens como coadjuvantes de uma trama central clichê e sem novidades, deixando de lado atuações milagrosas de Chris Cooper e Elle Fanning e concentrando-se na relação entre seu protagonista e Graciela e em sua trajetória como criminoso: nenhuma das duas histórias é forte o bastante para manter o espectador interessado, e ambas são desenvolvidas superficialmente, quase com preguiça, o que é um pecado mortal para um filme que se pretende um thriller policial. Não deixa de ser lamentável que uma produção tão cuidadosa e com tantos talentos envolvidos tenha ficado tão aquém de seu potencial. Dessa vez Ben Affleck errou feio. "A lei da noite" não é um filme insuportável, mas está longe de ser bom como poderia ser - e mais longe ainda do que se esperava dele.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

EDIFÍCIO MASTER (Edifício Master, 2002, Videofilmes, 110min) Direção e roteiro: Eduardo Coutinho. Fotografia: Jacques Cheuiche. Montagem: Jordana Berg. Produção executiva: João Moreira Salles, Mauricio Andrade Ramos. Estreia: 03/10/02

Quem conhece a obra do cineasta Eduardo Coutinho sabe de sua quase sobrenatural capacidade de arrancar declarações inesperadas de seus entrevistados - e até mesmo de transformar a mais comum das pessoas em um personagem inesquecível e fascinante. Esse talento único está em grande forma em um dos seus melhores trabalhos, "Edifício Master", lançado em 2002 e referência obrigatória para todos os fãs do gênero. Parte da lista dos 100 melhores filmes nacionais de todos os tempos elaborada pela Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) em 2015 e premiado nos festivais de Gramado e Havana, além da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), o brilhante trabalho de Coutinho reflete como poucos a diversidade do país, utilizando-se para isso um prédio de apartamentos residenciais, localizado em Copacabana, no Rio de Janeiro. Ao contrário da imagem de glamour e luxo que o endereço pode transmitir em um primeiro momento, os moradores escolhidos pelo diretor para contarem um pouco a respeito de suas vidas são pessoas simples e idiossincráticas, que compõem um panorama eclético e emocionante de uma parte numerosa e frequentemente ignorada do Brasil: a classe média baixa, com seus altos e baixos pessoais, profissionais e familiares.

Ao dar voz a indivíduos aparentemente simples mas dotados de complexidades que são reveladas gradualmente, conforme as entrevistas vão se desenrolando, Eduardo Coutinho deixa claro ao espectador que, mais do que buscar a excentricidade de cada um, ele procura suas banalidades - e, por consequência, sua humanidade mais radical. Com uma variada gama de personalidades em mãos, o cineasta faz do público o voyeur não apenas de um vizinho qualquer, mas de quase quatro dezenas deles, devassando suas intimidades e pensamentos mais honestos. Desfilam pela tela tanto jovens sonhadores e/ou presos a doenças psicológicas ou sociais, casais com histórias de amor variadas, um veterano ator de televisão, uma garota de programa, pessoas de meia-idade amarradas a um passado saudoso que não volta mais, uma ex-dançarina que fez fama no Japão na juventude e vários outros rostos desconhecidos que vão revelando suas grandezas e mesquinharias sem medo de julgamentos ou críticas. Dotado de momentos emocionantes - como o morador que canta "My way", de Frank Sinatra, com os olhos marejados de lágrimas - e outros bastante curiosos - a jovem maníaco-depressiva que tem fobia de pessoas e não consegue sequer olhar nos olhos de Coutinho, por exemplo - "Edifício Master" é um fascinante compêndio sobre a natureza humana, repleto de uma verdade de que somente os melhores documentários conseguem atingir.


Mesmo que tenha escolhido um número relativo pequeno de moradores - 37, de um universo de cerca de 500 à época das filmagens - Eduardo Coutinho comprova, com sua inteligente amostragem, que existem sentimentos que unem todos os seres humanos. A solidão, por exemplo, é uma constante participante das entrevistas, tanto nos personagens mais jovens quanto naqueles mais experientes - tanto nos solteiros quanto nos casados. O que Coutinho faz com admirável destreza é escancarar as portas de cada apartamento, convidando o público a penetrar em vidas de completos estranhos que, alguns minutos mais tarde, tornam-se quase íntimos. Nenhuma história soa pequena diante do vasto interesse do diretor na alma humana: da senhora assaltada que não consegue livrar-se do trauma, da jovem expulsa grávida da casa dos pais e que recomeça a vida no prédio, dos jovens músicos em busca de uma oportunidade, de uma rígida imigrante que acredita que o trabalho duro é a única forma de manter a sanidade física e financeira e do casal de viúvos apaixonados depois de se conhecerem em um anúncio de jornal, tudo é matéria-prima para a curiosidade carinhosa do documentário, que prescinde de artifícios narrativos para atingir seu objetivo: não há nada mais no cinema de Coutinho do que ele mesmo, seus convidados, uma câmera e a emoção que surge em cada minuto. É simples, direto e extremamente eficiente.

Um prédio de 12 andares com 276 apartamentos e que já foi o lar de nomes como Rogéria, Elke Maravilha e Leila Diniz, o Edifício Master passou por mudanças radicais desde o lançamento do filme. Se no momento da realização ele já não era mais o lar de prostitutas, drogados e cafetões que foi por um período de tempo - graças à uma administração mais séria e menos liberal - mais de uma década depois as coisas estavam ainda mais atraentes para seus moradores. O preço dos apartamentos, por exemplo, disparou de cerca de R$ 35 mil em 2002 para R$ 700 mil em 2015, ano em que Eduardo Coutinho morreu assassinado pelo próprio filho, vítima de esquizofrenia. O porteiro ganhou uniforme, as câmeras de vigilância ficaram mais sofisticadas e os moradores tornaram-se, por algum tempo, celebridades do bairro, sendo reconhecidas nas ruas e supermercados como estrelas de cinema. Suas solidões encontraram eco na plateia, que descobriu, graças à imensa sensibilidade que escorre de cada entrevista, que seres humanos são, essencialmente, uns iguais aos outros, com suas dores e delícias. Uma obra-prima atemporal e universal!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DZI CROQUETTES (Dzi Croquettes, 2009, Canal Brasil, 110min) Direção: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Montagem: Raphael Alvarez. Produção executiva: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Produção: Raphael Alvarez. Estreia: 04/9/09

Em 1972, em plena ditadura militar, que havia privado a população civil da liberdade de expressão, um grupo de teatro formado por 13 atores/dançarinos sem medo de enfrentar o preconceito e dispostos a quebrar todas as regras pré-estabelecidas surgiu como um sopro de ar fresco nos palcos do Rio de Janeiro. Batizados de Dzi Croquettes - em uma homenagem debochada ao grupo norte-americano The Coquettes - e desafiando o bom-comportamento compulsório que vigorava no país, eles chocaram e conquistaram públicos surpreendidos com um humor cáustico e transgressor que não demorou em chamar a atenção da repressão - e os levar a buscar novos horizontes na Europa. Celebrados em Paris (onde tinham como madrinha ninguém menos que Liza Minelli), eles conheceram a fama, o delírio e uma liberdade artística que influenciou todo o teatro brasileiro dos anos subsequentes. Como forma de resgatar as lembranças de um período histórico da cultura nacional e apresentar às novas gerações uma das mais importantes manifestações artísticas já criadas nos palcos, o documentário "Dzi Croquettes" estreou no Festival Internacional de Cinema do Rio em setembro de 2009 e começou uma vitoriosa trajetória internacional, arrebatando prêmios em Los Angeles, Miami, São Francisco e Turim. Dirigido por Raphael Alvarez e Tatiana Issa, o filme é um precioso estudo sobre o amor ao teatro, a liberdade de expressão, a amizade e a genialidade de um grupo de pessoas que, munidas de bom-humor, garra, dedicação e muito talento, deixaram uma marca indelével nas artes cênicas do Brasil.

Acompanhando a trajetória da companhia desde seus primeiros passos - com a liderança crucial do bailarino norte-americano Lennie Dale, que também foi responsável por transformar Elis Regina em fenômeno dos palcos além da grande cantora que sempre foi - e mergulhando o espectador em um universo de alegria e coragem, os diretores constroem um minucioso mosaico histórico e cultural, que não apenas joga luz sobre cada um dos treze integrantes da divertida trupe, mas também ilumina um período de trevas pelo qual passou a arte brasileira, cerceada e violentada pela repressão mais vil e ignorante. Apesar de situar com clareza sua narrativa no auge da ditadura militar, porém, o filme opta, acertadamente, pelo tom alegre e alto-astral que caracterizava as apresentações. Borrando propositalmente as barreiras da sexualidade, eles subiam ao palco travestidos como mulheres, mas sem a preocupação de esconder a barba ou os pelos do corpo, criando um novo estilo de encenação que misturava música, teatro, dança e crítica social da mais inteligente e cáustica possível. De sua criação até o exílio na Europa - com direito a um final melancólico e algumas mortes traumatizantes - o documentário de Alvarez e Issa mapeia com precisão a importância de seus espetáculos para o futuro do teatro nacional e não tem medo de ensaiar momentos de grande emoção, mesmo que sutil.


Filha do cenógrafo Américo Issa, que trabalhou em alguns espetáculos do Dzi Croquettes, a codiretora Tatiana aproveita a deixa para acrescentar a um trabalho já relevante e imprescindível como documento histórico, uma dose de nostalgia e sensibilidade extra. Sem deixar-se cair na armadilha do sentimentalismo, ela usa de sua própria experiência (ainda criança) nos bastidores dos espetáculos para situar a companhia como um núcleo familiar sui generis, conforme eles mesmos se consideravam. Dando a cada um dos atores o espaço merecido, o roteiro mescla imagens de arquivo preciosas e entrevistas reveladoras de integrantes, fãs e artistas cujo trabalho foi diretamente influenciado por seu espírito transgressor e cáustico. Miguel Falabella, Cláudia Raia e Pedro Cardoso, por exemplo, revelam como o besteirol - gênero teatral brasileiro por nascimento e excelência - deve muito de sua estrutura aos roteiros nonsense das peças e como Lennie Dale fez dos palcos nacionais um pedaço da Broadway. Algumas integrantes das Frenéticas também dão seu depoimento, lembrando como a personalidade de cada membro da equipe oferecia ao conjunto uma identidade própria e inimitável.

Mas são as entrevistas com os Dzi Croquettes ainda vivos que dão ao documentário o sabor especial que lhe transforma em um espetáculo raro. Inteligentes, sensíveis e cientes de sua importância no cenário teatral brasileiro (e mundial), eles contam histórias saborosas a respeito dos bastidores, enquanto relembram suas relações interpessoais, muitas vezes difíceis e muitas outras fascinantes. Amigos, colegas, amantes e familiares, os atores da companhia viviam sob o signo da liberdade total, inserindo em seu teatro todas as rebeldias e idiossincrasias que faziam deles artistas únicos que afrontavam toda e qualquer regra que porventura considerassem ultrapassadas. Uma festa constante nos palcos e nos bastidores, o grupo acabou por dar origem a um documentário que mantém vivos seus ideais e reflete, com delicadeza e a devida reverência, toda a grandeza de sua coragem. Um filme imprescindível para os amantes do teatro, das artes e da liberdade!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS

PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12

Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?


Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.


A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.

Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O MESTRE DOS GÊNIOS

O MESTRE DOS GÊNIOS (Genius, 2016, Desert Wolf Productions/Riverstone Pictures, 104min) Direção: Michael Grandage. Roteiro: John Logan, livro de A. Scott Berg. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Dickens. Música: Adam Cork. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: James J. Bagley, A. Scott Berg, Tim Bevan, Nik Bower, Tim Christian, Ivan Dunleavy, Arielle Tepper Madover, Deepak Nayar. Produção: James Bierman, Michael Grandage, John Logan. Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby. Estreia:16/02/16 (Festival de Berlim) 

Foi em 1983 que John Logan leu o livro "Max Perkins: editor of genius", de A. Scott Berg, que foi o vencedor National Book Award de 1978. De lá até 2016, quando finalmente viu sua adaptação ganhar as telas de cinema, Logan tornou-se um dos roteiristas mais conceituados de Hollywood, com três indicações ao Oscar no currículo ("Gladiador", "O aviador" e "A invenção de Hugo Cabret") e crédito em duas aventuras de James Bond ("007 - Operação Skyfall" e "007 contra Spectre"). Seu prestígio, no entanto, não ajudou muito a alavancar "O mestre dos gênios", que, mesmo contando com um elenco de vencedores e indicados ao Oscar e falando de alguns dos maiores escritores americanos do século XX, naufragou fragorosamente nas bilheterias e sequer foi lembrado pelas cerimônias de premiação - o mais perto que chegou disso foi concorrer ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Tal resultado não deixa de ser um reflexo da qualidade do filme de estreia do ator Michael Grandage como diretor: a biografia de Max Perkins, editor de nomes consagrados da literatura, como Thomas Wolfe, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, é apenas correta, passando bem longe de ser uma experiência memorável.

Na pele de um Colin Firth contido e sem cacoetes, Max Perkins surge como um visionário editor da celebrada Scribners, capaz de enxergar nas caudalosas páginas do novato Thomas Wolfe (Jude Law substituindo Michael Fassbender e saindo-se bastante bem) um provável sucesso de crítica. Wolfe, por sua vez, é um gênio excêntrico e dotado de todas as características típicas de pessoas como ele: quase arrogante, inteligente e capaz de escrever milhares de páginas apenas para descrever um objeto. Casado com Aline Bernstein (Nicole Kidman), uma mulher que o apoia mas se ressente de ser frequentemente deixada em segundo plano em relação à sua arte, o autor de obras elogiadas mas difíceis como "Olhe para casa, anjo" e "Do tempo e do rio" (ambos inéditos no Brasil) encontra em Law um retrato não exatamente fiel fisicamente, mas energético e fascinante a ponto de eclipsar seus colegas de cena. A relação entre ele e Perkins, um homem de família discreto e dedicado à sua profissão, é mostrada com delicadeza por Grandage - especialmente quando o filme lança luz a seus maiores desafios: cortar os excessos do romancista, tornando palatáveis suas obras escandalosamente prolixas. De certa forma, Perkins era quase um coautor dos livros de Wolfe, o que lhes alterava a relação puramente comercial em algo muito mais emocional e fraterno. Assim, o escritor frequentava a casa do editor, convivia com sua esposa, Louise (Laura Linney) e os filhos e o levava para suas farras noturnas.


Mas nem só da amizade entre Wolfe e Perkins trata o roteiro de "O mestre dos gênios". De forma ligeira e quase superficial, entram em cena, para deleite dos fãs de literatura, outros nomes de suma importância para o mundo das letras do século XX. Guy Pearce vive um decadente e sofrido F. Scott Fitzgerald, já na época em que sua esposa, Zelda (Vanessa Kirby), passava por graves crises depressivas e ele mesmo sentia-se incapaz de escrever qualquer obra que lembrasse vagamente seus melhores trabalhos. Ernest Hemingway também surge, interpretado com precisão por Dominic West, que empresta ao escritor ares de sujeito mundano, mais interessado em pescarias do que em máquinas de escrever. Tais respiros, mais do que simplesmente tirar um pouco o foco da amizade entre os protagonistas, serve também para localizar o espectador em um período específico do século e desmistificar alguns dos maiores autores da história, oferecendo a eles uma aura mais humana e menos inalcançável. O artifício funciona: Guy Pearce está particularmente bem como um Fitzgerald cansado e desiludido e Dominic West, mesmo em uma única cena, dá um belo vislumbre da personalidade de Hemingway, assim como Corey Stoll fez com maestria em "Meia-noite em Paris", de Woody Allen. São esses momentos, fora do arco narrativo principal de "O mestre dos gênios" que, paradoxalmente, fazem dele um filme interessante e o salvam do lugar-comum.

Não deixa de ser surpreendente, no entanto, que, mesmo com um profissional experiente como John Logan, seja justamente o roteiro um dos principais problemas do filme de Grandage. Sem conseguir imprimir em seus protagonistas o grau de empatia suficiente para conquistar o espectador, a história acaba por tentar impor-se mesmo sem ter força para isso. Escorando-se basicamente em um relacionamento profissional/fraternal sem maiores lances dramáticos, a trama acaba por arrastar-se por longos 104 minutos, tentando encontrar atrativos além do elenco excepcional para cativar a atenção da plateia. É uma produção caprichada, com uma reconstituição de época cuidadosa e personagens lendários vividos por atores de primeira linha, mas esbarra em uma falta absoluta do que contar em seu terço final. É um desperdício, mas mesmo com seus pecados, ainda é um filme que pode agradar a quem procura conhecer um pouco mais de seus autores favoritos. Uma pena que até mesmo nesse ponto é superficial demais para acrescentar algo a mais na carreira dos envolvidos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O CORPO

O CORPO (El cuerpo, 2012, Antena 3 Films/Canal + España, 108min) Direção: Orion Paulo. Roteiro: Orion Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Joan Manel Vilaseca. Música: Sergio Moure de Oteyza. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Nuria Muni. Produção executiva: Pepes Torrescusa. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: José Coronado, Belén Rueda, Hugo Silva, Aura Garrido, Miquel Gelabert. Estreia: 04/10/12

Na primeira cena, um homem corre apavorado, sob uma chuva torrencial, e é atropelado na estrada, indo parar no hospital, em coma com diversas fraturas graves que o impedem de revelar às autoridades o motivo pelo qual ele abandonou seu posto como vigia de um necrotério de forma tão atribulada. Chamado para investigar o caso, o detetive Jaime Peña (José Coronado) descobre, logo que chega ao local, outro fato bastante estranho: o desaparecimento do corpo da empresária Mayka Villaverde Freire (Belén Rueda), recentemente vítima de um ataque cardíaco fatal. O necrotério se localiza perto de um bosque fechado, chove abundantemente e a sala onde ficam os cadáveres está trancado por dentro, o que deixa tudo ainda mais nebuloso. Sem saber por onde começar a investigação, Jaime chama o viúvo, Álex Ulloa Marcos (Hugo Silva) - e assim tem início um dos mais engenhosos e inteligentes filmes de suspense realizados pelo cinema espanhol. Dirigido e coescrito pelo jovem Oriol Paulo, "O corpo" é um daqueles filmes de prender a atenção da primeira à última cena - e deixar o espectador abismado com uma reviravolta final consistente e verossímil. Graças a um roteiro enxuto que equilibra sustos e personagens bem construídos, o público se vê mergulhado em uma trama onde nada é exatamente o que parece - e absolutamente qualquer diálogo tem importância fundamental no desenvolvimento do enredo.

A chegada de Álex ao necrotério - onde se vê à disposição do interrogatório de Jaime, desconfiado por alguma razão das declarações do viúvo - dá o pontapé inicial para um jogo de gato e rato dos mais instigantes. Jaime é um personagem rico em nuances: viúvo e com uma relação complicada com a filha que vive em Berlim, ele não consegue levar a vida adiante de maneira saudável, e vê no trabalho uma válvula de escape para seu drama particular. Certo de que Álex sabe mais do que aparenta em relação ao sumiço do corpo da esposa, ele não se permite falhar em sua caça à verdade - e o jovem, casado com uma mulher mais velha e poderosa, dá todos os motivos do mundo para que o veterano policial desconfie de suas atitudes. Conforme a ação avança, a plateia é informada de que ele vive um tórrido romance com Carla Miller (Aura Garrido) - e que tal caso extraconjugal pode ter relação com a morte de Mayka. Qual a conexão entre todos esses elementos é o grande trunfo do roteiro, que encontra na direção certeira de Paulo a tradução mais adequada. Como um herdeiro de Alfred Hitchcock - e qual diretor de filmes de suspense não o é? - o cineasta constrói uma teia de pistas falsas, informações desencontradas e personagens suspeitos para brindar a plateia com um entretenimento de primeira qualidade, que em nada fica a dever a produções hollywoodianas muito mais ambiciosas.


É óbvio, porém, que o elenco ajuda bastante. Belén Rueda desfila sua classe e charme na pele da sedutora milionária Mayka Villaverde, sempre mesclando doçura, paixão e um tom de mistério; Hugo Silva está à vontade como o pouco confiável Álex, um homem que pode ser tanto culpado quanto vítima; e José Coronado é a terceira peça fundamental do trio de protagonistas, um homem despedaçado por uma tragédia familiar que vê em sua obsessão em provar a culpa de Álex uma válvula de escape que pode levá-lo em direção a um caminho sem volta, perigoso e chocante. Oriol Paulo conduz seus atores com extrema precisão, arrancando de cada um deles o máximo de tensão com o mínimo de informações, desnorteando o espectador até os últimos minutos, quando o quebra-cabeças finalmente faz sentido - não de forma artificial como acontece na maioria dos filmes de trama preguiçosa, mas organicamente, com as pontas sendo amarradas com uma maestria digna de Agatha Christie. Como em uma peça de teatro milimetricamente arquitetada, os atores forjam uma sintonia que envolve o público até que ele esteja totalmente entregue às viradas da trama - no que são muito auxiliados pela trilha sonora discreta e eficiente e pela edição ágil na medida certa: não apressa os acontecimentos nem tampouco abusa de cenas longas e explicativas.

Uma gratíssima surpresa para fãs do gênero, "O corpo" é um filme que pode ser visto e revisto diversas vezes sem que nunca perca sua qualidade dramática. Mesmo que seu final já seja conhecido, o público pode acompanhar suas diversas camadas sempre descobrindo novos detalhes e aplaudindo a conjunção perfeita entre direção, elenco, roteiro e técnica. Em uma filmografia tão centrada em dramas e comédias como a espanhola, não deixa de ser um respiro louvável e uma demonstração de extrema inteligência e criatividade. Um filme imperdível!