quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A PELE DE VÊNUS (La Vénus à la fourrure, 2013, R.P. Productions, 96min) Direção: Roman Polanski. Roteiro: Roman Polanski, David Ives, romance de Leopold von Sacher-Masoch, peça teatral de David Ives. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Hervé de Luze, Margot Meynier. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Dinah Collin. Direção de arte/cenários: Bruno Via/Philippe Cord'homme. Produção: Robert Benmussa, Alain Sarde. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner. Estreia: 25/5/13 (Festival de Cannes)

Quando trabalhou junto com a atriz Emmanuelle Seigner pela primeira vez, no thriller "Busca frenética" (1988), o diretor Roman Polanski encontrou na bela francesa uma esposa e uma musa. Desde então dirigiu-a em "Lua de fel" (1992) e "O último portal" (1999), mas nunca teve a oportunidade de mostrar à plateia a evolução de seu talento como atriz, adquirida com a experiência e a maturidade. Trabalhando com o marido pela primeira vez em seu idioma natural - o francês - a bela Seigner finalmente teve a chance de deixar de ser coadjuvante para ser a estrela em "A pele de Vênus", que estreou no Festival de Cannes 2013 com efusivos elogios e rendeu ao veterano Polanski um César (o Oscar francês) de melhor diretor. Com um roteiro inspirado na peça de teatro de David Ives - por sua vez baseado no romance homônimo de Leopold von Sacher-Masoch - o filme volta a brincar com a obsessão do cineasta por ambientes claustrofóbicos, e envolve a plateia em um jogo de sedução e dominação inteligente e perspicaz, que tem especial ressonância àqueles apaixonados por teatro. Com uma invejável química entre Seigner e Mathieu Amalric - que substituiu Louis Garrell pouco antes do começo das filmagens - e um ritmo que se mantém em constante ebulição, "A pele de Vênus" é mais um filme que confirma Roman Polanski como um inquieto criador de obras perturbadoras e densas.

Uma clara homenagem ao teatro - forma de arte de que o próprio Polanski já se utilizou em filmes como "A morte e a donzela" (2004) e "O deus da carnificina" (2013) - e à arte da atuação, "A pele de Vênus" é, também, uma sofisticada obra de arte, recheada de referências culturais e psicológicas, que, ao contrário do que poderia acontecer, jamais soa pedante ou inalcançável. É, sem dúvida, muito acima da média do cinema popular (em que o cérebro do espectador raramente é acionado), mas dificilmente pode ser acusado de intelectualizado em excesso. Ao abraçar uma estrutura puramente teatral - sem respiros artificiais ou tramas paralelas desnecessárias - o roteiro, coescrito pelo diretor e pelo autor da peça original, exige da plateia uma atenção e uma disposição absolutas, mas lhe dá em troca um espetáculo do mais alto nível. É contra-indicado àqueles que reclamam da verborragia do teatro filmado, mas suas qualidades cinematográficas - a edição precisa, a trilha sonora impecável de Alexandre Desplat, a direção segura de Polanski - conseguem facilmente conquistar a admiração até do mais exigente espectador que se deixar envolver pela complexa relação estabelecida entre seus dois protagonistas.


Thomas (Mathieu Amalric) é um dramaturgo que está em vias de estrear como diretor, adaptando um clássico e polêmico romance escrito no século XVIII. Depois de testar dezenas de candidatas ao principal papel feminino e quase desistindo de sua busca, ele se vê surpreendido pela bela e determinada Vanda (Emmanuelle Seigner), que chega ao teatro onde os ensaios devem tomar forma com o firme objetivo de mostrar a ele que é a atriz ideal para viver a personagem, que, coincidentemente, tem o mesmo nome que ela. A princípio recusando-se a testar Vanda por ela ter chegado atrasada e parecer pouco apropriada fisicamente ao papel, aos poucos Thomas vai percebendo que, por trás de sua aparência vulgar e pouco inteligente, ela é uma mulher não apenas completamente dedicada à sua profissão como também apaixonada pelo texto - do qual ele tem indisfarçável orgulho. Não demora para que ele se deixe seduzir pelo talento da moça, que transforma uma simples audição em um sagaz jogo de dominação - que é, afinal, o tema da peça de Thomas. Cada vez mais certo de que Vanda (por coincidência ou não, o mesmo nome da protagonista de sua trama) é a melhor escolha para a peça, ele aceita sua proposta de fazer uma espécie de ensaio informal ali mesmo, diante de uma plateia vazia: surge, então, uma bizarra relação entre os dois.

E é esse relacionamento sui generis que conduz "A pele de Vênus" durante seus 96 minutos. Valorizando cada trecho de diálogos - bem escritos, inteligentes, irônicos e questionadores a respeito de temas como fetichismo e a complexidade das relações homem/mulher - mas jamais esquecendo as ferramentas do cinema (edição, fotografia), Polanski brinda o espectador com um brilhante exercício artístico, que sublinha o melhor de cada linguagem e as reapresenta em forma de um novo e excitante tabuleiro, onde cada nova cena ilumina um novo lado da personalidade - do texto, da direção e dos personagens, que se multiplicam conforme a narrativa vai se tornando mais e mais sinuosa. Para sua sorte, conta com dois atores excepcionais nas reviravoltas dramáticas e que seguram com extrema habilidade cada nuance proposta pelo roteiro. Elegante, fascinante e inteligente, "A pele de Vênus" é o melhor que um teatro filmado pode ser.

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